Em época de férias do futebol brasileiro, como a que vivemos, as notícias sobre transferências ganham muito espaço. Os elencos estão mudando, às vezes até os técnicos, e todos os torcedores querem saber sobre como será o seu time no ano que se inicia. Nós sabemos que o futebol brasileiro adora um clichê, mas com o nível de exigência tão alto e cobrança por mais profissionalismo, é incrível como alguns chavões ainda repercutam tanto. Um deles é algo que vemos todo início de ano: o jogador de Libertadores.

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Seja nas palavras de nós, nos mais diversificados veículos de imprensa, seja nas declarações e ideias de dirigentes, ouvimos que os times precisam de um time “de Libertadores”. Leia-se: ter jogadores que estejam preparados para a guerra dentro de campo, sejam viris, corajosos, que gostem de disputas acirradas, gritem com os adversários, não se deixem intimidar e intimidem e tudo isso que é menos futebol e mais parece a descrição de um octógono de MMA.

Ouvimos muita gente falar sobre “jogador de Libertadores”. O São Paulo caiu nessa conversa mole e trouxe jogadores “cascudos” e com fama de bad boys para formar um time campeão. Foi assim que Fábio Santos, volante ex-Cruzeiro que chegou do Lyon em 2008. A fama de ser um jogador duro, viril, “de Libertadores” foi suficiente para ele jogar. Mal. Foi uma passagem péssima pelo time. Não ajudou muita coisa e não tinha qualidades técnicas que justificassem a aposta nele. Que, aliás, foi bem criticada na época por muita gente, de torcedores até a imprensa. Mas os dirigentes abraçaram o clichê.

Andrés Sánchez disse em 2016 que o Corinthians precisava de “bandidos do bem” e citou Emerson Sheik, destaque do Corinthians na Libertadores de 2012, como exemplo deste tipo de jogador. Alexandre Kalil à ESPN Brasil, na última semana de 2016, que “time de santos não ganha nada” e descreveu como o Atlético Mineiro campeão da Libertadores tinha jogadores que não são bonzinhos, como Ronaldinho, Diego Tardelli, Leandro Donizete e Réver.

O Palmeiras concretizou a contratação de Alejandro Guerra, um jogador de ótima capacidade técnica e eleito melhor jogador da Libertadores. Contratou um meio-campista excelente, que mostrou isso em campo nesta temporada. Isso que importa. Porém, há uma avaliação da diretoria alvi-verde que o Palmeiras é “bonzinho demais” e que o fracasso na Libertadores do ano passado, quando o time foi eliminado na primeira fase, se deu por isso. O time não sabia, com o perdão do trocadilho, guerrear. No caso, quem diz isso é o diretor de futebol do Palmeiras, Alexandre Mattos, em declaração à rádio Jovem Pan e relatado pela Gazeta Esportiva:

“Muita gente fala em aprendizado. Isso passa pelo que enfrentamos nesse ano e não foi nada prazeroso para o palmeirense. Então, estamos procurando uma, duas ou três peças com um perfil um pouco mais voltado à Libertadores, que é nosso sonho no momento”, disse Mattos à rádio Jovem Pan.

Um jogador com “perfil um pouco mais voltado à Libertadores” é diferente, na avaliação do dirigente, de um jogador com perfil mais para ganhar o Campeonato Brasileiro. Ninguém nega que a Libertadores tenha características próprias, que jogar fora de casa é difícil e tudo isso. Mas não é isso que torna o time preparado para Libertadores. Todos os anos temos contratações de jogadores supostamente com esse perfil. É um fetiche por xerifão, por jogadores que se imponham por algo mais do que o futebol. E nem é o caso de Guerra. Mas parece que este é o motivo pelo qual vão atrás de outro reforço.

O Palmeiras está trazendo Felipe Melo. O volante é um excelente jogador, com qualidade técnica para ser titular em qualquer clube do Brasil. A sua contratação, se confirmada, tem que empolgar o palmeirense por isso: ele é muito bom jogador, tecnicamente falando, e preocupa na parte disciplinar. Mas para alguns, ele traz esse espírito de briga para tornar o time mais “mauzinho” (seria esse o contrário do “bonzinho” que os dirigentes falam?).

