O que o jogo contra o Tubarão poderia representar ao torcedor do Atlético Paranaense? A princípio, o Furacão tinha mais a perder do que a ganhar no confronto pela segunda fase da Copa do Brasil. A eliminação seria tratada como vexame, enquanto o triunfo soava como mera obrigação. Porém, ao final de um duelo alucinante na Arena da Baixada, especialmente durante os 50 minutos da etapa final, os rubro-negros ganharam uma partida para carregar na memória. Daquelas noites em que se experimenta todo o tipo de emoção. Em que a fé se testa a cada minuto, e a alegria é suplantada pela raiva, e então pela esperança, e então pelo desânimo, e então pelo insubstituível júbilo do gol decisivo nos instantes finais. Foram nove tentos, quatro viradas no placar. E a vitória atleticana por 5 a 4, que resume toda a felicidade e a dor de ser Furacão.

O primeiro tempo nem de longe indicou tamanho pandemônio. Os 45 minutos iniciais sequer movimentaram o marcador. O Atlético dominava a partida e pressionava no ataque, mas parava no goleiro Belliato. Foram boas defesas do camisa 1, negando o primeiro gol rubro-negro. Enquanto isso, a paciência da torcida com o atacante Ribamar estourava. Vaiado, sequer voltaria ao segundo tempo. E a entrada de Bergson contribuiu para a revolução ocorrida na Baixada.

Aos sete minutos da etapa complementar, o próprio Bergson abriu o placar. Em boa trama dos paranaenses, Rossetto cruzou para o atacante completar de carrinho. A reação do Tubarão, contudo, veio à galope. Aos 10 minutos, Matheus Barbosa aproveitou cobrança de falta e cabeceou firme às redes. Já aos 18, mais uma bola pelo alto, que Batista desviou. A primeira virada acontecia.

O Atlético não demorou a responder. Partindo para cima, empatou novamente aos 25. Bergson arriscou de longe e, no rebote do goleiro, Rossetto não perdoou. Já aos 31, os rubro-negros retomaram a vantagem. Guilherme sofreu pênalti e ele mesmo converteu, recobrando a tranquilidade à torcida atleticana. Mas o alívio só durou dois minutos. O jogo aéreo foi novamente o pesadelo do Furacão e, completando cobrança de escanteio, Lucas Costa empatou ao Tubarão. E aos 40, aquela que parecia a virada definitiva. Em contra-ataque dos catarinenses, David Batista arrancou, Romarinho ajeitou e Daniel Costa mandou no ângulo. Naquele momento, 4 a 3.

Nos minutos restantes, a incredulidade do torcedor do Atlético Paranaense era evidente. O time esteve à frente do placar duas vezes e duas vezes permitiu que o Tubarão se recuperasse. Seria uma questão de vontade, sobretudo dentro de campo. Esforço que valeu a pena, recompensando a fé de quem se manteve ao lado do Furacão. Aos 45, Nikão cruzou e Thiago Heleno cabeceou no canto. Naquele instante, o jogaço estaria fadado aos pênaltis. Os catarinenses quase anotaram o quinto, em um chute de Paulo André que Nicolas Farias bloqueou dentro da área e quase tomou a direção das redes. Em cima da linha, o goleiro Santos agarrou.

O milagre, afinal, seria do Atlético. E o papel de herói recairia sobre os ombros de Felipe Gedoz, pedido pela torcida. O meia entrou em campo aos 42 segundo tempo. Aos 48, apareceu de maneira providencial, anotando justamente o gol mais bonito entre os nove da noite. Carleto fez a jogada pela esquerda e, após passar pela marcação de Romarinho, rolou para o companheiro no bico da grande área. Gedoz pegou na veia. O tirambaço veio seco, retilíneo, diretamente ao travessão. Explodiu na barra, quicou no chão e estufou as redes. Nada mais digno de um camisa 10. Nada mais justo a uma partida intensa como essa.

Nesta madrugada, pouco importa o destino do Atlético Paranaense no restante do ano. Os rubro-negros querem desfrutar o épico da Baixada. A discussão sobre a fragilidade da defesa, sobre os problemas no jogo aéreo ou sobre o nível do adversário são para depois. Agora, preso na retina está o chutaço de Gedoz. Fica a voz rouca de tanto gritar, a mente tonta de tanto variar, os pés doloridos de tanto pular. Cabelos arrancados, unhas roídas, braços erguidos. É a noite que já marca 2018 para os atleticanos. E que permanecerá por anos.

PS: Apenas para não deixar passar batido, outras duas torcidas viveram uma quarta maluca na Copa do Brasil – não tão incessantes, mas igualmente definidas nos últimos suspiros. Justamente adversário do Atlético Paranaense na próxima fase, o Ceará superou o Londrina com um tento aos 48 do segundo tempo. Arthur decretou a virada por 2 a 1 no Estádio do Café. Já o Figueirense derrotou o Oeste por 2 a 1 aos 46. O zagueiro Cleberson possibilitou a proeza no Orlando Scarpelli.