Di Stéfano começou a chutar bolas nas ruas de Buenos Aires, como muitos craques argentinos, mas havia pensado seriamente em se tornar jogador profissional. O profissionalismo começava a dar seus primeiros passos no futebol argentino naquela época e os atletas eram muito mau pagos. A glória do esporte era muito mais a fama do que os pesos. Seu pai trabalhava no Mercado Nacional de Batata e tinha campos para cultivar. A ideia dele era seguir os passos do seu velho. Até que apareceu um eletricista.

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É desta forma que um dos maiores jogadores da história do Real Madrid refere-se a Alejandro Luraschi, que defendeu as metas do River Plate no começo do século vinte e apadrinhou o garoto no início da carreira que seria tão vitoriosa. Era amigo do pai da Flecha Loira, atacante do clube argentino entre 1910 e 1912. Um dia, a família que imigrou da Itália para a Argentina recebeu a visita de Luraschi, interessado em saber como andavam as coisas. A mãe contou que tinha um filho que jogava futebol muito bem. Era Di Stéfano. Ele contou a sua história ao jornal El País, em uma entrevista:

“Chegou um eletricista, que era jogador do River e conhecia meu pai. Perguntou sobre a família, e minha mãe disse que um dos meninos jogava muito bem. Quando chegou o convite do River para um teste, perguntei: “Quem me recomendou?”. Minha mãe. Quem pensaria que tudo isso seria uma profissão? Quantos jogadores amadores eu conhecia? Jogadores extraordinários que não fizeram carreira porque tinham que trabalhar e levar dinheiro à família. Eu estava estudando, meu pai tinha os campos. Eu lia os convites e dizia: ‘não vou!’ Joguei futebol por acaso. Porque o meu pai conhecia um eletricista”.

Di Stéfano disse que pegou o bonde para fazer o teste um pouco chateado, mas foi aprovado em 30 minutos de observação do treinador Carlos Peucelle. “Ele perguntou: ‘Tem documento de identidade? Dá aqui’. E com isso, fiquei preso para o resto da vida. Com a assinatura, não tinha mais o que fazer. O clube mandava”, contou, na mesma entrevista, um bate-papo particularmente melancólico sobre o seu começo de carreira. Ganhava 20 pesos por partida e gastou os primeiros pagamentos com roupas.

O personagem literário preferido de Di Stéfano chama-se Martin Fiérro, o protagonista de um poema narrativo de José Hernández, famoso na Argentina, que prefere morar no deserto com os índios, “os selvagens”, a usufruir do que a civilização tem a oferecer. A escolha de Di Stéfano não foi tão dramática, e a princípio ele relutou em abraçar a civilização, a fama e as glórias, em detrimento do deserto que seria desperdiçar tanto talento plantando batatas. Agradecemos.

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