Nunca haverá outro Cristiano Ronaldo, o símbolo de uma era ao Real Madrid

Existe um Real Madrid antes e um Real Madrid depois de Alfredo Di Stéfano. A contratação do argentino, que dependeu de uma queda de braço com o Barcelona, marca uma transformação aos merengues. Discuta-se o que for ao redor do clube, mas não se nega que o craque liderou em campo a mudança de status dos madridistas. Em um time com outras estrelas, a lenda sempre chamou a responsabilidade. Sempre serviu de referência ao maior esquadrão do futebol europeu no Século XX. Conquistou a Copa dos Campeões cinco vezes, faturou o Campeonato Espanhol mais oito e colecionou outras honrarias menores. A grandeza que a camisa blanca representa é inerente ao que Don Alfredo proporcionou entre as décadas de 1950 e 1960.

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O lugar de Di Stéfano é insubstituível na história do Real Madrid. No entanto, é possível dizer que outra lenda conseguiu dividir a história merengue em um antes e um depois. Olhando em perspectiva, Cristiano Ronaldo representa um dos capítulos mais gloriosos já vividos no Santiago Bernabéu. Assim como Don Alfredo, dependeu de outros craques ao seu lado para fazer tanto. De qualquer forma, é inescapável citar o camisa 7 a cada parágrafo para se recontar a nova era dourada dos madridistas. Os gols do português iluminaram cada passo do clube rumo ao apogeu, quatro vezes vencedor da Champions nos últimos cinco anos. CR7, assim como a Flecha Loira, é irreproduzível. Só haverá um, e mais do que nunca, o adeus é o momento em que isso se torna evidente.

Quando Cristiano Ronaldo chegou ao Santiago Bernabéu, em julho de 2009, não parecia tão diferente de outros negócios midiáticos feitos pelo Real Madrid ao longo da década. Logicamente, os merengues traziam o dono da Bola de Ouro no ano anterior, depois de conquistar a Liga dos Campeões com o Manchester United. Também era tricampeão inglês, ídolo absoluto em Old Trafford, menino dos olhos de Sir Alex Ferguson. Apesar disso, despontava como o novo astro a inaugurar o segundo período galáctico. Em um vestiário que ainda contava com Raúl, e que agregava Kaká, até existia a possibilidade do português ser mais um na tríade. Os holofotes compartilhados, todavia, não eram do feitio do craque. Ele logo começaria a se impor.

A primeira imposição de Cristiano Ronaldo veio através do talento. Uma temporada bastou para o Real Madrid perceber que o investimento altíssimo, o maior da história até então, se pagaria logo. Gols empilhados, o atacante se tornou no melhor do time. Entre o ocaso de Raúl e os problemas físicos de Kaká, não havia dúvidas sobre quem era o novo dono do time. O artilheiro virou uma autoridade pela bola, e nada mais. A aversão ao craque, contudo, resistia. Ora taxado como individualista, ora taxado como vaidoso, ora taxado como egoísta. Ser o melhor do clube mais vencedor da Europa não era suficiente para que muitos se rendessem ao monstro. Ele precisaria de outras revoluções, inclusive dentro de si mesmo.

A segunda imposição de Cristiano Ronaldo veio através do trabalho. E isso aconteceu paulatinamente, ano a ano. Havia doses cavalares de autossuficiência. O camisa 7, entretanto, soube mostrar que isso nada mais era do que o seu espírito vencedor. Nada mais era que o seu desejo de ser o melhor, o que também respingava ao Real Madrid. E que, na verdade, o estereótipo era maior do que a realidade. O CR7 merengue se tornou cada vez mais objetivo. Mais empenhado em desenvolver o seu talento, até porque a concorrência não dava margens à acomodação. O craque se tornou muito mais completo, talhado por seus treinamentos incessantes, pelo aprimoramento físico para estar em plena forma. O tal vaidoso abriu mão de muita coisa para se manter sempre em seu máximo. Resultado? Sua voracidade aumentou, sua capacidade de definição se aproximou da perfeição, seu jogo coletivo se sintonizou. Mais gols, mais assistências, mais vitórias, mais números, mais reconhecimento.

A terceira imposição de Cristiano Ronaldo não tinha como ser contornada. Sua apoteose só seria atingida a partir dos títulos. E depois de tempos difíceis no Bernabéu, especialmente pelo sucesso do Barcelona ou pelos desacertos entre os treinadores da equipe, o esquadrão merengue se ajustou, também com CR7 preponderando dentro do conjunto. Conquistar o Espanhol em 2012 não era suficiente. Retomar a Bola de Ouro em 2013 não era suficiente. A história do Real Madrid depende diretamente da Liga dos Campeões. Com atuações decisivas, a ambição se completou em 2014, sob as ordens de Carlo Ancelotti. Para que, depois de um hiato no qual os rivais davam o troco, a hegemonia se tornasse incontestável com o tricampeonato de 2016 a 2018. Mesmo bem escorado por companheiros competentes, o camisa 7 também carregaria as ambições dos blancos em várias partidas.

Concomitantemente, a quarta imposição de Cristiano Ronaldo vinha pela liderança. Também foi um processo contínuo, desde sua chegada a Madri, e que acompanha o seu amadurecimento no clube. Impressiona a força mental que o camisa 7 carrega consigo. A maneira como consegue motivar os companheiros e assumir os fardos quando preciso. De um jovem talentoso e já consagrado, o atacante saiu como o ponto de referência que os merengues procuravam, não apenas por seu talento, mas também por se colocar como norte. Muito através disso é que os madridistas escancararam o seu senso de grandeza.

