Novo coordenador da seleção é o senhor Waldemar. Ou quase isso

É celebre no mundo do futebol o anúncio pelo Flamengo, em 2003, de que o novo técnico do clube seria Waldemar Lemos. Quando a direção do clube anuncia que “o novo técnico do Flamengo será o senhor Waldemar” há alguns segundos de silêncio, e a sensação de “afinal quem é Waldemar?”. A reação da torcida começa com “Waldemar é o c••••o!” e continua com o coro “A a a, Fora Waldemar!”.

Confesso que desde que Felipão foi demitido já fiz a piada do Waldemar umas 200 vezes, provavelmente porque a usei pouco em 2003, quando ainda tinha graça. A sensação de ver Gilmar Rinaldi se sentar ao lado do José Maria Marin e anunciar em seguida que seria o próximo coordenador da Seleção foi parecida. Todo mundo sabia quem era aquele, mas havia uma espécie de “descolamento”, como se ao invés de uma pessoa estivesse ali um pinguim, um guaxinim, enfim, alguém que ninguém esperaria ver anunciado como coordenador da Seleção.

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Surpresa. Absoluta surpresa. Surpresa não pelo que é Gilmar Rinaldi, ainda que não seja um bom começo o cara ter sido empresário de jogador até ontem. Surpresa pelo que ele não é. Não pelo que sabemos sobre ele, mas pelo que não sabemos, e que ninguém pode saber. Gilmar tem uma coisa só em seu currículo que o credencia ao cargo: foi jogador de futebol com passagem pela seleção brasileira. É muito, muito pouco.

A surpresa foi tão grande, porém, que a crítica se tornou ruído. Gallo foi criticado até pelo que falou de bom, e Gilmar foi criticado só por estar ali. “Ah, mas ele falou que o problema da Seleção foi o boné.” Não, ele não falou. Reclamou da mensagem ser dirigida a quem estava de fora, e não a quem entraria. Posso concordar ou não, mas ninguém disse que o problema era o boné.

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A dificuldade de analisar o situação a partir de agora é só essa: é como se a CBF tivesse anunciado que o senhor Waldemar, ou o senhor João da Silva, que ninguém conhece, vai mandar em tudo. Ninguém sabe o que Gilmar pensa sobre o futebol, que preparo tem para assumir o cargo que está assumindo, onde pretende chegar e como. O que tem que ser feito não é tão difícil de apontar. O que é impossível é saber se Gilmar tem condições de fazê-lo. Não ter anunciado o técnico hoje pode ser um bom sinal, um sinal de que candidatos serão entrevistados e avaliados. Mas pode também não ser nada disso, pode ser só que até aqui ninguém aceitou a bucha.

Em quase tudo o que ouvimos e dissemos nos últimos dias, há alguns consensos. Um deles é o que de nossos técnicos precisam se atualizar. Outro, que com a dupla José Maria Marin e Marco Polo Del Nero no comando é impossível mudar. Um terceiro, o de que os únicos nomes “aceitáveis” no Brasil seriam os de Tite e Muricy.

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Começando pelo começo, acho que não pode haver dúvida de que é necessária uma atualização. Só que esta atualização não vai acontecer do dia para a noite. Nossos técnicos não vão adquirir chips que podem ser implantados em seus cérebros e, de repente, passar a ser mestres da tática. Nem nossos torcedores e dirigentes vão passar a ter a paciência necessária para que um trabalho de renovação seja feito sem pressões exageradas.

Com este pensamento, qualquer técnico do primeiro nível do futebol brasileiro pode funcionar se tiver por trás um projeto. Sim, eu sei, “projeto” é uma palavra que associamos aos piores defeitos de Vanderlei Luxemburgo. O problema de Luxa, porém, não era ter um projeto, era falar que tinha um sem tê-lo. Que é exatamente o que o Brasil não pode fazer de novo.

O projeto para a seleção brasileira precisa ter começo meio e fim. Precisa definir quais são os objetivos, como pretende chegar a eles e quais serão as métricas para saber se estamos avançando.

Ao contrário da maioria, não acho que formar jogadores seja uma prioridade. Para a Alemanha, sim, é uma prioridade, mas não para o Brasil. Por aqui, o problema não é formar o jogador, é fazer os que brotam da terra conseguirem atuar em um esquema de jogo, ou melhor, em mais de um esquema, em uma filosofia. É não depender tanto do craque. E é ter segurança nesse esquema para não derreter diante de um imprevisto. Para além disso, na Alemanha dá pra controlar o que está acontecendo na formação, não só pelo tamanho do país como pela estrutura do futebol. No Brasil, onde quem forma não necessariamente são os clubes que atuam nas maiores ligas, simplesmente não há como.

