Ferroviário vai para a segunda divisão cearense

[Times de capitais] O caldeirão político de desmandos levam o Ferroviário à segundona cearense

Terceiro maior vencedor do Campeonato Cearense com nove títulos, atrás apenas de Fortaleza e Ceará. Só que o último deles foi em 1995. O Tubarão da Barra disputa a primeira divisão estadual desde 1938. Aos 80 anos, o clube vive o pior momento da sua história. Em 2014, o time foi rebaixado pela primeira vez para a segunda divisão do Campeonato Cearense. Uma situação que resultou de uma combinação de crise política, desmandos, planejamento rasgado e um time pouco experiente.

O Ferroviário é um clube fundamental na história do futebol no Ceará, por ter sido fundado por operários da ferrovia e ter puxado o profissionalismo do futebol local. Jogou seis vezes o Campeonato Brasileiro da Serie A, mas nunca conseguiu destaque. Sua melhor campanha em ligas nacionais foi em 2006, quando terminou a Série C em quinto lugar com um time que tinha Fernandinho, atualmente no Atlético Mineiro. Foi o último grande brilho do Ferrão.

Antes disso, o time já tinha sofrido com ameaça de descenso no estadual. Em 2004, escapou do rebaixamento na última rodada. Naquele campeonato, o time terminou em oitavo lugar com a mesma pontuação do Boa Viagem, que caiu. O Ferroviário venceu por 5 a 1 o Maranguape na rodada final do segundo turno e contou com a derrota do Boa Viagem para ultrapassar o rival nos critérios de desempate. Salvo pelo gongo.

Em 2011, o time passou sufoco novamente. Precisava vencer na última rodada para não depender de ninguém para cair, mas acabou derrotado pelo Horizonte por 3 a 1. Por sorte, o Quixadá, que estava imediatamente atrás na classificação, também acabou derrotado pelo Crato por 3 a 1 e foi rebaixado, com dois pontos a menos. Mas se em 2011 tinha sido ruim, o ano seguinte foi ainda pior.

Susto e tentativa de reconstrução

O Campeonato Cearense de 2012 foi desastroso para o Ferroviário. Em 22 jogos, o time só venceu cinco jogos, empatou seis e perdeu 11. Campanha que o deixou em 10º colocado e, portanto, rebaixado, à frente apenas o Itapipoca e do Trairiense. Só que uma lambança gigante fez com que o rebaixamento não acontecesse. O Crateús escalou três jogadores de forma irregular e perdeu 13 pontos, o que salvou o Ferrão.

“Em 2012, o Ferroviário caiu em campo. Se salvou exclusivamente porque o Crateús escalou de forma bizarra um monte de jogadores irregulares. Curioso é que a diretoria do time já sabia dos atletas irregulares antes do campeonato terminar e por isso pouco fez naquela temporada porque sabia que seria salva. A lição valeu para 2013, quando o time fez um trabalho bom na primeira fase, mas na segunda fase caiu demais”, conta Fernando Graziani, apresentador de programa na TV Jangadeiro (afiliada da Bandeirantes) e rádio Tribuna Band News FM.

Com o rebaixamento passando tão perto, o time resolveu se mexer. Se em maio quase caiu para a segundona estadual, dali em diante tentaria fazer diferente. “Naquele susto, em 2012, o Ferroviário renasceu. Muita gente com identificação se aproximou para compor a diretoria. Criou-se um grupo com raízes no clube. Até julho de 2012, o Ferroviário chegou a dever sete meses de salários para os funcionários e passou a pagar todo mês sem atraso”, conta Evandro Ferreira Gomes, vice-presidente do Ferroviário.

“Iniciou-se um projeto profissional em julho de 2012 com planos de médio e longo prazo. Em curtíssimo prazo, ficamos em segundo lugar no Campeonato Sub-20”, afirma Evandro Ferreira, vice-presidente do Ferroviário e que na época ocupava o cargo de diretor de futebol.  “Tínhamos uma coordenação técnica que reestruturou toda a categoria de base. No profissional, inserimos alguns reforços pontuais. Seguimos à risca o planejamento inicial, fazendo parcerias, captando investidores, conseguindo, inclusive, R$ 212 mil [entre julho 2012 e novembro de 2013] e reforços”, declara ainda o dirigente.

