Ajax comemora seu inédito tetracampeonato da Eredivisie (AP Photo/Vincent Jannink)

O Ajax é tetra holandês, uma façanha que nem seus grandes esquadrões alcançaram

O Ajax não conta com o time mais talentoso de sua história e nem mesmo com o mais vitorioso. Ainda assim, conseguiu faturar o tetracampeonato da Eredivisie neste domingo, com uma rodada de antecedência. Não foi das ocasiões que enchem a torcida de orgulho, é verdade: o time treinador por Frank de Boer empatou com o Heracles por 1 a 1, uma semana após o vexame contra o Zwolle na Copa da Holanda. Mesmo assim, existiam bons motivos para comemorar. Nem mesmo a equipe que contava com Johan Cruyff e Rinus Michels ou a comandada por Louis van Gaal na década de 1990 conseguiram isso. Chegaram perto, mas tiveram no meio do caminho um grande adversário para brecar os planos.

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Os tempos são outros. O Ajax basicamente impera sozinho na Holanda nos últimos anos. Depois de um domínio do PSV Eindhoven na primeira metade da década passada e de duas temporadas com campeões improváveis (Twente e AZ), os Godenzonen aproveitaram a chance que tiveram e enfim conseguiram seu primeiro tetracampeonato. As gerações passadas do time também chegaram a merecer algo desse tamanho, mas os motivos para que isso não acontecesse antes não poderiam ser mais legítimos.

Década de 1960

Na temporada 1968/69, o Ajax seguia como uma das grandes forças nacionais e vinha de um tricampeonato da Eredivisie. Era a época de Rinus Michels e Cruyff, do Futebol Total e da revolução causada por isso tudo, que também foi adotada pela seleção holandesa e acabou influenciando o futebol mundial. Na busca pelo tetra, fez uma campanha muito boa, mas viu o Feyenoord se sagrar campeão por dois motivos principais.

Ajax-1967

Ajax de Rinus Michels, em 1967

Em primeiro lugar, o rival não desperdiçava pontos quando jogava em casa. Dos 17 jogos que fez no Estádio De Kuip, venceu 15 e empatou apenas dois. O outro grande motivo, e mais determinante ainda, foi a vitória do Feyenoord contra o Ajax em Amsterdã. O placar de 1 a 0 foi bastante magro, mas suficiente para iniciar uma sequência de três jogos sem vitória do clube da capital, entre a 11ª e a 13ª rodadas. Ao final do campeonato, o Ajax ficou na segunda colocação, a três pontos do campeão.

O Feyenoord, é claro, teve grandes méritos na conquista. Desbancou o então tricampeão porque contava com uma forte equipe, que no ano seguinte conquistaria a Copa dos Campeões, coisa que o próprio Ajax não havia conseguido na edição anterior, quando foi derrotado na final pelo Milan de Nereo Rocco. Foi com Ernst Happel no comando que a equipe de Roterdã conseguiu o triunfo continental, mas sob o comando de Ben Peeters, e liderado por Coen Moulijn, o futebol apresentado foi condizente com a quebra da supremacia dos Godenzonen.

Década de 1990

Na década de 1990, o Ajax teve mais um período de muito sucesso, tanto doméstico quanto continental. Tricampeão da Eredivisie em 1994, 1995 e 1996, o clube de Amsterdã chegou a manter uma invencibilidade de 52 jogos no campeonato, entre agosto de 1994 e janeiro de 1996. Mesmo essa supremacia não foi suficiente para que o time fizesse uma boa campanha em 1996/97.

Ajax-1995

Time do Ajax em 1995

O ápice havia sido atingido em 1995, com a conquista da Liga dos Campeões. O time, que contava com estrelas como Frank Rijkaard, Edgar Davids, Clarence Seedorf, Marc Overmars e Patrick Kluivert, venceu a competição de forma invicta, mas não teve o mesmo sucesso na temporada seguinte, quando foi derrotado pela Juventus na segunda final consecutiva de Champions. A partir dali, o time sofreu uma queda, e o inédito tetracampeonato da Eredivisie passou longe. Os Godenzonen foram apenas o quarto colocado do Holandesão, terminando com 16 pontos a menos que o campeão PSV Eindhoven.

A equipe de Eindhoven havia perdido Ronaldo para o Barcelona, mas em compensação Dick Advocaat contava com um elenco recheado de bons jogadores, como Luc Nilis, Boudewijn Zenden, Jaap Stam e Phillip Cocu. O equilíbrio de uma defesa sólida com um ataque arrasador, que marcou ao todo 90 gols (o segundo melhor ataque, do Feyenoord, fez apenas 67), mostrou que não havia dúvida sobre qual time havia merecido mais o título.

Na temporada seguinte, o Ajax voltou a vencer o campeonato, mas, ainda assim, o PSV começava um período de supremacia que duraria até a metade da década passada. O Ajax é agora a equipe dominante, como o tetracampeonato inédito conquistado neste domingo sugere. Entretanto, não dá para dizer que isso coloca o atual elenco à frente dos grupos desses dois períodos. A qualidade não é a mesma, e a instabilidade dos rivais também explica os quatro títulos seguidos. Como nada disso entrará nos livros de recordes e marcas do futebol holandês, o que importa mesmo para os torcedores é celebrar o feito bastante relevante e reflexo da superioridade nacional dos Godenzonen, ainda que estejam muito longe de repetirem os feitos continentais daqueles tempos.