A primeira despedida de Júlio César no Flamengo aconteceu sob luzes baixas. A promessa lapidada com esmero na Gávea saiu como goleiro de seleção brasileira, mas não da maneira como gostaria. Herói de títulos em outros anos, viveu um 2004 marcado por frustrações, inclusive no Brasileirão, quando salvou os rubro-negros de uma corrida agonizante contra o rebaixamento. Ia em litígio com a diretoria, em tempos de salários atrasados e outras bagunças corriqueiras, mas sabendo que seu futuro poderia ser brilhante (como foi) na Internazionale. As despedidas, aliás, nunca foram o forte do camisa 1. Na Seleção, aquele que pareceu o adeus em 2010 terminou com falha. E a volta em 2014 não foi triunfal, embora ele seja mais responsável pela classificação cardíaca contra o Chile do que por qualquer um dos sete gols da Alemanha. Do alto de seus 38 anos, Júlio César merecia um pouco mais de reconhecimento no Brasil. Com certo atraso, ele veio. Veio com a grandiosidade do Maracanã, com o calor da torcida do Flamengo, com a paixão do clube de coração e com as lágrimas de uma fraternidade vivida no futebol.

O último ato da carreira de Júlio César foi um gesto de gratidão mútua. O Flamengo dava espaço ao seu melhor goleiro nas últimas décadas, para a reverência necessária. E o veterano, em abnegação muito maior, vinha apenas para se juntar ao grupo e ter algumas chances de voltar a campo, mesmo recebendo um salário irrisório dentro dos padrões do futebol. Muito mais uma prova do profissionalismo do camisa 1, bem como de seu amor pelo clube onde iniciou sua trajetória ainda garoto. Ao longo destes três meses, não se ouviu nada contra o velho ídolo. Era mais um dentro do grupo, para ajudar no dia a dia. Estava muito mais para servir do que para ser servido. Quando pôde reaparecer em campo, correspondeu.

E se a campanha no Campeonato Carioca ficou abaixo do que se esperava para homenagear Júlio César, era preciso escolher outro caminho. O momento não se mostrava propício, entre a crise perene do futebol rubro-negro e os resultados pouco convincentes de um elenco sem definição. Ainda assim, criou-se a oportunidade no início do Campeonato Brasileiro. O duelo contra o América Mineiro poderia ser uma bela furada ao veterano. Entraria em uma partida competitiva, com o clube pressionado, correndo o risco de uma derrota. Mas o arqueiro preferiu a adrenalina ao marasmo de um amistoso festivo. Profissional como poucos, seguiu dando duro nos treinamentos. Faria o mesmo no jogo. A oportunidade que, em suas incertezas, garantiu o tributo adequado ao ídolo.

Mais importante que o mero compromisso  pelo Brasileirão, a torcida do Flamengo compreendeu o que a partida representava para Júlio César. Os mais de 50 mil no Maracanã abraçaram o veterano. Os rubro-negros não deixaram de cobrar a diretoria e protestar contra o mau momento. Mas souberam engrandecer o goleiro quando necessário. Nas arquibancadas, espalhavam-se dezenas de cartazes e faixas ao arqueiro. Seu nome ecoava. E a emoção ficou evidente em seu rosto quando entrou em campo, ao lado dos filhos, já cercado de homenagens.

Quando a bola rolou, havia um trabalho a cumprir. E, logo na primeira intervenção, Júlio César demonstrou uma vibração contagiante. Uma vontade que pouco se imagina em um atleta no seu último dia, que pouco se vê entre os jogadores rubro-negros mesmo em partidas mais importantes. Ainda no primeiro tempo, faria uma boa defesa, antes que o Flamengo abrisse vantagem de dois gols no placar, com dois tentos de Henrique Dourado. E para lembrar que não seria tão simples, o veterano tomou uma bola no travessão pouco antes do intervalo, em lance no qual se esticou e acabou machucando a mão. Voltou para o segundo tempo e, depois de espalmar uma cabeçada de Rafael Moura aos sete minutos, fez duas defesaças depois dos 40, mantendo sua meta invicta. Em partes, a alegria do adeus já estava aí: 90 minutos, nenhum gol sofrido e vitória do Fla por 2 a 0.

