Existem jogadores que mudam a história de um clube. Podem não ser exatamente perfeitos, mas suas qualidades ajudam a vislumbrar novos horizontes. E o espírito vencedor eleva o patamar da agremiação, muito além daquilo que se vivia antes de seu advento. Omar Pérez é um desses. Não jogou na seleção de seu país e nem se firmou na elite Argentina como muitos compatriotas imaginavam. Pouco importa: ele revolucionou um dos clubes mais tradicionais da Colômbia. Há um antes e depois no Independiente Santa Fe a partir da chegada do camisa 10 argentino. É impossível se contar os sucessos recentes dos Cardenales sem mencionar o magistral carequinha, que se transformou também em uma figura célebre no continente. Foram nove anos de adoração em Bogotá, com nove títulos conquistados. Uma história incomparável que tem um fim nesta semana.

Às vésperas de completar 37 anos, as limitações físicas de Omar Pérez diminuíram seu espaço no Santa Fe. O armador continuava sendo importante na engrenagem dos alvirrubros, mas por um curto período de tempo. O técnico Gregório Pérez vinha lançando mão de seu camisa 10 apenas nos minutos finais dos jogos, para tentar ajudar nos momentos decisivos. Com a presença do argentino, os Cardenales ainda alcançaram a final do Torneio Finalización do Campeonato Colombiano no último semestre, apesar da derrota para o rival Millonarios. Um adeus cabisbaixo, diante daquilo que o veterano construiu em Bogotá.

Nesta quarta, o Santa Fe publicou um comunicado esclarecendo a situação. Diretoria e jogador decidiram, em comum acordo, que ele não continuará no clube. Seguirá sua carreira em outra agremiação, enquanto ganhará em homenagem uma partida de despedida para celebrar sua trajetória com a camisa alvirrubra. “A marca indelével do capitão, o 10, o ídolo de um povo, eternamente bordada em nosso escudo. São nove anos e nove títulos. Lágrimas de alegria e tristeza escritas com letras de ouro nas páginas de nossa história. Omar Pérez, leão eterno. Obrigado por tanto”, escreveu o clube, em suas redes sociais.

Quando chegou ao Estádio El Campín, Omar Pérez já era um jogador rodado. Começou sua carreira no Boca Juniors, onde era visto como uma grande promessa, cotado como o sucessor de Juan Román Riquelme, mas não conseguiu se firmar. Depois, rodou por Banfield, Junior de Barranquilla, Jaguares de Chiapas, Real Cartagena e Independiente Medellín, entre bons e maus momentos, mas já com sua marca estabelecida no futebol colombiano. O Santa Fe procurava um líder que encerrasse o período de seca que perdurava por duas décadas e encontrou no camisa 10. Um meia talentoso, que moldou a forma de jogar da equipe a partir de suas características. E que, enfim, reconduziu os Cardenales ao alto das glórias.

Acumulando gols e assistências, Omar Pérez conquistou seu primeiro título no Santa Fe logo em seu primeiro ano, com a Copa Colômbia de 2009. Saiu do banco, fez dois gols, virou o jogo contra o Deportivo Pasto e permitiu que a festa se consumasse após a vitória nos pênaltis. Já a maior reviravolta aconteceria a partir de 2012, com o triunfo no Apertura do Colombiano, botando fim a um jejum de 37 anos na competição nacional. Depois disso, os Cardenales construíram a era mais vitoriosa de sua história, superando os intermitentes períodos dourados nas década de 1960 e 1970. São três títulos da liga e dois vices, além de três da supercopa e um da copa. Nunca os torcedores alvirrubros foram tão felizes. E muito por causa daquela cátedra ostentando o 10 às costas.

Mais importante, Omar Pérez ainda elevou a reputação do Independiente Santa Fe além das fronteiras. A equipe se acostumou a fazer campanhas respeitáveis na Copa Libertadores, chegando às semifinais em 2013 e às quartas de final em 2015. O argentino se tornou uma figura temível em outros países sul-americanos, por toda a sua capacidade de criar com a bola nos pés. Já o ápice aconteceu no segundo semestre de 2015. Favoritos na Copa Sul-Americana, os alvirrubros iam superando adversários de peso. Deixaram pelo caminho Independiente-ARG, Nacional-URU, Emelec e Sportivo Luqueño. Por fim, na decisão contra o Huracán, o empate prevaleceu nos dois embates. Coube ao camisa 10 abrir a vitória nos pênaltis, levando ao delírio a torcida no Campín.

As imagens de idolatria a Omar Pérez se repetiram em diferentes momentos. O craque ganhou bandeirões, mosaicos, cânticos e o que mais fosse para exaltar sua importância ao clube. O Santa Fe já teve, em tempos passados, talentos do calibre de Freddy Rincón e Adolfo Valencia. No entanto, o argentino parece o mais próximo de alcançar Alfonso Cañón como o maior mito da história alvirrubra. O antigo meio-campista foi tricampeão nacional, assim como mantém os recordes de gols e partidas disputadas pelos Cardenales. Mas não conseguiu ser tão vitorioso quanto El Señor 10 e suas nove taças.

A relação de Omar Pérez com o Santa Fe, por fim, se resume em dois episódios simbólicos. Em 2010, durante a crise financeira do clube, ele aceitou reduzir o seu salário para auxiliar os alvirrubros. Já no ano seguinte, antes do jogo de volta contra o Vélez pelas quartas de final da Copa Sul-Americana, uma árvore caiu sobre o automóvel em que viajava sua família, matando o avô do meia. Mesmo assim, ele entrou em campo naquela noite e marcou o gol que ia colocando os alvirrubros nas semifinais. Dedicou à memória de seu saudoso protetor. Ao final, o Fortín ainda conseguiu um gol e assegurou a classificação. O respeito dos torcedores colombianos, a partir daquela noite, ficou para sempre. El Bocha Pérez será eterno para eles.

Agora, é ver como será a despedida de Omar Pérez. Durante as últimas horas, diversas mensagens de carinho foram endereçadas ao ídolo. E seu adeus não deverá ser nada menos do que grandioso, até pelas costumeiras provas de gratidão demonstradas pelo povo colombiano. Não seria para menos, depois de tudo o que o camisa 10 ofereceu aos Cardenales. É o fim de uma era, e uma era muito mais feliz à torcida alvirrubra.