Em 2013, a situação foi mesmo um pouco melhor. O time ficou em segundo lugar na primeira fase, aproveitando que Ceará e Fortaleza não disputaram esta etapa da competição pela participação na Copa do Nordeste. “Em 2013, nossa folha salarial era de R$ 35 mil, o elenco era quase sub-20 e conseguimos a vaga na Copa do Brasil. Ficamos atrás do Horizonte, que tinha folha de R$ 100 mil”, diz Evandro. Na segunda fase, o Ferrão ficou em último, depois de cair muito de desempenho, mas passou longe de qualquer risco de rebaixamento.

A mudança de postura

Novembro de 2013 marcou o mês de eleição no Ferroviário. A gestão, que antes era temporária, venceu e passou a ser eleita. O presidente Edmílson Júnior ganhou um mandato de três anos. Os membros da diretoria foram mantidos, com algumas mudanças. Evandro Ferreira Gomes passou de diretor de futebol a vice-presidente e seu antigo cargo passou a ser ocupado por Armando Desessards, que era coordenador até então. Era um dos profissionais que entrou na gestão para organizar o futebol do clube.

Evandro considera que a mudança da postura do presidente foi determinante no destino do time no estadual. “O Edmílson assumiu a gestão de futebol, que antes era tocado por um grupo de gestores profissionais”, argumenta. “Ele usou as prerrogativas de presidente e assumiu esses poderes. É uma pessoa madura, mas ele comete equívocos de natureza emocional, se deixa levar pela pressão das emoções, como torcedor que é. A escolha do treinador foi um equívoco, tanto que ele teve que demitir depois”.

“Esse ano [2014], nós projetamos uma folha salarial de R$ 80 mil, incluindo cota de TV e tudo mais. Por questões políticas, ele resolveu mudar a postura. Passou a definir tudo de forma muito arbitrária. Os acordos salariais antes passavam pela diretoria e comissão, mas ele passou a decidir sozinho. Ele fez uma folha que passou a ser de R$ 120 mil. O salário não atrasava até novembro e passou a atrasar depois. O time levará dois ou três meses para pagar as contas do estadual”, comenta.

Edmilson Júnior decidiu contratar Washington Luiz, de 32 anos, para o cargo de técnico. Segundo Evandro, a diretoria foi contra a contratação por considerá-lo inexperiente, mas o presidente não quis abrir mão da decisão. O anúncio foi feito no dia 18 de novembro de 2013 e foi quem comandou a pré-temporada. A expectativa, porém, não era boa.

“Quando chegou, o Iarley ficou assustado e só não desistiu porque é um cara firme, de palavra. O discurso da diretoria era conquistar a vaga para a Série D, mas na prática o time era muito fraco, com jogadores jovens demais e com muitos problemas técnicos e táticos”, analisa Fernando Graziani.

Pior do que isso, a situação fora de campo também não era boa nem mesmo antes da estreia. A disputa política de poder já criava uma cisão que causaria problemas. A diretoria do Ferroviário não gostou da proposta de fórmula apresentada e queria pedir mudanças, porque o time ficaria com um calendário apertado. Não conseguiu. O time passou a jogar três ou quatro jogos por semana e o elenco reduzido não resistiu.

A campanha do Ferroviário no Cearense começou com uma goleada, 7 a 2 no Crato no Castelão. Depois, tomou uma goleada de 4 a 0 do Fortaleza, venceu o Tiradentes por 3 a 1 e, com a situação piorando, a pressão também aumentou. Dois meses depois de ser contratado, Washington Luiz foi demitido após derrota para o Icasa por 2 a 1, com apenas quatro jogos no comando do time, duas vitórias e duas derrotas.

