Michael Carrick defendeu outras cores antes de chegar a Old Trafford. Sua formação aconteceu no West Ham, antes de ser emprestado a Swindon Town e Birmingham City. Também atuou pelo Tottenham em duas temporadas. A transferência ao Manchester United em 2006, porém, representa um marco à sua trajetória e, de certa forma, também ao próprio clube. Durante boa parte destes 12 anos, o volante teve papel fundamental aos sucessos dos Red Devils, liderança evidente que atravessou quase todo este período como titular absoluto. E que as limitações físicas o tenham feito perder espaço na atual temporada, o veterano de 36 anos mereceu o carinho de cada um dos torcedores presentes no Teatro dos Sonhos neste domingo. A vitória por 1 a 0 sobre o Watford marcou sua despedida da torcida e da Premier League, em carreira que ainda pode terminar com a conquista da Copa da Inglaterra em Wembley.

O Manchester United já anunciara que este seria um dia especialmente dedicado a Carrick, aposentando-se da condecorada trajetória no meio-campo dos Red Devils. Dono da braçadeira de capitão, o inglês recebeu diversos tributos, da guarda de honra em sua entrada em campo com os filhos aos abraços dos companheiros após o apito final – enquanto as arquibancadas também levaram seu carinho a Sir Alex Ferguson, em recuperação após o problema de saúde sofrido no último final de semana, certamente a grande ausência na festa. E, enquanto a bola rolou, Carrick fez valer em campo a sua história. Dominante na faixa central, protegeu a linha defensiva e ditou o ritmo de jogo a partir de sua categoria nos passes. Mais do que isso, o gol da vitória nasceu graças a sua maestria. Aos 34 minutos, o camisa 16 descolou um lançamento fabuloso, de antes da linha do meio-campo. Botou Juan Mata livre na área, e o espanhol apenas rolou para Marcus Rashford escorar.

Carrick é um jogador cuja importância no Manchester United talvez acabe subestimada. Em um futebol que cultua os homens de definição, é mais difícil reconhecer os responsáveis pela cadência e pela proteção. Ao longo de tantos anos, entretanto, o meio-campista desempenhou como poucos sua tarefa. Foi um dos melhores em sua função, para que os Red Devils dominassem a Inglaterra e a Europa. Conquistou cinco títulos na Premier League, três consecutivos, além de um na Liga dos Campeões.

A contratação de Carrick, afinal, se tornou instrumental à retomada dos rumos no United. Em 2006, o clube completava três temporadas sem conquistar a liga, entre a afirmação do Chelsea e os anos imparáveis do Arsenal. Pior do que isso, também perdera Roy Keane em seu meio-campo, após o intempestivo capitão entrar em rota de colisão com a comissão técnica. Carrick se tornou a solução, e de uma maneira diferente da que muitos esperavam. Não era exatamente o volantão típico, duro e destruidor. Sua classe sempre se sobressaiu, em especial pelo refinamento nos passes, embora também cumprisse bem sua missão sem a bola. Era uma espécie de “regista”, uma função incomum no futebol inglês, mas que o encaixou perfeitamente nos planos de Sir Alex Ferguson. Seu melhor ano aconteceu em 2012/13, justamente na última conquista da Premier League sob as ordens do mestre. Acabou eleito pelos próprios colegas como o melhor da equipe na temporada.

A excelência de Carrick, aliás, potencializou o nível de atuações de muitos companheiros. Se o pessoal do ataque se beneficiava com a proteção e os passes açucarados, a grande parceria nesses anos todos veio ao lado de Paul Scholes, entre as melhores duplas de volantes formadas durante a era Premier League. A discrição e a efetividade, tão bem aproveitadas pelo Manchester United, nem sempre se reproduziu na seleção inglesa, contudo. Até pela concorrência na posição, Carrick disputou apenas as Copas do Mundo de 2006 e 2010.

Nada que faça falta à história de Carrick. O respeito visto em Old Trafford neste domingo diz muito sobre o que ele realizou nestas 12 temporadas vestindo a camisa vermelha. A reputação que ele construiu com os Red Devils é o reflexo da confiança que transmitiu em boa parte de seus 464 jogos pelo clube. E que continuará, se juntando à comissão técnica de José Mourinho na próxima temporada, como assistente do comandante. Sua experiência e sua vivência certamente contribuirão ainda mais aos mancunianos.