El Shaarawy e Balotelli visitam o Cristo Redentor durante a Copa das Confederações 2013 (AP Photo/Antonio Calanni)

O Brasil é um grande Camboja. E a Copa pode mudar isso

O Brasil recebe menos turistas do que a Irlanda, a Bulgária, a África do Sul, os Emirados Árabes. Não estamos nem no Top 40 dos países que mais recebem turistas no planeta. Também somos um país que manda poucos estudantes para o exterior e que recebe poucos estudantes de outros países. Até alguns anos atrás, pouquíssimos meios de comunicação do exterior mantinham correspondentes fixos no Brasil. O resultado disso é claro: a nossa ignorância sobre o mundo é gigantesca e a do mundo sobre nós também.

Os próximos meses só vão acentuar o tamanho desse abismo. Vários jornalistas terão seu primeiro contato com o país e certamente vão reproduzir todos aqueles estereótipos que nós já nos acostumamos a ver (e a detestar). Mas a Copa do Mundo pode ser um belo primeiro passo para diminuir essa distância entre o que sabemos dos outros e o que os outros sabem de nós. Na prática, o que a maior parte do mundo sabe sobre o Brasil equivale ao que eu e você sabemos sobre o Camboja.

O rescaldo do sorteio da Copa do Mundo deixou isso claro. O Guardian, um dos mais respeitados jornais ingleses, associou a violência no jogo entre Vasco e Atlético Paranaense à decapitação de um homem numa partida de futebol no interior do Maranhão e concluiu que a Copa do Mundo pode ser palco de eventos perigosíssimos. Qualquer brasileiro sabe que isso não faz nenhum sentido. O Brasil é um país gigantesco, e a maior parte do mundo não tem noção de que a distância entre Moscou e Lisboa é a mesma de João Pessoa, na Paraíba, a Rio Branco, no Acre.

Porém, a ignorância é tão grande que permite que alguém, numa redação em Londres, associe uma pelada num dos lugares mais pobres e remotos do país à Copa das arenas. Não é questão de minimizar a violência ou relativizá-la, mas de entender que existem vários e vários Brasis dentro desse mesmo continente que fala português.

Quando eu estudava na Inglaterra, durante meu mestrado, me cansei de responder aos asiáticos que não, não havia aulas compulsórias de futebol no Brasil. Na cabeça deles, você só pode ser bom em alguma coisa se tiver aulas compulsórias. Outra questão frequente era sobre a língua que falamos. Pouca gente sabe que aqui se fala português, mesmo gente com pós-graduação em uma das melhores universidades do mundo. Um número ínfimo sabe que o Brasil é um país de imigrantes e que São Paulo é uma das maiores cidades do planeta. Quem vem para o Brasil é o tipo de turista aventureiro que explora destinos lado B do mundo – como o Camboja, o Vietnã, Moçambique, Angola. Ainda estamos muito longe do mainstream. Não é exagero: há muita gente que acha que vai ao Rio de Janeiro para encontrar leões na rua.

Isso explica reportagens como as do Daily Mail, dizendo para os turistas ingleses se precaverem contra escorpiões e cachorros com raiva em Manaus. Ok, Manaus é no Amazonas e a imagem-clichê da floresta é de terra de mistérios e perigos. O estereótipo é reforçado porque tanto a cidade quanto o Estado quanto a floresta são amplamente desconhecidos pela maior parte dos brasileiros. Não há quem diga o que Manaus realmente é a partir das principais cidades do país. Para agravar o quadro, o Daily Mail é um jornal absurdamente sensacionalista e costuma exagerar como se não houvesse amanhã. A peça é um exemplo claro de desconhecimento: Manaus é um polo industrial gigantesco e se parece mais com uma cidade da Grande São Paulo do que com Belém do Pará, outra cidade na região amazônica. Ah, e o fato de a gente levar o Daily Mail a sério só mostra o quanto desconhecemos os veículos de comunicação estrangeiro. Levar o Daily Mail a sério é a mesma coisa que levar o Meia Hora a sério (embora o Meia Hora seja muito melhor).

Outro exemplo marcante, e recente, de desinformação aconteceu durante a tragédia de Santa Maria, em janeiro deste ano. Vários veículos estrangeiros, incluindo a BBC, associaram o incêndio a um descaso generalizado no Brasil com a segurança de locais de shows e eventos e até da Copa do Mundo. Seria a mesma coisa que associar um incêndio nos confins da Escócia a um show do Paul McCartney e à final da Liga dos Campeões em Londres. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Os jornais americanos costumam ser mais precavidos do que os ingleses no campo das especulações – o que não significa que estejam muito melhores. Mesmo americanos que leem o New York Times todos os dias, como alguns amigos meus de Nova York, não têm a menor ideia do que esperar de uma estadia de alguns dias em São Paulo ou Belo Horizonte. Um casal de amigos americanos me contou, por exemplo, que esperavam encontrar guerra de gangues em qualquer parte da cidade. Eles moraram em São Paulo por um ano e ficaram chocados com o quanto não sabiam sobre a cidade antes de vir para cá. Hoje, são fãs de São Paulo (é. Pois é.).

Esse desconhecimento é agravado porque os brasileiros também sabem muito pouco sobre o próprio país. Vinicius Torres Freire, colunista da Folha de S. Paulo, escreveu uma bela coluna sobre o choque que ele teve ao fazer uma visita ao interior do Nordeste. Tudo estava muito melhor do que ele pensava – e não se pode acusar Freire de governista.

O desconhecimento do país, combinado com o desconhecimento sobre o mundo, produz a infatigável frase “só no Brasil”. O isolamento nos leva a acreditar que algumas coisas só acontecem aqui, como se fossem produto do solo, do clima ou sabe-se lá do quê. Ainda me lembro do dia em que Tiririca foi eleito e o mimimi nas redes sociais cravou que “só no Brasil” uma celebridade poderia ser eleita ao Congresso. Bem, o “Exterminador do Futuro” foi eleito governador da Califórnia e Beppe Grillo, um humorista italiano, não só foi eleito ao Parlamento quanto quase criou uma crise ao bloquear a eleição do primeiro-ministro.

Talvez a Copa do Mundo não deixe estradas nem trens como legados. Talvez tenha sido tudo uma promessa impossível de cumprir. Talvez o legado tenha sido só uma justificativa para fazer a Copa. Porém, a Copa ainda pode deixar um legado tão importante quanto as obras. Se a Copa do Mundo melhorar o conhecimento do mundo sobre nós, de nós sobre o mundo e de nós sobre só mesmos, finalmente vamos saber como medir nossos sucessos e nossos fracassos, nossos progressos e nossos atrasos. Ter medida é o primeiro passo para resolver os problemas.