O Bolívar é um dos clubes mais tradicionais da Copa Libertadores. São 30 participações no torneio, menos apenas que os dois grandes uruguaios (Nacional e Peñarol) e os dois grandes paraguaios (Olimpia e Cerro Porteño). Apesar da frequência, os celestes nunca tinham ido muito longe. No máximo, pararam em um dos triangulares semifinais no antigo formato da fase final e nas quartas, no novo, com oitavas de final em diante. Apesar da tradição doméstica, sempre foi um rival mais temido pela altitude do que pela qualidade do time. Uma escrita transformada em 2014, na melhor campanha de sua história.

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O Estádio Hernando Siles, encravado nos quatro mil metros de La Paz, ainda é a principal arma da equipe. Foi lá que a Academia conquistou três de suas quatro vitórias no torneio. O percentual de vitórias dos bolivianos em casa nesta edição da Libertadores é até inferior ao seu histórico: são três triunfos em cinco jogos, 60% do total, contra 67% em todas as participações somadas. A invencibilidade, no entanto, segue intacta. E os celestes têm sido visitantes muito mais perigosos do que de costume, o que faz toda a diferença.

Somente o Emelec, no caldeirão do George Capwell, conseguiu batê-los até aqui. Uma derrota em cinco jogos, apenas 20%, contra um pesado histórico de 65% de derrotas nas partidas longe de seus domínios. O Bolívar de 2014 é muito mais regular, competitivo. Uma equipe que sabe usar o fator casa, mas não é só dependente disso. O empate contra o Flamengo no Maracanã, sendo superior aos rubro-negros durante os 90 minutos, e a vitória sobre o León no México são as maiores provas.

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A boa fase do Bolívar, aliás, é explicada desde sua gestão. Um clube administrado por empresários, que sabem muito bem investir seu dinheiro. O elenco é composto em sua maioria por jogadores locais, muitos de boa reputação, a exemplo de Juan Carlos Arce e Walter Flores. São acompanhados também por alguns estrangeiros. Apostas sem tantos custos, mas certeiras. Juanmi Callejón e William Ferreira estão entre os protagonistas do time. Complementam as virtudes dos bolivianos com qualidade para o time se virar em qualquer circunstância.

Sobretudo, porque o Bolívar tem um grande comandante. Xabier Azgarkorta chegou para substituir Miguel Ángel Portugal, liberado ao Atlético Paranaense. Nada poderia ser mais benéfico aos celestes. O homem que levou a seleção boliviana à Copa de 1994 não tinha esgotado sua capacidade de fazer o inimaginável. Não é uma equipe de futebol bonito, longe disso. Em contrapartida, é muito bem organizada. Sabe se compor sem a bola e dar os botes precisos, apesar da qualidade técnica de parte de seus defensores ser questionável. Quando tem a bola, explora os espaços com lançamentos longos. Além disso, não tem medo de arriscar. Chuta a gol de onde for, com ajuda do ar rarefeito ou não.

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O jogo da classificação foi um resumo do que é o Bolívar. Com direito ao presidente Evo Morales nas arquibancadas, o time não precisou massacrar o Lanús para ser melhor do que os argentinos em La Paz. Dominou o meio-campo e explorou seu ataque. Não fosse o goleiro Agustín Marchesín, em outra noite excepcional, a vitória até poderia ter saído antes. Aconteceu apenas no fim do segundo tempo, quando o Granate já estava todo no ataque. Arce marcou o gol decisivo na vitória por 1 a 0. Que confirmou que este time é o melhor da Academia em todos os tempos, ao menos na Libertadores.

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De todos os times ainda vivos no torneio continental, o Bolívar é quem menos perdeu até aqui. Joga com concentração, ainda que sinta o peso da responsabilidade. Nesta quinta, quando a classificação contra o Lanús parecia ameaçada, os celestes pecavam pelo nervosismo e o estádio ficou mudo. Para sua sorte, os vacilos da defesa não resultaram em gols dos argentinos, assim como o excesso de chances perdidas pelos homens de frente não evitou o triunfo.

Nas semifinais, o San Lorenzo é um time com jeito parecido ao do Bolívar. Forte dentro de casa, com uma defesa bem encaixada, jogadores rápidos no ataque e que costuma jogar pelo placar que lhe convém. A chance de decidir em La Paz é o trunfo da Academia. Por mais que voltem com uma derrota do Nuevo Gasómetro, os celestes sabem que tudo joga a favor no Hernando Siles. A altitude é só mais um dos elementos. Desta vez, entretanto, há também a torcida de todo um país pelo maior sucesso boliviano na história da Libertadores. E a força de um time que é muito bom coletivamente, que depende muito mais do cérebro do que dos pulmões.