O Cristiano Ronaldo que sai do Real Madrid é bem diferente do que chegou, especialmente pela imagem que se tem hoje do craque. De um talento reverenciado, mas por vezes contestado, tornou-se praticamente uma unanimidade. Impossível não se render ao caráter vencedor do atacante. Ao seu empenho para fazer acontecer e, com o peso da idade, também se reinventar. Aos gols, e muitos deles sublimes. Se o objetivo dentro de um campo de futebol é sempre o mesmo, balançar as redes, CR7 o cumpriu como nenhum outro vestindo a camisa blanca. São absurdos 450 tentos em 438 partidas, 105 em 101 aparições pela Liga dos Campeões. O artilheiro fez com que o extraordinário se tornasse corriqueiro, e talvez só com o distanciamento temporal realmente nos daremos conta do que é anotar mais de 50 gols em quase todas as temporadas, balançar as redes 17 vezes apenas em uma Champions, esmerilhar recordes e mais recordes em diferentes âmbitos.

Cristiano Ronaldo, logicamente, não é intocável. Muitos torcedores do Real Madrid se incomodavam com a maneira como exigia salários maiores e, assim, desenrolava uma novela sobre sua renovação a cada final de temporada. Em compensação, a impressão é a de que os merengues estarão em dívida àquilo que o português proporcionou à instituição. Florentino Pérez tantas vezes fez o gosto de seu craque, e o mimou devidamente, mas as cifras não necessariamente acompanharam suas marcas em campo. Pior, as vaias por vezes ecoaram no Bernabéu, ingratidão imensa por aquilo que o artilheiro ofereceu aos madridistas. Até parecia que, se não fizesse a história a cada partida, não seria suficiente a CR7. Para a alegria do clube, quase sempre foi feita, especialmente nos últimos anos.

As declarações de Cristiano Ronaldo logo depois do último título em Kiev, mais contundentes do que nunca, soaram um alarme. Para alguns, se sobrepunha à conquista por um desejo de estar nos holofotes. Na verdade, indicava que era preciso reconhecer, porque o fim de uma era se aproximava. Entre os sinais da presidência de que não era mais imprescindível, a perda do mentor Zinedine Zidane nos vestiários e o claro desejo de buscar novos desafios, CR7 se despediu dos merengues nesta terça-feira. Sai por cima, como o símbolo de um time que superou a era galáctica, que mais se aproximou do que fez Don Alfredo. Como o primeiro nome a ser citado quando se lembrarem destes quatro títulos da Champions em cinco anos. Independentemente de suas vontades de sair e de ser mais correspondido, não se nega que ele entregou tudo o que prometeu aos madridistas. Isso, por si, já rende uma gratidão que não se apaga. Adicione-se a isso a magia, os gols, as comemorações e a maneira como a instituição voltou a se agigantar. É isso que a lenda representa.

O adeus de Cristiano Ronaldo significa um rompimento. Por mais que o Real Madrid traga novos craques, ou mesmo que alguém do atual elenco assuma uma condição acima no protagonismo dos últimos anos, nunca ninguém substituirá o camisa 7. O clube precisará traçar novos rumos, um fato desde a demissão de Zidane, um peso maior agora sem CR7. Será outro time, que precisará trilhar seu próprio caminho aos títulos, até porque o nome mais capaz de conduzi-los não estará mais presente em campo. Claro, os merengues podem faturar o tetra na Champions. Possuem uma base qualificada a isso e capacidade de investimento. Mas já será um novo capítulo. Bem mais difícil de se alcançar, por tudo o que se coloca.

Acaba-se uma era também ao Campeonato Espanhol. Ao menos por enquanto, perde-se um pouco a cor do Clássico, sem mais o contraponto entre os dois melhores deste século. E não se pode esconder que a rivalidade entre os clubes, e a pessoal com Lionel Messi, tornaram o português melhor. Adversários em campo, sempre cordiais fora dele, os dois extraterrestres se imortalizaram juntos. Uma queda de braço que, contudo, termina pendendo às Orelhudas e às Bolas de Ouro do camisa 7 – e que, afinal, trouxe ainda um marco a Portugal, com a conquista da Eurocopa em 2016, um lugar definitivo ao monstro no futebol de seleções.

Na Juventus, Cristiano Ronaldo terá novos desafios e novos desejos. Pode acumular outros recordes, pode buscar novas taças, pode engrandecer outro gigante. Pode tornar-se um ídolo eterno, assim como é para o Manchester United. Independentemente disso, o ápice, por mais longo que tenha sido, vive-se apenas uma vez. E a mitificação do camisa 7 está encravada no esplendor alcançado com a camisa blanca. A recíproca é válida.

Se o casamento não durou até o fim da carreira do ídolo, será eterno pelas memórias que deixou. A magnitude de Cristiano não se resumirá ao Real Madrid. O peso da camisa do Real Madrid existia desde antes de Ronaldo e continuará com toneladas depois. A instituição nunca se acaba com a saída de uma lenda. Mas ela segue em frente de maneira diferente, moldada pela história escrita em conjunto. O que o craque protagonizou e representou será para sempre um emblema carregado no peito.