No entanto, os instantes realmente inesquecíveis a Júlio César ainda não tinham chegado. Eles só aconteceram após o apito final. Primeiro, os garotos rubro-negros saíram correndo para abraçá-lo. Lucas Paquetá, Vinícius Júnior e Lincoln, pratas da casa como o veterano, mas que o tratam como exemplo. O Maracanã ovacionava e gritava o nome do ídolo. Já as lágrimas desceram com a aproximação de outra cria da Gávea. Outro gigante, o zagueiro Juan. Reserva na noite, deu um longo abraço no goleiro. No amigo, companheiro desde os tempos de futsal. Compartilharam sonhos, desejos, medos, vontades. Compartilharam momentos em um Flamengo de glórias marcantes e também mediocridades no início do século. Compartilharam a ascensão nas seleções de base, a chegada ao nível principal, a conquista da Copa América em 2004 e a presença em dois Mundiais. Compartilham, por ora, o fim de Júlio. E quando a vez de Juan chegar, o “irmão no futebol” certamente estará lá.

Na saída de campo, juntos, Júlio César e Juan concederam entrevista. E não se via ali, em frente às câmeras, os dois veteranos de carreiras condecoradas. Estavam os dois amigos. Os dois meninos de olhos brilhantes por viverem aquela noite no Maracanã, que desde sempre habitou a imaginação de ambos. O introvertido Juan desabou em lágrimas. O extrovertido Júlio César sorriu, o abraçou, mas também voltou a desaguar. Em suas posições, dois dos melhores que o Brasil contou nas últimas décadas.

Talvez Júlio César acabe menos valorizado pelo público geral do que mereça. Talvez por sua postura diante dos microfones, talvez por algumas falhas marcantes, talvez por fracassos mais sonoros que glórias. Mas não se pode esquecer o goleiraço que foi ao longo de mais de uma década. Explosivo, dono de ótima elasticidade, capaz de verdadeiros milagres. O monstro da Internazionale, fundamental na Tríplice Coroa e melhor do mundo durante um ano. O homem de confiança da Seleção, quarto goleiro com mais partidas pela equipe nacional (atrás apenas de Taffarel, Gilmar e Dida), herói em partidas memoráveis, carregador de piano em momentos difíceis. E o ídolo do Flamengo.

Sim, o ídolo do Flamengo. O goleiro que a maioria absoluta dos flamenguistas com menos de 30 anos carrega como o melhor que viu no clube, e quem passou dessa faixa etária também o bota perto das primeiras posições da lista. Aquele que, antes da falta de Petkovic, pegou tudo no jogo do tri carioca em 2001. Aquele que comeu migalhas no Brasileirão, mas manteve a grandeza da camisa rubro-negra sem que desabasse à segunda divisão. O reflexo do torcedor em campo, que sentiu as vitórias com a massa e remoeu as derrotas durante as noites. Que voltou para terminar de ser o que sempre foi.

A despedida de Júlio César, afinal, é uma reconciliação. O tributo que, mesmo com o goleiro abaixo de outros gigantes da meta flamenguista na história, valerá um lugar na lembrança. Por estes últimos três meses, o veterano representou que também é um ideal. Aquele cara que desejou o Flamengo, graças a um sentimento só capaz de desabrochar em quem o alimenta desde jovem. E um sentimento que acaba sendo elemento em comum entre tantos grandes ídolos do Fla. Se o goleiro não teve tempo ou títulos para subir no panteão, recebe o devido carinho e a devida consideração por ser, acima de tudo, rubro-negro.

As fotos são de Gilvan de Souza / Flamengo