A situação na Ucrânia chegou ao ápice de sua instabilidade desde a última semana. A queda do avião da Malaysia Airlines aumentou demais a tensão no país que já enfrentava um conflito civil. Os ucranianos ficaram no centro de um cabo de guerra, em dúvida se confrontos poderiam explodir de uma maneira ainda mais acentuada. E o futebol também no meio desse contexto. Nesta sexta-feira, o Campeonato Ucraniano terá o seu pontapé inicial. Será jogado em regime especial, com muitos clubes deslocados de suas cidades, em dúvida se chegará mesmo ao final.

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Na temporada passada, o início do segundo turno foi adiado pelos conflitos. Mais do que isso, a tensão ficou evidente nas arquibancadas, tanto que muitos jogos aconteceram de portões fechados. E, do lado de fora dos estádios, o embate entre ultras, motivado por questões políticas, acabou com a morte de 40 pessoas em Odessa. Até mesmo a comemoração do título do Shakhtar foi ofuscada pelas manifestações em Donetsk contra a posição pró-ocidente do governo recém-instituído. Em 2014/15, a crise ganha outros contornos, mas que continuam deixando o futebol local em xeque.

Primeiro, pela debandada de jogadores neste início de temporada. A situação política ruim já fez alguns estrangeiros deixarem o país. Giuliano, Brown Ideye, Thomas Hübschman, Eduardo da Silva e Admir Mehmedi estão entre os nomes que deixaram a Ucrânia, enquanto nenhum dos quatros grandes da liga (Shakhtar, Dynamo, Metalist e Dnipro) contratou jogadores de fora do país, como se acostumaram a fazer. E as preocupações aumentam com as deserções, como a dos seis jogadores do Shakhtar na última semana – dentre os quais apenas Fred voltou.

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O Campeonato Ucraniano desta temporada já terá menos participantes, com 14 clubes na disputa. Tavriya e Sevastopol, clubes da Crimeia, se desligaram da liga depois do referendo que anexou a região à Rússia – ambos já retomaram as atividades, aliás, com novos nomes e filiados à federação russa. Enquanto isso, o confronto recorrente no oeste da Ucrânia, onde se concentram os rebeldes com a política central, deverá fazer com que os jogos da competição se concentrem no leste. Os clubes da região de Donbass, onde caiu o avião, disputarão suas partidas em outros locais, temendo as consequências do conflito.

O mapa do Campeonato Ucraniano 2014/1: em vermelho, a região pró-Rússia; em laranjas, zonas mistas; em amarelo, pró-Ucrânia; em azul, a Crimeia

O mapa do Campeonato Ucraniano 2014/1: em vermelho, a região pró-Rússia; em laranjas, zonas mistas; em amarelo, pró-Ucrânia; em azul, a Crimeia

O Shakhtar Donetsk irá abandonar a Donbass Arena, sua fortaleza no atual pentacampeonato nacional e onde mantém excelente aproveitamento. O clube montou uma base de treinos em Kiev e mandará seus jogos em Lviv, na arena local que recebeu os jogos da Euro 2012. O estádio, aliás, também será a casa de outro time de Donetsk, o Metalurh. Terceiro clube da cidade, o Olimpik Donetsk atuará na Obolon Arena, em Kiev. Por fim, Zorya Luhansk jogará um pouco mais próximo de sua casa, em Zaporizhya. O Illichivets Mariupol é o único clube sediado mais próximo da zona de conflito que preferiu continuar em casa. A cidade, porém, não é respaldada pela Uefa como zona de segurança – ao contrário de Kiev, Lviv, Dnipropetrovsk e Odessa, as únicas consideradas seguras pela entidade.

A intenção dos dirigentes é justamente manter o Campeonato Ucraniano em sua normalidade. Afinal, encher o estádio é uma forma também de ocupar a mente da população, embora ela se mantenha consciente de seu papel nos conflitos. O Metalist, por exemplo, é outro clube do oeste que seguirá em seu estádio. A cidade de Kharkiv só não ficou na mão dos partidários pró-Rússia depois que os torcedores organizados do clube se mobilizou no confronto.

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Que o Campeonato Ucraniano irá começar, é fato. A questão maior é o desenrolar do torneio. O Shakhtar Donetsk, que monopoliza a liga há cinco anos, saiu de sua zona de conforto. E a campanha do clube poderá ter muito simbolismo. Rinat Akhmetov, o magnata que banca o clube, sempre foi um partidário das políticas pró-Rússia. No entanto, o empresário tenta se desligar das forças rebeldes para defender a ideia de uma Ucrânia unida. A própria mudança do time para o leste do país, ainda que temporariamente, representa isso. Dentro de campo, a intenção é manter a normalidade no esporte que, em muitos momentos, foi a principal bandeira da Ucrânia desde a independência. Para, assim, tentar de alguma forma fazer essa união reverberar também no que acontece fora dos estádios.