Em um país no qual dezenas de clubes possuem sua dose de tradição, o Bristol City não foge à regra. Viveu os seus anos áureos em dois momentos distintos: no início do século passado e no fim dos anos 1970, quando figurou na primeira divisão do Campeonato Inglês, assim como disputou finais de copas. Durante os últimos tempos, porém, os Robins se acostumaram a transitar entre a segunda e a terceira divisão. E por isso mesmo a campanha histórica rumo às semifinais da Copa da Liga Inglesa representa tanto à torcida. O torneio é o que mais permite os pequenos aprontarem na terra da Premier League. E, que o Manchester City tenha avançado à decisão, a tempestade de orgulho ficou por conta do Bristol. Os azarões fizeram dois jogos parelhos contra os Citizens e até buscaram uma reação heroica nesta terça, em Ashton Gate, apesar da derrota por 3 a 2 no finalzinho. Saem do confronto como um dos adversários que melhor desafiaram o time de Pep Guardiola em sua temporada brilhante.

O feito do Bristol City se construiu desde as etapas anteriores da Copa da Liga. Depois de eliminar o Plymouth na primeira fase, desbancou três adversários da Premier League: Watford, Stoke City e Crystal Palace. E não foi por falta de aviso que o Manchester United precisava encarar os adversários da Championship com cuidados. Não bastou. Em Ashton Gate, os Robins viveram uma noite de transe coletivo, ao derrubarem os atuais campeões do torneio com o triunfo por 2 a 1. O gol decisivo de Korey Smith saiu aos 48 do segundo tempo, o estopim do êxtase que se viu nas arquibancadas e que escancarou o bom trabalho feito pelo técnico Lee Johnson.

E então veio o desafio contra o Manchester City, nas semifinais. Desta vez os 90 minutos não bastariam para superar os líderes da Premier League. O confronto seria disputado em jogos de ida e volta, a começar pelo Estádio Etihad. Mesmo encarando as dificuldades na casa dos celestes, o Bristol saiu de cabeça erguida. Perdeu por 2 a 1, mas o gol da vitória, anotado por Sergio Agüero, ocorreu apenas nos acréscimos do segundo tempo. Enquanto isso, os Citizens deram uma aula de como ser um bom anfitrião. Promoveram uma recepção especial ao garotinho que virou símbolo da classificação contra o United. O pequeno gandula comemorou aos abraços com Lee Johnson. Além disso, Guardiola ficou cerca de 20 minutos conversando com o jovem treinador de 36 anos, querendo saber mais sobre o trabalho desempenhado e a mentalidade aplicada.

Nesta terça, a bravura do Bristol City se repetiu. O Manchester City dominou o primeiro tempo. Pressionou durante boa parte dos 45 minutos iniciais e criou várias chances, mas os anfitriões conseguiram se segurar. O goleiro Luke Steele, sobretudo, era um dos protagonistas da noite. O primeiro gol saiu apenas aos 43, e por uma bobeira de Hörður Magnússon. A bola sobrou dentro da área para Leroy Sané e o alemão encheu o pé, finalmente estufando as redes para os celestes. E os celestes conseguiriam ampliar no início da segunda etapa. Kevin de Bruyne conduziu o contra-ataque e Agüero terminou de fazer o serviço, batendo cruzado.

Duelo encerrado? Nada disso. O Bristol City não decepcionaria a torcida que lotou Ashton Gate, nem os antigos ídolos especialmente convidados para o jogo. A reação começou aos 18, em cabeçada firme de Marlon Pack. Os Robins iam segurando o ímpeto dos adversários, de maneira valente, e aguardando uma brecha para reagir. E o empate saiu aos 49, em bola escorada para o ídolo Aden Flint arrematar. Restava mais um minuto e um gol seria o suficiente para os anfitriões forçarem a prorrogação. Todavia, o City acordaria para um último golpe, e o ataque rápido terminou com Sané passando para De Bruyne marcar.

A derrota no último suspiro não impediu os intensos aplausos nas arquibancadas de Ashton Gate. Era necessário reconhecer a maneira como os jogadores da segunda divisão encararam o desafio de jogar contra o melhor time da Europa na primeira metade da temporada. Não sucumbiram mentalmente às diferenças e, pelo contrário, fizeram disso sua fortaleza. Formaram uma equipe compacta, sólida e eficiente. As duas derrotas significam demais, e isso era visível pela maneira como Guardiola foi cumprimentar, um a um, os seus dignos oponentes.

A possibilidade da final foi riscada do calendário do Bristol City, mas ainda é possível sonhar no restante da temporada. O time está quatro rodadas em jejum, mas permanece na zona dos playoffs da Championship. Em quinto, soma 48 pontos, a cinco de alcançar o Derby County na vice-liderança. É uma briga contra cachorros grandes, considerando que até dois anos atrás os Robins estavam na League One e não possuem o dinheiro de alguns dos concorrentes. Mas coragem não será problema, especialmente pela maneira como os comandados por Lee Johnson cresceram nos jogos decisivos. É o que alimenta a esperança de que, em alguns meses, Ashton Gate volte a receber as estrelas da Premier League.