Os corintianos estão pagando caro pelos ingressos (Foto: AP)

O brasileiro nunca pagou tanto para ir ao estádio, mas será que vale a pena?

Houve uma época em que a média do ingresso mais barato (e não estamos falando de meia entrada) para assistir a um jogo do Brasileirão não chegava a dez reais. Não foi no tempo das charretes e do guaraná com rolha, mas há 11 anos. Nesse período, esse índice de medição do dinheiro que sai do bolso do torcedor e vai a bilheteria dos estádios cresceu 478%. Subiu de R$ 8,95 para R$ 51,74. Algumas exceções a parte, está muito caro acompanhar o futebol brasileiro e não espanta que o público dos estádios não seja tão grande quanto poderia.

TEMA DA SEMANA: A vida do torcedor brasileiro após a Copa do Mundo

Todos esses dados estão em um relatório fresquinho da Pluri Consultoria, especialista em levantar esses números. Ela comparou o aumento com a inflação, que subiu 94% nesses mesmos onze anos. Para dar uma noção mais exata do problema, em dezembro de 2002, R$ 8,95 representavam 4,475% do salário mínimo brasileiro. Atualmente, R$ 51,74 comem 7,14% do mesmo indicador. A empresa também calculou o gasto total de uma ida ao estádio, considerando gasolina, estacionamento e alimentação. Esse também cresceu, de R$ 23,63 para R$ 91,41. Com uma criança, chega a R$ 130,11. Resumindo, levar o filho ao estádio equivale a uma conta de celular ou de internet.

A média de público do Campeonato Brasileiro em 2013, segundo a mesma Pluri Consultoria, foi de 14.951 pessoas, em um ano de Copa das Confederações e anterior ao da Copa do Mundo. As obras dos estádios podem ter prejudicado um pouco, mas esse número absoluto é, no máximo, razoável e certamente muito pequeno em comparação com outros países. Porque 14 torneios nacionais levaram mais pessoas ao estádio, como o americano, o japonês e o turco, sem falar das segundas divisões da Inglaterra e da Alemanha.

Jogos tarde da noite, transporte público ruim, alguns estádios ainda caindo aos pedaços – exceto os da Copa do Mundo, claro, e uma ou outra arena recém-inaugurada – e, principalmente, o nível técnico tosco do torneio são todos fatores que entram nessa conta. Mas não dá para dizer que o preço do ingresso não influencia. O São Paulo abaixou drasticamente o valor mínimo que cobra, no meio do ano passado, e passou a disponibilizar entradas a R$ 3 para sócios. Deu tão certo que a promoção voltou neste Brasileirão. Com ingresso médio de R$ 16,94, o clube teve o segundo maior público do campeonato contra a Chapecoense (43.075), no sábado passado, e tem média de 27 mil pagantes, também a segunda maior da Série A.

Torcedores do Flamengo (Jorge Rodrigues/Trivela)

Torcedores do Flamengo (Jorge Rodrigues/Trivela)

Outro exemplo muito interessante veio do Mato Grosso. A Arena Cuiabá foi apontada como um dos estádios mais propensos a virar um elefante branco depois da Copa do Mundo e o público do jogo entre Vasco e Santa Cruz, na terça-feira passada, pela Série B, foi um indicativo forte disso. Apenas 5 mil pessoas pagaram para ver a rara passagem do grande carioca pela cidade, na primeira terça-feira pós-Mundial. Só que alguns dias depois, Cuiabá e Paysandu jogaram para mais de 14 mil pessoas, um ótimo público para uma partida de terceira divisão. A diferença? O Vasco cobrou R$ 60 pelo ingresso. O Cuiabá, R$ 20. No fim, a renda foi parecida, mas um estádio estava lotado, e o outro, vazio.

>>>> O que você pode fazer para mudar a CBF

Os argumentos a favor de um preço elevado de ingresso vão de “custear o preço das novas e modernas arenas” ao raciocínio simples de aumentar a arrecadação bruta. O Flamengo, por exemplo, usa mais esse último discurso. A diretoria do clube deu uma entrevista ao jornal O Globo defendendo os altos preços. Disse que um setor popular no Maracanã a impediria de pagar “Mano Menezes, Marcelo Moreno, Messi”, reclamou das carteirinhas de estudantes falsas, afirmou que os custos de manutenção do consórcio que administra o Maracanã subiram e isso tem que passar “para algum lugar”. No caso, passa para o torcedor, mas não precisa ser assim. O Fluminense negociou com o mesmo consórcio e usa o mesmo estádio. Conseguiu uma concessão diferente: negocia 43 mil cadeiras e fica com toda a renda delas. Cobra apenas R$ 10 nos setores atrás dos gols nas partidas de menor apelo. No máximo, chegaria a R$ 30.

O Flamengo depende mais da renda, e o preço dos ingressos na final da Copa do Brasil do ano passado foram de absurdos R$ 250 a R$ 800. Foi um caso especial, uma final de campeonato, glória inacessível aos mais humildes, mas os setores norte e sul do Maracanã, atrás dos gols, até a última segunda-feira, custavam R$ 80 para os torcedores comuns. Como não há Messi para pagar, – nem Marcelo Moreno ou Mano Menezes, aliás -, o Flamengo quer tentar usar a força da torcida para fugir da zona de rebaixamento. Coloca o preço no chão porque, quando convém, o estádio tem que ficar cheio de qualquer forma. “O Maracanã precisa ter um espaço para o povão”, diz Fernando Ferreira, especialista em gestão e marketing esportivo e diretor da Pluri Consultoria. “Você tem uma redução de resultado naquele espaço, mas isso gera um ganho para a operação. Ajuda a compor a experiência”.

Outro argumento da diretoria rubro-negra, compartilhado por outros clubes, é colocar o preço do ingresso avulso no teto para incentivar o torcedor a aderir aos programas de sócio-torcedor. Na mesma entrevista, o jornal O Globo perguntou se era o fim da história em estádios dos assalariados mais pobres sem carteirinhas de estudantes falsas. A resposta de Luiz Eduardo Batista, do marketing, foi: “Pode virar sócio-torcedor e pagar R$ 25”. É compreensível os clubes quererem incentivar os torcedores a virarem sócios. Uma renda fixa ajuda no planejamento financeiro da temporada, mas isso não pode ser feito a base da força. “Eles pensam: temos que jogar o preço do ingresso avulso na lua para o cara virar sócio”, afirma Fernando Ferreira. “Pensa que se cobrar R$ 50 de mensalidade, e R$ 200 na entrada avulsa, o cara vai virar sócio, mas tem um pequeno detalhe: ele não tem apenas duas opções. Tem a terceira, que é não fazer nada disso. Não ir ao jogo e não virar sócio”.

O caso do Corinthians é mais sério nesse sentido. Quem não tem Fiel Torcedor, o programa de sócio-torcedor do clube, praticamente não encontra ingresso por menos de R$ 180 a inteira. Por enquanto, isso não tem atrapalhado a média de público do clube, a maior do Campeonato Brasileiro de 2014, na casa das 28 mil pessoas. Mas há um fator novidade pela estreia do Itaquerão, enfim a tão sonhada casa corintiana, e por esta ter sido palco da Copa do Mundo. Quando esse efeito passar, a tendência é que a vontade de pagar tanto pelo ingresso diminua.

O São Paulo continua cobrando preços baixos e lota o Morumbi

O São Paulo continua cobrando preços baixos e lota o Morumbi

Naturalmente, a torcida está protestando. Os ingressos para a partida contra o Figueirense, que estreou oficialmente a Arena Corinthians, foram de R$ 50 a R$ 400. Quem tinha Fiel Torcedor pagou entre R$ 35 e R$ 280, por causa do desconto. Ao fim do jogo, a torcida protestou com gritos de “Andrés, aqui não tem burguês”, criticando Andrés Sánchez, responsável pelas operações do estádio. Mas o ex-presidente corintiano não cogita abaixar ainda mais o preço dos ingressos. “A arquibancada saiu por R$ 35. Menos do que isso, não vai dar. Quem tem carteirinha, muitas vezes falsa, pagou-meia entrada”, disse o dirigente, que conta com o dinheiro da bilheteria para sanar os custos da construção do estádio.

O argumento da carteirinha de estudante falsa é compreensível, mas isso é um caso de polícia e de fiscalização. Punições exemplares e um controle mais rígido da venda da meia entrada e nas catracas poderiam reduzir o prejuízo. O que não dá é colocar o preço da inteira lá em cima porque muitos vão comprar meia com carteirinhas falsas, pois o punido acaba sendo o trabalhador honesto, que não utiliza desse expediente para entrar em jogos.

Tanto por rivalidade quanto para legitimar a sua estratégia, Andrés Sánchez criticou a promoção do São Paulo, em um seminário de negócios do futebol, na capital paulista. “O que o São Paulo fez foi mal, péssimo para o futebol brasileiro inteiro. Botar um espetáculo a R$ 5, R$ 10”, afirmou. Essa linha de pensamento, que o preço baixo desvaloriza o produto que os clubes estão vendendo, encontra ressonância em especialistas, como Amir Somoggi, também consultor de marketing e gestão esportiva. Ano passado, também motivado pela medida são paulina, ele escreveu no diário Lance! uma coluna criticando a medida. Bateu bem forte. Disse que a decisão era “puro desespero de um clube perdido do ponto de vista do futebol e do marketing”, pois a tendência era não conseguir aumentar o preço depois. Acha que pode ter sido a “decisão mais equivocada de todos os tempos do futebol brasileiro”. Posteriormente, amenizou mu pouco as críticas. “Procurei mostrar que o SPFC cometeu um erro de marketing e falei também do risco para o negócio como um todo”, escreveu.

“Futebol é entretenimento e nada desvaloriza mais o produto do que não ter apelo junto ao público”, rebate Fernando Ferreira. “Se o jogador é um artista, nada é pior do que não ter público. Qual é a experiência que um cidadão tem para ir a um jogo com duas, cinco, dez mil pessoas no estádio? É uma porcaria. O modelo mais bem sucedido é o da Arena do Grêmio, com aquela parte da geral, uma parte muito pequena e sempre cheia. Os estádios podem ter esse torcedor mais animado, que quer ficar em pé. A galera quer ver o estádio cheio”.

O jogador também quer ver o estádio cheio, assim como os patrocinadores, a televisão e os espectadores. Perceber as reações do público, realmente perceptíveis apenas quando realizadas em conjunto, fazem parte da partida. Ajudam a criar a atmosfera e a experiência de jogo e valorizam o produto que os clubes querem vender. Tudo, no fim, é uma questão de custo benefício, e não tem explicação os estádios brasileiros serem lotados pela metade e manterem os preços lá no alto. Assim como o tal espetáculo que Andrés Sánchez mencionou, os jogos do Campeonato Brasileiro, certamente não têm qualidade o bastante para custar tanto assim.