Melhor jogador da Ligue 1 aos 20 anos, e novamente aos 21. Melhor jogador da Premier League aos 24, na seleção do torneio em quatro oportunidades. Campeão francês com um time que corria por fora e inglês, por duas vezes, ambas como protagonista. E ainda assim Eden Hazard precisa lidar com as constantes desconfianças sobre o seu futebol. As oscilações existem, não há como negar – algo normal a qualquer mortal. Mas as provas de talento, para muitos, ficavam à sombra das vezes em que não rendeu como se esperava, principalmente pela seleção belga. Nesta Copa do Mundo, Hazard chama o jogo para si. Faz uma campanha tremenda, como digno camisa 10 que é. Foi excelente contra o Brasil, um dos destaques na partida tão emblemática aos Diabos Vermelhos.

Nos quatro jogos anteriores, Hazard já fazia um Mundial para figurar entre os melhores. Mas os poréns o atravancavam. Golear Panamá e Tunísia não era suficiente. Ganhar do aperto contra o Japão também não, por mais que o camisa 10 tenha botado a bola sob o braço e comandado a reação de sua equipe – capaz de arrancar uma virada que, em certos momentos da noite, parecia impossível. Cobra-se sempre mais do craque. O que se pedia ele conseguiu entregar.

De uma maneira geral, a Bélgica funcionou muito bem a partir de ótimas atuações individuais. Courtois foi monstruoso sob as traves. Toby Alderweireld e Vincent Kompany formaram uma dupla sólida na zaga. Marouane Fellaini teve uma partida totalmente acima das expectativas e calou seus detratores, tomando conta do meio-campo, dando combate a todo momento. Nacer Chadli fez de tudo um pouco e se valeu demais pelo empenho. Kevin de Bruyne, enfim, teve espaço para apresentar sua maestria e anotou um golaço. Romelu Lukaku viveu um primeiro tempo espetacular, perigoso a cada arrancada e mostrou como é um atacante muito mais completo do que alguns de seus treinadores imaginam. E havia a inspiração de Hazard.

O esquema escolhido por Roberto Martínez parecia privilegiar muito mais as qualidades individuais da maioria de seus jogadores. A defesa estava melhor protegida, o meio-campo tinha presença física, a liberdade na movimentação do ataque se preservou. Hazard se beneficiou diretamente com isso, em liberdade considerável. Mantinha-se mais pela esquerda, mas se combinava bem com De Bruyne e Lukaku, aproveitava os espaços, incomodava com suas investidas em diagonal. Nos melhores momentos da Bélgica no primeiro tempo, foi possível ver o melhor do camisa 10, assim como de outros de seus companheiros – Lukaku, sempre como menção especial. Os Diabos Vermelhos abriam uma vantagem maiúscula, diante do que a ocasião necessitava.

O segundo tempo se complicou à Bélgica. O time passou a ser muito mais exigido na defesa. Passou a depender mais de Courtois, de Kompany, de Alderweireld, de Fellaini. E quando tinha o seu respiro no ataque, contava com as aparições vitais de Hazard. Diante da marcação cerrada de Miranda sobre Lukaku, o camisa 10 se tornava uma válvula de escape mais importante. Assustava a cada vez em que partia ao ataque, que pegava os buracos na marcação, que arriscava os seus dribles.

Os belgas ficaram a um fio, claro. Pois Hazard seria vital também por oferecer um respiro no final. Era ele quem prendia a bola e gastava o tempo durante o sufoco dos minutos derradeiros. Seus dribles se tornaram mais necessários exatamente ali. E a inteligência se evidenciou em lance na linha de fundo, no qual não conseguiria dar sequência à jogada, mas preferiu ceder o lateral ao tiro de meta e pressionar a saída de bola brasileira. Indicava, além disso, que estava pronto a encarar uma possível prorrogação se assim fosse necessário. O jogo era nele, era dele.

Uma Copa do Mundo não se decide com um jogador. E esta Bélgica é tão aclamada justamente por seu conjunto, com protagonistas e coadjuvantes aparecendo. Nesta sexta, quem fez mais a diferença ao placar foi Lukaku, com sua arrancada devastadora, e De Bruyne no chute perfeito. Mas há créditos que se dão além, em uma grande apresentação coletiva, e Hazard aparece aí. Foi o camisa 10 que se cobra, o craque que se espera. Noite para ratificar o belo Mundial que faz. Vai saindo maior da competição, e com a participação vital dos companheiros. A Bélgica cresce através destes pés.