Para uma entidade que organiza um campeonato de futebol, falta à CBF a compreensão de um princípio muito básico: a isonomia. Marco Polo Del Nero ordenou, nesta segunda-feira, que o árbitro de vídeo seja implementado no Campeonato Brasileiro o mais rápido possível. O desejo é que estreie já na próxima rodada. Mais uma vez, a CBF toma uma decisão apressada, improvisada, com alto risco de confusão, e que mina o seu principal produto.

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O Brasileirão perde credibilidade quando as suas regras e critérios são modificados durante o andamento da competição, o que a CBF parece simplesmente incapaz de entender. Já havia sido assim ano passado, quando a venda de mando de campo foi proibida na reta final, e o número de vagas para a Libertadores pulou de quatro para seis.

Mais uma vez, cria-se uma desequilíbrio técnico entre metades diferentes do campeonato. O gol de Jô que deu a vitória ao Corinthians no último domingo seria certamente anulado com o uso da tecnologia. O Vasco tem muito direito de reclamar: se o dispositivo está em condições de ser implementado, por que não foi antes de o clube cruz-maltino ser claramente prejudicado pela arbitragem?

Este é apenas o exemplo mais próximo. O próprio Corinthians pode reclamar do gol que o Jô marcou contra o Flamengo, em posição absolutamente legal, erroneamente anulado. Ou daquele contra o Coritiba, assim como qualquer clube que foi prejudicado enquanto a CBF alegava que era muito caro colocar o sistema em funcionamento no Brasileirão. Mas parece que eles repentinamente encontraram um bau de dinheiro.

Se do ponto de vista esportivo a isonomia fica problemática, do ponto de vista jurídico ela está garantida porque todos os clubes estavam sujeitos a erros antes da implementação do recurso tecnológico e, a partir de agora, todos eles o terão à disposição, mesmo que, até aqui, alguns tenham sido mais prejudicados do que outros. E está previsto no Regulamento Geral das Competições, no artigo 77:

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O que dá pano para manga é o parágrafo primeiro:

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Ou seja, a CBF pode usar o recurso tecnológico em todos os jogos da mesma rodada, mas não está obrigada a fazer isso. Pode utilizá-lo apenas nas partidas transmitidas pela TV aberta ou nos duelos mais importantes. Isso, sim, pode abrir possibilidade de recursos jurídicos, até mesmo na Justiça Comum. Principalmente porque o primeiro artigo do regulamento fala em assegurar “igualdade de oportunidades” e o “equilíbrio das disputas”.

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Além da instabilidade jurídica, e do desequilíbrio técnico, apressar a implementação de um dispositivo desses é um risco gigantesco de confusão. Países europeus que, sem vira-latismo, têm o costume de serem melhores nessas questões organizacionais passaram até seis meses testando e analisando os métodos mais eficazes para a utilização do VAR. E, mesmo assim, Holanda, Portugal, Itália e Alemanha têm encontrado problemas e discussões.

Imagina a CBF, com um currículo extenso de fazer as coisas nas coxas, causando uma revolução na maneira de apitar uma partida de futebol em uma semana? Quantos árbitros estão habilitados a usar o dispositivo tecnológico? Segundo Pedro Ivo Almeida, do UOL, apenas quatro, e são dez jogos por rodada. Quantos testes foram feitos até agora? Poucos, de acordo com Rodrigo Mattos, também do UOL, porque a entidade vinha empurrando o assunto com a barriga. O mais notório teste foi na final do Campeonato Pernambucano, quando Wilton Pereira Sampaio anulou um gol do Salgueiro, com um uso polêmico – e demorado – do recurso do vídeo.

A tecnologia para auxiliar a arbitragem é um imperativo para o futebol moderno. Não dá mais para permitir que o árbitro seja o único ser humano sem acesso às centenas de câmeras que transmitem um jogo de futebol. Trará mais benefícios do que prejuízo, se for bem utilizada. Mas não pode ser implementada às pressas, sem os devidos testes e protocolos, em um campeonato que está em andamento. Quais as chances de ela ser bem utilizada no Brasil, com esse processo de implementação atabalhoado? A maior probabilidade é que, por causa disso, os quase inevitáveis erros deponham contra a própria tecnologia. A CBF tem uma capacidade incrível de errar até mesmo quando teoricamente acerta.

Como funciona o árbitro de vídeo

A Fifa definiu protocolos para a utilização do árbitro de vídeo. Há quatro tipos de lances em que ele pode ser usado: pênaltis, gols, cartões vermelhos e erros de identificação. Estabeleceu-se um processo de três passos. O incidente ocorre, o lance é revisado pelos árbitros que têm acesso aos replays e a informação é passada ao árbitro principal, que, então, toma a decisão definitiva. Este vídeo explica o procedimento de maneira didática: