Há cinco temporadas disputando a Série B do Calcio, o Avellino sonha em retornar aos dias em que era figura constante na elite, entre o fim dos anos 70 e dos anos 80. O simpático clube alviverde da região da Campânia, ao sul da Itália, não chegou a brigar pelo título nem mesmo se classificou para as copas europeias, mas superou a voracidade do mercado sobre suas revelações, o desdém dos nortistas para com o jeito simplório do presidente Antonio Sibilia, as punições de tabela e até um terremoto que arrasou a cidade para permanecer não apenas uma, mas dez temporadas consecutivas na primeira divisão, entre 1978 e 1988, quase sempre com campanhas dignas. Contamos aqui as histórias mais marcantes desse período.

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Quando um gol de Mario Piga derrotou a Sampdoria em Gênova na tarde de 11 de junho de 1978 e levou o Avellino aos 44 pontos (dois a mais que Monza e Ternana), confirmando o acesso inédito à elite do Calcio, não houve tanto burburinho pelo país. Naquela temporada, os comentários no meio futebolístico da Bota quanto à Serie B convergiram quase invariavelmente para a campanha recordista da Ascoli, que venceu 26 de suas 38 partidas, terminando com assombrosos 61 pontos ganhos em 76 possíveis. Até mesmo o Catanzaro, vice-campeão, mereceu um bom destaque graças ao artilheiro da competição, o ponta Massimo Palanca, que passou a ser cobiçado pelos clubes grandes.

01. festa do acesso 1978

A expectativa em torno dos Irpini, conduzidos à elite pelo técnico Paolo Carosi, era a de que fossem apenas adquirir experiência, mas dificilmente escapariam de retornar à Serie B. Mas já na primeira temporada o time mostrou que não estaria para brincadeiras: venceu o futuro campeão Milan e a Inter em seu estádio Partenio e, na última rodada, arrancou um incrível 3 a 3 com a Juventus em Turim, depois de estar perdendo por 3 a 0 a 20 minutos do fim da partida, garantindo a permanência na elite. Na segunda, chegou a ocupar a vice-liderança já na 22ª rodada, no começo de março de 1980, antes de um acentuado declínio. Mas a terceira veria os Lobos realizarem sua melhor campanha dentro das quatro linhas, ainda que enfrentando sérios desafios.

A difícil temporada de 1980/81

Três semanas depois de o Avellino bater a Udinese fora de casa e alcançar aquele segundo posto na classificação, estourou o escândalo do Totonero, um dos mais notórios casos de manipulação de resultados no Calcio. O clube foi um dos seis da Serie A a ter jogadores envolvidos em casos de suborno e, além de ter os tais atletas suspensos por um longo tempo, recebeu como punição iniciar a temporada seguinte, a de 1980/81, com menos cinco pontos.

02. elenco 1980-81

A sentença acabou servindo como motivação: seria preciso fazer uma campanha ainda melhor do que as anteriores para escapar da degola. E o time, liderado em campo pelo líbero e capitão Salvatore Di Somma, aceitou o desafio. Na oitava rodada, quando bateu a Ascoli por 4 a 2 no Partenio, já havia vencido metade de suas partidas. Ainda ocupava a penúltima colocação, mas já via bem mais próximo o caminho de saída da zona de rebaixamento.

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No fim daquela tarde de domingo, 23 de novembro de 1980, poucas horas após o jogo, um terremoto de grande magnitude abalou a região da Irpinia, onde fica a cidade que dá nome ao clube, atingindo um raio de mais de 26 mil quilômetros quadrados, com reflexos até nas regiões próximas de Nápoles e Salerno. Mas o epicentro do tremor se localizou exatamente na província de Avellino. Os números chegaram a mais de 4 mil mortos e quase 9 mil feridos, além de 250 mil desabrigados. Foi a maior tragédia desta natureza na Itália em 70 anos.

Em meio à dor e à necessidade urgente de se reconstruir a região dos escombros, o Partenio virou um centro de acolhimento de desabrigados. A equipe também sofreu o impacto emocional da tragédia: nos dois jogos seguintes, ambos como visitante, o Avellino perde para a Pistoiese por 2 a 1 e depois para a Udinese por 5 a 4, num jogo repleto de reviravoltas e decidido por um pênalti para os friulani no último minuto. Quando volta a atuar como mandante, o clube é obrigado a se transferir temporariamente para Nápoles (também atingida, mas numa escala menor).

Jogando no San Paolo, a equipe consegue dois bons resultados: vence o Catanzaro por 1 a 0 com gol do brasileiro Juary e arranca um empate em 1 a 1 com a Juventus graças a um gol de Mario Piga a cinco minutos do fim. A vida e o campeonato precisam seguir. Nos próximos quatro jogos os biancoverdi seguram um 0 a 0 com a Inter em Milão, vencem o Bologna no retorno ao Partenio, arrancam um 1 a 1 com a Roma de Falcão em pleno estádio Olímpico e vencem o Brescia por 1 a 0 em casa, finalmente respirando fora da zona de descenso.

A luta pela salvezza prosseguirá até a última rodada, em 24 de maio de 1981. O Avellino volta a empatar em 1 a 1 com a Roma, desta vez no Partenio, e termina com os mesmos 25 pontos de outras quatro equipes, sendo que uma delas cairia – o Brescia levou a pior nos critérios de desempate. Mas vale ressaltar o que passaria como a grande ironia da campanha. Sem os cinco pontos descontados pelo Totonero, o cenário teria sido não só menos desesperador como também histórico: os Irpini teriam terminado na sétima colocação, melhor posto de todos os tempos na Serie A, acima do oitavo lugar o qual obteria na temporada seguinte e posteriormente em 1986/87.

A era de ouro de um dérbi

Disputado pela primeira vez em setembro de 1973 pela Copa da Itália, o Dérbi da Campânia entre Avellino e Napoli viveu sua época mais intensa nos dez anos em que os Lobos também estiveram na Serie A. Nos primeiros tempos, o confronto teve retrospecto bastante equilibrado. Até 1984, os 13 embates registravam três vitórias para os biancoverdi, quatro para os partenopei e nada menos que seis empates (quatro deles em 0 a 0). O Napoli chegou a enfrentar um jejum de cinco partidas sem vitória diante do rival, entre novembro de 1980 e outubro de 1983.

03. gol valente x napoli

Um exemplo do equilíbrio existente até então foi a temporada 1979/80, a segunda dos Irpini na elite: no primeiro turno, em 4 de novembro de 1979, o Avellino obteve um resultado histórico ao bater os azzurri por 1 a 0 em pleno San Paolo, com um gol do meia Pellegrino Valente, que defendia o rival até a temporada anterior (e inclusive havia marcado no último derby pelos napolitanos). No returno, o Napoli deu o troco, vencendo por 3 a 2 no Partenio em partida emocionante: Antonio Capone e Mario Guidetti abriram 2 a 0 para os visitantes, mas Gianluca De Ponti empatou para os donos da casa. Na metade da etapa final, porém, Capone voltou a marcar, dando a vitória aos partenopei.

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As outras duas vitórias do Avellino no período tiveram a marca dos stranieri. Em 14 de março de 1982, o brasileiro Juary anotou duas vezes num categórico 3 a 0, com Giovanelli completando o placar. A atuação do pequeno atacante encheu os olhos dos dirigentes da Inter, que o levaram para Milão no meio daquele ano. Já em 12 de fevereiro de 1984, outro sul-americano consagrado como ídolo dos Lobos colocou seu nome na história do derby: o argentino Ramón Díaz marcou de falta, logo aos seis minutos, o gol do último triunfo dos biancoverdi sobre o Napoli na Serie A.

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No entanto, depois da chegada de outro argentino, a balança começou a pesar bem mais para o lado azzurro. Diego Armando Maradona tem boas recordações do confronto: “A partida mais emocionante da Itália? O dérbi contra o Avellino. Era um clássico. Eram mais de trinta mil pessoas no Partenio a cada vez que nós jogávamos lá”, revelou El Pibe numa entrevista.

Seu primeiro clássico terminou empatado em 0 a 0 no San Paolo, em novembro de 1984. Mas dali em diante, os partenopei dominariam o confronto, vencendo seis das sete partidas seguintes, exceto por um empate sem gols em Avellino em setembro de 1986. O único gol de Maradona, no entanto, viria só no último dérbi, em fevereiro de 1988: vitória dos azzurri por 4 a 0, na maior goleada registrada nos encontros pela elite do Calcio.

Milan, freguês no Partenio

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Fosse simplesmente para escapar da degola ou para almejar posições um pouco mais acima na tabela, o Avellino quase sempre pôde contar com seu estádio Partenio para acumular vitórias e pontos importantes. Em 147 partidas nas dez temporadas, foram 62 triunfos, 59 empates e apenas 26 derrotas. A equipe derrotou pelo menos uma vez todos os gigantes do Calcio em casa, mas um deles era visitante muito bem-vindo à Campânia: o Milan. Nas oito vezes em que as duas equipes se enfrentaram no estádio dos Irpini pela Serie A, os milaneses nunca venceram. Foram cinco vitórias do Avellino e três empates.

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Nas quatro primeiras visitas, quatro triunfos biancoverdi. Os dois primeiros, em janeiro de 1979 e janeiro de 1980, tiveram vitórias do time da casa pela contagem mínima, com gols do lateral Vincenzo Romano e do zagueiro Cesare Cattaneo (este, cria dos rossoneri), respectivamente. Em 20 de dezembro de 1981, o atacante brasileiro Juary e o ponta Mario Piga deram a vitória por 2 a 0 como presente de Natal aos tifosi. E em 12 de setembro de 1983 viria a maior goleada do confronto: inapeláveis 4 a 0 para os Irpini, com dois gols de Bergossi, um de Franco Colomba e um do peruano Barbadillo.

O primeiro ponto conquistado pelos rossoneri no Partenio só viria em novembro de 1984, graças ao empate em 0 a 0. E o primeiro gol milanista só seria marcado em janeiro de 1986, por intermédio do meia inglês Ray Wilkins, empatando a partida em 1 a 1 a seis minutos do fim. Colomba, cobrando pênalti, havia aberto a contagem no início da partida. Uma vitória por 2 a 1 em abril de 1987, com gols de Angelo Alessio e Sandro Tovalieri (e Mauro Tassotti descontando) coroou a boa campanha dos Lobos naquela temporada. E na última campanha na elite, os donos da casa seguraram um empate sem gols em março de 1988 contra um Milan que já contava com Gullit.

Ainda que o clube rossonero vivesse anos turbulentos bem no meio deste período, disputando duas vezes a Serie B, vale lembrar que a passagem do Avellino pela elite começa e termina justamente em temporadas nas quais os milaneses faturaram o scudetto. Mas sem vencer no Partenio, naturalmente. Por outro lado, no San Siro, o domínio milanista no confronto foi total: os biancoverdi nunca somaram um ponto sequer nas oito partidas. E só marcaram um gol, com Juary, na vitória rossonera de virada por 2 a 1 em abril de 1982.

Juary, Batista, Dirceu: Os ‘brasiliani’

06. avellino - brasiliani

O Avellino foi a porta de entrada no Calcio para um brasileiro que teria carreira extensa e movimentada no futebol da Bota nos anos 80. O atacante Juary, revelado pelo Santos, chegou ao clube biancoverde logo na temporada de reabertura dos portos a estrangeiros, em 1980/81, vindo da Universidad Autónoma Guadalajara, do México. Ficou na Campânia por duas temporadas, marcando 13 gols em 34 partidas, comemorados quase sempre por seu tradicional rodopio em torno da bandeirinha de escanteio. O bom desempenho chamou a atenção da poderosa Internazionale, que o contratou em 1982. Em seguida, passaria pela Ascoli e pela Cremonese, antes de deixar o futebol italiano rumo ao Porto.

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O segundo brasileiro a passar pelo clube na Serie A foi o volante Batista, ex-Internacional, Grêmio e Palmeiras. Chegou na janela de outubro de 1985 e, se não chegou a brilhar, também não comprometeu. Vindo de se desdobrar para tentar manter uma fraca Lazio na elite (o que conseguiria em sua primeira temporada na capital, mas não na segunda), encontrou um Avellino até razoavelmente mais organizado, mas que também tinha o mesmo objetivo na temporada 1985/86. O meia disputou 14 partidas e marcou um gol no empate fora de casa com o Lecce em 2 a 2. Os Irpini garantiram a salvezza com uma rodada de antecedência.

Outro que também disputou apenas uma temporada – mas muito mais bem-sucedida – foi o meia-atacante Dirceu, companheiro de Batista das Copas do Mundo de 1978 e 1982, e que já contava 34 anos de idade quando aportou na Campânia, após ter defendido, só na Itália, outros quatro clubes (Verona, Napoli, Ascoli e Como), além de Coritiba, Botafogo, Fluminense, Vasco, América do México e Atlético de Madrid. O brasileiro atuou em 23 partidas na temporada 1986/87 e marcou seis gols, incluindo os dois da vitória (2 a 1) sobre a Fiorentina na estreia, e foi fundamental para a última boa colocação do clube – terminou em oitavo lugar – antes do rebaixamento ao fim da campanha seguinte.

Fora de campo, a presença brasileira no período de elite do Avellino também se estendeu ao banco de reservas: o mineiro Luís Vinícius – ex-atacante do Botafogo na década de 50 e que depois faria carreira no Calcio, onde receberia o apelido de “Il Lione” – teve duas passagens como treinador da equipe na Serie A. Na primeira ficou por toda a temporada 1980/81 e até a 21ª rodada da seguinte. Já na segunda, permaneceu por toda a boa campanha de 1986/87, mas deixou o comando logo no começo da seguinte, após a quinta rodada, em meio a uma sequência de maus resultados.

Os outros ídolos estrangeiros

07. barbadillo - ramon diaz - schachner

Estrela da seleção peruana e um dos candidatos a destaque da Copa de 1982, o ponta-direita Geronimo Barbadillo não chegou a confirmar as expectativas naquele Mundial, especialmente diante da eliminação dos sul-americanos ainda na primeira fase, sem vencer nenhuma partida. Entretanto, isso não impediu sua transferência do Nuevo León mexicano para o Avellino logo após o torneio. E mais: além de se converter em ídolo dos Irpini, tornou-se também o jogador estrangeiro com mais partidas pelo clube na Serie A, colecionando 81 atuações.

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Na primeira temporada, balançou as redes seis vezes, sempre no Partenio. Na segunda marcou três gols, um deles na goleada de 4 a 0 sobre o Milan na rodada inaugural. Na terceira e última fez apenas um gol, num empate fora de casa com a Ascoli, mas seu cartaz continuou intacto. Infelizmente para os biancoverdi, logo depois seria vendido para a Udinese, onde chegaria com a missão de substituir Zico.

O maior goleador estrangeiro dos Irpini no período, porém, foi o argentino Ramón Díaz. Contratado a peso de ouro pelo Napoli ao River Plate após a Copa do Mundo de 1982, o centroavante acabou não emplacando no San Paolo e logo foi negociado com o clube vizinho. No Partenio, refez sua reputação de atacante inteligente, habilidoso e goleador no Calcio com três grandes temporadas, marcando ao todo 22 gols em 78 partidas, sendo 10 tentos apenas na temporada 1985/86. O ótimo desempenho naquela campanha valeu uma transferência para a Fiorentina e, de lá, pularia para a Internazionale, onde enfim conquistaria o scudetto pela equipe dirigida por Giovanni Trappatoni em 1989.

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O austríaco Walter Schachner, ex-Torino e Cesena, também teve passagem marcante pelo clube em suas duas últimas temporadas na elite. Na primeira, ao lado de Dirceu, fez 19 partidas e marcou quatro gols na campanha que levou o clube à oitava colocação. Já na segunda fez ainda mais: nove gols em 29 jogos (apenas cinco jogadores marcaram mais que ele naquela temporada do Calcio). Porém, a marca expressiva não bastou para evitar o descenso.

Por outro lado, dois atacantes tiveram passagem apagada. O dinamarquês Soren Skov, trazido do Cercle Brugge belga para a temporada 1982/83, e o grego Nikos Anastopoulos, ídolo do Olympiakos que chegou para a derradeira campanha na elite em 1987/88, igualam-se numa coincidência numérica: ambos disputaram 16 partidas pela Serie A e passaram em branco, sem marcar um gol sequer.

Celeiro da Vecchia Signora

O time da Juventus que levantaria seu primeiro caneco da Copa dos Campeões em 1985 teve contribuição importante do clube da Campânia. Em meados de 1983, os bianconeri assistiriam à despedida de Dino Zoff, um dos maiores goleiros da história do clube e pilar da geração que acumulou scudetti nos anos 70 e 80, além de levantar a Copa do Mundo pela Azzurra em 1982. E seu substituto viria do Avellino: Stefano Tacconi chegou e logo se firmou como dono da posição pelas próximas nove temporadas.

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Outro jogador que fez o mesmo caminho naquele verão europeu foi o ponta-de-lança Beniamino Vignola, contratado inicialmente para a reserva de Michel Platini, mas que acabaria sendo bastante utilizado ao longo de sua passagem pelo clube, tendo papel fundamental na decisão da Recopa de 1984, contra o Porto na Basileia: marcou o primeiro gol e deu o passe para Boniek anotar o segundo, na vitória por 2 a 1.

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Na temporada seguinte, quando Claudio Gentile, outro nome histórico do clube de Turim, deixou a Juve após 11 anos para atuar pela Fiorentina, foi novamente no Avellino que a Vecchia Signora buscou e encontrou seu substituto no sólido Luciano Favero, jogador que vinha de longa carreira nas divisões inferiores do Calcio até ser pescado pelos Irpini do pequeno Rimini, da Serie B, em 1981.

Mais adiante, um quarto jogador se transferiria do Avellino para vencer na Juve, ajudando os bianconeri a conquistar mais um caneco europeu: o dinâmico e versátil meia Angelo Alessio, que chegou a Turim após se destacar pelos biancoverdi na temporada 1986/87, e três anos depois participaria da campanha vitoriosa da Copa da Uefa, numa decisão caseira contra a Fiorentina.

Nesse período, houve somente um caso de fracasso entre ex-jogadores dos Lobos que seguiram para a Vecchia Signora: o meia Bruno Limido, que chegou a Turim em 1984 e ficou apenas uma temporada, disputando somente quatro partidas, antes de seguir sua carreira rodando por Atalanta, Bologna, Lecce, Cesena e outros clubes.

Fernando De Napoli: O Avellino na Copa

09. de napoli avellino

Em 5 de fevereiro de 1986, o estádio Partenio viveu um dia histórico, ao receber pela primeira – e até hoje única – vez um jogo da Azzurra, que enfrentava a Alemanha Ocidental em amistoso preparatório para a Copa do Mundo do México. Mas orgulho maior mesmo os tifosi biancoverdi sentiriam em 11 de maio, e curiosamente na vizinha Nápoles: naquele dia, o meia Fernando De Napoli entraria para a história como o primeiro jogador do clube (e também até hoje o único) a defender a seleção italiana, em outro amistoso, agora contra a China.

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Meia dinâmico, do tipo que era igualmente eficiente na marcação, como um volante auxiliar, ou no apoio, especialmente pelo lado direito do setor, era também cria dos Irpini. Havia estreado como profissional, no entanto, durante um empréstimo ao Rimini, da Série C, na temporada 1982/83, mas logo retornaria ao Partenio e aos poucos se firmaria entre os titulares. Nascido na cidadezinha vizinha de Chiusano di San Domenico, tinha apenas 22 anos quando estreou na seleção e era uma das caras novas de uma Azzurra de resto ainda muito envelhecida e especialmente afiançada aos campeões mundiais de 1982.

10. de napoli vs frança 1986

Porém, o técnico Enzo Bearzot não hesitou em fazer do garoto seu novo titular do meio-campo, ao lado de Salvatore Bagni no setor de contenção. A Azzurra caiu ainda nas oitavas de final, diante da França de Platini, mas De Napoli não comprometeu, atuando desde o início em todas as partidas, e ficando de fora apenas nos três minutos finais do jogo contra a Argentina pela primeira fase, substituído por Giuseppe Baresi.

Na volta do México, no entanto, o meia se despediria dos biancoverdi, negociado com o Napoli, onde logo na primeira temporada seria peça importante da equipe de Ottavio Bianchi que conquistaria o histórico primeiro scudetto dos partenopei. Enquanto isso, seguia como nome fixo da Azzurra, agora comandada por Azeglio Vicini, até a Copa do Mundo de 1990. Mas quatro anos antes já havia feito história como único jogador do Avellino a disputar um Mundial.

Um caneco esquecido: O Torneo Estivo de 1986

Embora tenha feito boas campanhas na liga, o Avellino nunca chegou perto de disputar o título. Na Copa da Itália nunca passou das quartas de final. E também nunca chegou a disputar copas europeias. Mas durante seu período na elite teve tempo de conquistar um troféu, que ficou um tanto esquecido pelo tempo: o do Torneo Estivo, um torneio de verão, mas de caráter oficial, realizado em 1986.

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Organizada pela liga profissional italiana, a competição foi disputada por todos os clubes da Serie A, com exceção dos quatro ainda envolvidos com a disputa das semifinais da Copa da Itália (Roma, Fiorentina, Sampdoria e Como). Iniciada às vésperas da Copa do Mundo do México, a disputa só terminou no dia 19 de junho, já com o Mundial em pleno andamento. Sendo assim, não teve com a presença dos jogadores convocados por suas seleções.

Mas algumas equipes ainda puderam contar com bons jogadores. Foi o caso do Napoli, adversário de estreia do Avellino no Partenio, que levou a campo nomes como o goleiro Claudio Garella, o jovem zagueiro Ciro Ferrara, o experiente meia Eraldo Pecci e o centroavante Bruno Giordano, mas não escapou de uma incrível goleada de 5 a 1, com três gols de Angelo Alessio para os Irpini.

A competição dividiu, em sua primeira fase, os 12 clubes em três grupos de quatro. O dos biancoverdi ainda incluía o Bari (derrotado por 1 a 0 em casa) e a Internazionale (batida por 2 a 1 no Giuseppe Meazza). Classificado em primeiro lugar, o time da Campânia teve a companhia de Udinese e Juventus no triangular semifinal. Contra os friulanos, nova goleada por 5 a 1 no Partenio. Já em Turim, num Comunale semideserto com 470 torcedores (naturalmente, na iminência da Copa do Mundo, o torneio atraiu muito pouco público), os Irpini bateram os bianconeri por 3 a 1 e avançaram para a decisão.

08. Torneo Estivo - Juventus 1x3 Avellino

O adversário da final era o mesmo Bari derrotado na primeira fase. As principais estrelas dos galletti eram a dupla de ingleses formada pelo meia Gordon Cowans e o atacante Paul Rideout, ambos ex-Aston Villa. O jogo foi realizado na cidade de Benevento, e contou com público pequeno, em torno de mil torcedores. Mas foi bastante movimentado dentro de campo.

O Avellino abriu 2 a 0 com menos de 20 minutos de jogo, em gols de Alessio e Benedetti. O Bari reagiu e descontou com Rideout aos 22 da etapa final, mas os Irpini logo retomaram a vantagem de dois gols, marcando o terceiro dez minutos depois novamente com Alessio. Um minuto depois Sclosa diminuiu de novo para os biancorossi, mas o Avellino segurou o resultado, levou o caneco e deu a volta olímpica.

As melhores campanhas

12. Avellino 1986-87

Na temporada 1980/81, o Avellino poderia ter feito sua melhor campanha na Serie A, não fosse a punição pós-Totonero. Já em 1981/82, o clube terminou em oitavo, mas a colocação foi um tanto ilusória: embora passasse boa parte da campanha na parte de cima da tabela, esteve bem longe dos ponteiros e terminou com a mesma pontuação de sua segunda temporada, quando ficara em 12º lugar. Em 1982/83, a excelente campanha como mandante (oito vitórias e apenas uma derrota em 15 jogos) foi neutralizada por um fraco desempenho como visitante (apenas seis pontos ganhos em 30 disputados), impedindo a equipe de terminar acima do nono posto.

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Nas duas temporadas seguintes, o brilho ficou restrito a partidas isoladas, como a já citada goleada de 4 a 0 sobre o Milan em setembro de 1983 e a vitória de 2 a 1 sobre o Verona em janeiro de 1985 que transformou os Irpini na primeira equipe a derrotar os gialloblu em sua campanha rumo a um scudetto histórico. Sendo assim, a temporada 1986/87 merece destaque: o clube conseguiu sua melhor colocação, somando sua maior pontuação, com desempenho equilibrado tanto no Partenio quanto fora de casa.

Naquela campanha, a equipe chegou a ocupar as primeiras posições no terço inicial do campeonato. Depois experimentou um declínio, antes de se estabilizar no meio de tabela. Mas obteve resultados consistentes: no Partenio, bateu Fiorentina, Milan, Sampdoria e Roma, além de segurar um empate sem gols contra o futuro campeão Napoli. Fora dele, também conteve a Inter em Milão com um 0 a 0 e goleou a Udinese por 6 a 2 na visita ao Friuli, maior placar aplicado pelos Irpini em sua história na elite do Calcio.

A despedida da elite

Em sua última temporada na elite, o Avellino começaria vencendo. Por ironia, ao bater o Torino por 2 a 1 no Partenio em 13 de setembro aninhava-se entre os líderes. Aquele, no entanto, seria o único triunfo pelos próximos quatro meses. Na segunda rodada, seria goleado pelo Verona por 4 a 1. Na terceira, chegaria a estar em vantagem diante da Roma por 2 a 1 no intervalo, mas sofreria a virada na etapa final. E na quarta, seguraria um empate sem gols com o campeão Napoli até sofrer um gol de Carnevale a quatro minutos do fim.

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Os tifosi biancoverdi só teriam novo motivo para comemorar em 31 de janeiro de 1988, já na segunda rodada do returno, quando a equipe bateu o Verona por 1 a 0. Foram ao todo 15 jogos sem triunfar, deixando o clube afundado na tabela, à frente apenas do Empoli (que havia entrado na disputa com cinco pontos descontados). Era difícil escapar da degola. Mas o clube pelo menos fez uma campanha mais digna: nos 13 jogos após a vitória sobre os gialloblu, o clube venceu três jogos, perdeu outros três e empatou sete.

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No Partenio, o clube venceu a Juventus por 1 a 0, gol de Alessandro Bertoni, e arrancou empates com a Fiorentina (1 a 1) e o Milan (0 a 0). Fora, segurou a Roma (0 a 0) e a Inter (1 a 1). Mas acabou não sendo o suficiente. Na última rodada, a do empate com os nerazurri, os outros resultados não ajudaram: o ponto conquistado em Milão já não bastava para alcançar os também ameaçados Como e Pescara. Além disso, a Ascoli empatou sem gols em casa com o Cesena e o Pisa bateu o Torino por 2 a 0. Ambos escaparam, decretando o fim da década dos Lobos na Serie A.

Na temporada seguinte, o clube chegou perto de retornar à elite, terminando em sétimo na Série B, a três pontos do acesso e invicto no Partenio. Porém, murcharia aos poucos nas próximas campanhas até cair para a Serie C em 1992. Pelos 20 anos seguintes, passaria mais tempo na terceira divisão do que em qualquer outra categoria. Ainda teve aparições esporádicas na B e foi refundado em 2009, após entrar em processo de falência. Em 31 de agosto de 2012, os Lobos comemoraram seu centenário, no início da temporada que os levaria de novo à segunda divisão, onde está até hoje, sonhando em repetir sua década inesquecível entre os gigantes da Itália.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publicará na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.