Os objetivos do Brasil têm que ser: definir uma filosofia para o time; escolher um grupo amplo mas não tão amplo de jogadores que serão observados SOB A ÓTICA DESTA FILOSOFIA; definir um grupo que começará o trabalho; e fazer os ajustes neste grupo até o próximo Mundial.

Marco Polo Del Nero e José Maria Marin antes de Brasil x Chile na Copa do Mundo (Ricardo Stuckert/CBF)

Marco Polo Del Nero e José Maria Marin antes de Brasil x Chile na Copa do Mundo (Ricardo Stuckert/CBF)

Uma filosofia para o time pode ser praticamente qualquer uma. Não acho que o brasileiro seja obcecado pelo futebol vistoso, acho que ele é obcecado pelo futebol que ganha com segurança. Ou seja: o brasileiro não gostava dos 1 a 0 do Tite não porque ele não jogava bonito, mas porque você sempre tinha a sensação de que o time poderia levar o empate a qualquer momento – Diego Souza poderia ter enterrado a bela história recente do Corinthians, certo? Se o time for seguro atrás, conseguir ter a bola e marcar os gols que precisa, qualquer filosofia serve. O problema é que não pode simplesmente ser um esquema de jogo, que é o que Tite tinha no Corinthians, nem que seja um esquema que tenha algumas variações. Tem que ser uma filosofia que permita jogar em diferentes esquemas. Não precisa ser um esquema pra cada adversário, mas precisa haver a possibilidade de mudar o esquema quando ele não estiver funcionando. Lembremos: Tite, por exemplo, nunca teve um período longo como o de Copa do Mundo, com sucesso o tempo todo – ao contrário de Muricy. Os adversários vão aprendendo como seu time joga, alguns jogadores vão cansando, perdendo rendimento, e se não houver variação, o time para na primeira onda de sucesso.

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O Brasil precisa também definir, e tornar público, um grupo de mais ou menos 50 jogadores que estão nos planos para o próximo ciclo. Esse grupo tem que ser reduzido aos poucos, e, claro, quem está dentro pode sair, e quem está fora pode entrar. Mas precisa haver um processo organizado de testes. Cada jogador deve ser observado algumas vezes, e em algumas situações. O grupo precisa ser forte, diverso e preparado para adversidades, ou seja, não adianta ter 10 zagueiros técnicos e 10 volantes que tocam bem a bola. Há que haver diversidade. E seriedade na escolha dos nomes, transparência na escolha dos nomes, que é o que faltou, por exemplo, no trabalho de Mano Menezes.

Além disso, não basta simplesmente escolher os melhores de cada posição. Há que se escolher os melhores sob a ótica da filosofia de jogo que se quer implantar. Se precisamos de um centroavante, Fred pode ser horroroso, mas pode também ser o melhor que temos. Se não precisamos, não adianta ter Van Basten. O melhor exemplo disso é David Villa no Barcelona. O atacante não cabia no sistema de jogo culé. Acabou encostado, desvalorizado e o time jogou fora o que gastou com sua contratação.

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Isto tudo considerado, como analisar os nomes que todos vêm ventilando? Como funcionaria uma dupla Gilmar e Tite no que o Brasil precisa hoje? E uma dupla Gilmar-Muricy? Começando pelo provável coordenador técnico, é o que dissemos acima. Pode dar 100% certo, 100% errado ou qualquer coisa no meio disso. Ninguém conhece as credenciais de Gilmar para o cargo, ele não tem nenhuma experiência que o credencie a exercê-lo. É, portanto, uma escolha temerária. Além do total mistério sobre o que fará o coordenador, outro problema grave que deve surgir é a absoluta falta de moral diante de qualquer técnico que tenha algum renome. O maior perigo disso não é Tite se desentender com Gilmar. É Gilmar escolher um técnico que possa ser manipulado por ele para evitar essa briga.

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Sobre o treinador, uma eventual escolha de Tite é tão boa quanto qualquer outra se tivermos um contexto como o descrito acima. O ex-comandante corintiano mostrou, porém, em sua passagem pelo Parque São Jorge dois defeitos que precisam ser vigiados. O primeiro é a falta de variações táticas. O time jogava extremamente bem, mas de uma maneira só – com pequenas variações. O problema não é ter um esquema só para um campeonato, ou uma temporada. É não conseguir abandoná-lo quando ele claramente não funciona mais, como foi o caso de Tite. Na Seleção, porém, se houver um trabalho por trás de Tite, isso pode ser consertado.

O outro problema é o relacionamento com os jogadores. Tite criou no Corinthians uma relação próxima com os jogadores, de amizade. O que pode ser muito bom no curto prazo, no médio e longo prazos é ruim. Porque quando o seu “amigo” perde rendimento, é necessário cortá-lo do time, ou colocá-lo no banco. E se ele “jogou pra você” durante o ano anterior, isso pode se tornar complicado. Esta também é uma área em qua a atuação de um coordenador é importante – e na qual, mais uma vez, não temos a menor idéia de como pode atuar Gilmar Rinaldi.

Muricy Ramalho no São Paulo, em 2008 (AP Photo/Eraldo Peres)

Muricy Ramalho no São Paulo, em 2008 (AP Photo/Eraldo Peres)

No caso de Muricy, os defeitos são outros. Criou-se há alguns anos uma lenda de que os times do atual técnico do São Paulo jogam um negócio conhecido como “muricybol”. Quem assistiu o São Paulo jogar entre 2006 e 2008 sabe que o ponto forte do treinador naquele período foi saber mudar o jeito do time jogar para se adaptar às circunstâncias. Se o 9 no primeiro momento era o leve e móvel Leandro, em outro foi o “poste” Aloísio. Impossível dizer que esse time jogou de um jeito só. Muricy se finge de tosco, mas é de longe um dos técnicos brasileiros que mais varia o jogo.

Muricy tem outros defeitos. O primeiro, o mais evidente na primeira passagem pelo São Paulo, é conseguir motivar, pilhar um time para um mata-mata. Sim, Muricy ganhou a Libertadores com o Santos, mas foi seu único sucesso em grande torneio eliminatório e tinha uma equipe tecnicamente muito superior aos adversários. É, porém, um defeito que pode ser contornado pela presença de uma comissão técnica que o ajude.

O maior problema de Muricy, porém, é outro. O técnico do São Paulo não tem paciência com o mundo exterior. Se no clube isso pode funcionar, na seleção é muito difícil que funcione. Se o técnico do São Paulo dá um coice em um repórter, o problema é dele e do São Paulo. Não há nada que o obrigue a ser cortês e paciente. A torcida vai jogar junto sempre, e a mídia pode boicotar o quanto for, se o cara vencer, vai continuar, se não vencer, a mídia pode estar junto que ele vai cair do mesmo jeito.

Na Seleção não é assim. O técnico da Seleção tem que ser paciente e cortês. Precisa ouvir a todos, responder com serenidade e aceitar críticas a seu trabalho. Mesmo que elas sejam idiotas, ou mal-intencionadas. Muricy Ramalho não tem esse perfil. Não sei se pode passar a ter.

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O problema da indicação de Muricy, Tite, ou de qualquer outro, entretanto, não são os defeitos do técnico. São os defeitos do processo. Se você pretende implantar uma filosofia de trabalho, não pode contratar primeiro os profissionais e depois defini-la. Porque se fizer isso, acabará com a filosofia que aqueles profissionais conseguem implantar, e ela pode não ser e melhor.

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No futebol europeu, vários candidatos são entrevistados quando surge uma vaga. Muitas vezes, aquele que era o favorito deixa de ser porque um candidato demonstra entender melhor a filosofia que o clube quer implantar. “Ah, mas você quer que o Marin entreviste os candidatos?” Claro que não, quero que alguém que entenda de futebol os entreviste. E que antes ele tenha definido o que espera de cada candidato. Neste contexto, o técnico pode ser Tite, Muricy, Marcelo Oliveira ou até o senhor Waldermar, desde que ele tenha demonstrado na entrevista que entendeu a filosofia, o projeto, e que é a pessoa mais adequada para implantar ambos. O problema é que, no quadro atual, não parece haver ninguém envolvido no processo que entenda de futebol, ou pelo menos que já tenha demonstrado entender de futebol.

Tite não é um técnico muito diferente de Felipão. Mas chegaria em um contexto diferente, e parece ter a humildade que o ex-treinador não teve. Pode, sim, fazer um bom trabalho desde que observadas condições para isso – algumas das quais sugerimos acima. Da mesma forma com Muricy, observadas as diferenças levantadas acima.

De uma maneira ou de outra, começa mal, muito mal a suposta “renovação” da seleção brasileira. Pode dar certo? Bem, tudo pode dar certo, nunca nos esqueçamos de que o Inter foi campeão da Libertadores com Celso Roth, e depois perdeu para o Mazembe com o mesmo Roth. Não há nada, porém, que sugira um trabalho bem feito daqui para frente.

Marin e Del Nero tinham um caminho pela frente, o de escolher um coordenador com capacidade e experiência e deixar ele trabalhar. Optaram por outro, um tão estranho e obscuro que fica até difícil avaliar o que pode ser feito. Ao que parece, nem ao menos politicamente os dois são bons. Fica difícil enxergar qualquer coisa de positivo no que acontece nesse momento na seleção brasileira.