O nome escolhido para substituí-lo foi Arnaldo Lira, um nome histórico por ter comandado a o time na boa campanha da Série C em 2006, além de ter ficado em terceiro lugar no Cearense de 2009. “Foi uma tentativa válida de troca de treinador, mas ele, logo no primeiro jogo, se desesperou pela qualidade diminuta do elenco. A permanência de Washington Luiz certamente não mudaria a história do time na competição”, analisa Graziani.

Nos 16 jogos pelo Cearense, foram cinco vitórias, três empates e oito derrotas. Uma campanha que nem mesmo o veterano atacante Iarley foi capaz de salvar. Aos 39 anos, fez cinco gols em 13 jogos que esteve em campo. E foi além da participação dentro do gramado. “Futebol é caro. Se você não tem um campo bom para treinar, um alojamento para descansar, uma alimentação boa, você vai jogar uma primeira, uma segunda e uma terceira. Mas depois o rendimento vai lá para baixo, porque você não tem recursos. Essa é a situação do Ferroviário. Deixando bem claro que os nossos dirigentes não têm nenhuma culpa”, afirmou o veterano à Tribuna do Ceará, depois da vitória contra o Tiradentes, em 19 de fevereiro. “Eu coloco dinheiro do meu bolso para tentar amenizar alguma coisa. Mas é muito caro, tudo é caro. Se não cair, a gente tem comemorar, é uma vitória”, desabafou.

Fernando Graziani reforça que em termos de infraestrutura, o Ferroviário está em situação bastante complicada. “É desanimadora a situação da sede do Ferroviário. O campo não tem a mínima condição, a estrutura do estádio é ruim. Há uma vontade da diretoria atual em fazer um projeto para vender o terreno onde fica o clube (Barra do Ceará, área que vai se valorizar com o tempo) e trocar por um CT, algo assim”, conta o jornalista.

O tapetão, de novo, pode salvar o Ferroviário

A diretoria do Ferroviário trabalha com a análise de súmulas, depois de surgir a informação que ao menos um jogador do Guarany de Sobral, o nigeriano Henry Kanu, estaria irregular.  “Descobrimos após o campeonato que alguns jogadores estão em situação irregular. O setor jurídico está trabalhando para provar na Justiça Desportiva que há irregularidades de quatro jogadores em quatro times diferentes. Pode até ser que o Ferroviário acabe ficando na primeira divisão. É uma saída para o clube, não é uma saída honrosa, diga-se de passagem, mas é uma saída”, confirma Evandro.

A escalação de jogadores irregulares é caso antigo no futebol cearense e esse é um caminho que o Ferroviário ainda acredita. É a incompetência em campo confiando na incompetência fora de campo dos adversários. Advogados contratados pelo clube continuam vasculhando as súmulas na tentativa de descobrir algo que possa impedir a queda, como em 2012.

Futuro incerto

A pressão política dentro do Ferroviário segue alta. Com menos de um ano como presidente eleito, Edmilson Junior é pressionado para deixar o cargo. “Houve uma reunião no dia 11 de março com a diretoria executiva. O presidente não esteve presente. Politicamente, ele perdeu espaço. Foi unanimidade que ele não pode continuar”, disse Evandro.

“Se ele continuar, todos os membros irão renunciar coletivamente. No dia 6 de março, fiz a minha carta renúncia. Continuo como conselheiro, mas fazer o trabalho de começar do zero, como fizemos em 2012, e na segunda divisão, não faço mais. Até por questões de família. Conversei com a minha família, não quero mais”, contou Evandro.

“O conselho deliberativo deu 90 dias para o presidente sanar todas as questões financeiras que ainda estão pendentes. Alguns jogadores viajaram sem receber”, revelou Evandro. “Se ele renunciar, poderá ser indicado um novo vice-presidente, ou uma nova eleição. Isso ainda não está definido”.

O futuro ainda é bastante incerto para o Ferroviário. Além da crise política e de gestão que o clube vive, ainda tem que lidar com uma precária estrutura de trabalho. A situação é ruim, mas o pior para o Ferroviário é pensar que não há nenhuma perspectiva de melhora a curto prazo.

Obs.: a reportagem entrou em contato com o presidente Edmilson Júnior. Ele não atendeu às ligações.

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