Vamos voltar ao início de 2016, quando o Palmeiras, campeão da Copa do Brasil, foi jogar a Copa Libertadores. Vamos lembrar que time era o Palmeiras? Marcelo Oliveira era o treinador que chegou à final da Copa do Brasil aos trancos e barrancos, com um elenco muito qualificado e um futebol para lá de questionável. Ganhou a Copa do Brasil jogando muita bola no segundo jogo da final contra o Santos, mas depois de ter merecido perder de mais do que o 1 a 0 para a o Santos no jogo de ida. O time de Marcelo Oliveira não convencia. E foi assim na Libertadores.

Basta lembrar o jogo contra o Rosario Central, em São Paulo. O Palmeiras foi inteiramente dominado pelo clube argentino, mas acabou vencendo. A vitória mascarou a péssima atuação – não para parte da torcida, que percebeu isso e já pedia a saída do técnico. O time de Marcelo Oliveira era desorganizado e vulnerável. Não por acaso, características também do Atlético Mineiro comandado pelo técnico poucos meses depois de sair do Verdão.

O problema passa pela avaliação equivocada que o Palmeiras foi bem contra o Rosario Central, melhor time do grupo, porque conseguiu um empate e uma vitória, e mal contra o Nacional do Uruguai, que era um time pior, mas “aguerrido”. Avaliar que o Palmeiras perdeu porque na guerra o time era pior é uma visão muito superficial do problema.

O Palmeiras jogava mal. Contra o Nacional, um time organizado e muito mais defensivo, sofreu mais, porque tinha que jogar mais. O Rosario Central era um time que jogava mais, dava mais espaços. Não ter perdido para os argentinos no Allianz Parque foi um milagre. E a saída de Marcelo Oliveira evidenciou esse problema no time alvi-verde.

Não era o de Cuca, seguro, bem armado, que no começo do Campeonato Brasileiro dominava os adversários e, ao longo da competição, aprendeu também a jogar sofrendo, quando necessário fosse. E foi, muitas vezes. Quando o técnico que acabaria campeão brasileiro chegou, a situação na Libertadores já era caótica.

Com tempo para trabalhar, ele fez do Palmeiras um time altamente competitivo, exatamente como se esperava que ele fosse. Não precisou de jogadores “cascudos” para isso. Bastou saber jogar bola e ter brio. E isso não falta ao Palmeiras.

Como não faltava ao Atlético Nacional, que não tem nenhum “malvado”, “bad boy” ou jogador que entra de forma violenta como forma de intimidar. O time jogou muita bola, enfrentou os mais diversos times na competição e teve técnica, sim, mas teve organização, teve um time muito bom e muito bem armado.

Claro que é importante que os jogadores tenham coração, se doem, mas às vezes se superestima a capacidade de um time ir longe apenas por isso. Futebol ainda se ganha jogando futebol. E isso não quer dizer que todo mundo jogue futebol vistoso, ofensivo e maravilhoso. Mas futebol é organização, é saber usar suas melhores qualidades. Não é preciso um xerifão, um jogador que dê bonitada ou que intimide o adversário. Ou, como já caiu em desuso (ainda bem), um jogador que “fale espanhol para poder intimidar árbitro e adversários” (outra bobagem colossal).

Ouvimos explicações estúpidas para a suposta má formação dos jogadores brasileiros dizendo que antes os campos eram ruins, então os jogadores aprendiam mais a dominar a bola em dificuldade. Algo que não tem apoio nenhum na ciência. É como uma desses muitos textos idiotas falando sobre gerações inteiras dizendo que “o problema é que o Merthiolate parou de arder”. É um clichê, uma expressão engraçadinha, que não consegue sobreviver a uma análise um pouco mais profunda (de preferência, sem generalizar uma geração inteira, parem com isso).

Jogador de Libertadores é um clichê que se repete e não diz nada. Encaixar um jogador nessa caixinha é só uma forma de tentar explicar o jogo de uma forma simples. E futebol é maravilhoso porque não aceita essas teorias baseadas em clichês rasos como esse.