A rivalidade é inescapável no futebol. A paixão que se cria por um time, em grande parte, se alimenta do orgulho próprio. Da razão de ser o que se é, de uma identidade toda particular, do que se arraiga como pertencimento. E que, consequentemente, difere daquilo que se vê do outro lado da cerca. Do vizinho que é oposto e, portanto, se torna antagônico. Assim, entre vencedores e vencidos, a vontade é a de sempre ser a face da moeda que cai para cima. De estufar o peito para cintilar as cores do coração. Mas também de tirar uma lasquinha dos rivais que não tiveram a mesma glória que você.

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Toda essa introdução filosófica barata, talvez imaginada por um platônico entornando doses de cachaça nas barracas da Praia do Futuro, serve para apaziguar a ebulição dos torcedores do Ceará nas próximas linhas. Ou ao menos para explicar por que irei mencionar logo de cara, no texto sobre o merecido e tão sonhado acesso, o rival inominável – que, a quem não sacou ainda (e peço aos alvinegros que finjam não ter lido), é o Fortaleza. Afinal, estes são e serão meses bastante particulares ao futebol cearense. Uma época de vencedores e… vencedores. Que, no entanto, tem apenas uma bandeira hasteada no alto do mastro. E ela é preta e branca.

Os tricolores encerraram os seus oito anos de frustração na Série C. Protagonizaram uma lenda parecida com a de Sísifo, que passou a vida condenado a carregar uma pedra montanha acima e, quando ela estava próximo do cume, rolava de volta à base. O Sísifo em pele de Leão, no entanto, viveu um desfecho diferente desta vez. Finalmente deixou o fardo no topo da montanha. Mas quando ele estava pronto a relaxar após tantos tempo de penitência, o pedregulho despencou lá de cima. Caiu justamente sobre a sua cabeça. Tal qual um Zeus vingativo, velho matreiro e sabedor de todos os caminhos, o Ceará revidou. E conquistou um feito que, em fatores absolutos, é maior do que o alcançado pelos rivais.

“O clássico voltará a acontecer na Série B”, afirmaram alguns apressados, em meados de setembro. Não desta vez, retrucou o Vozão, triunfante com o acesso à primeira divisão assegurado neste sábado. A promoção é deliciosa por si, após seis temporadas longe da elite. Mas também ganha sabor pela rivalidade, com os alvinegros dando um passo à frente dos oponentes para fechar o ano em alta. Para, justo no centenário dos antagonistas, ser aquele que realmente aparecerá entre os maiores do Brasil. Não há dúvidas que a grama do Castelão verdeja mais para um dos lados.

E, para falar a verdade, já verdejava. A atual década tem sido bem mais gloriosa ao Ceará. O clube já tinha subido à Série A em 2009, permanecendo dois anos na primeira divisão. Conquistou cinco vezes o Campeonato Cearense. Faturou também a Copa do Nordeste em 2015. Até na Copa Sul-Americana figurou. Fruto de um trabalho consistente, graças a uma diretoria que sanou as dívidas e melhorou as estruturas do Vozão. Durante os últimos anos, os alvinegros muitas vezes esboçaram fincar sua bandeira no G-4 da Segundona – embora também tenham vivido os seus temores, sobretudo em 2015, com o risco real de rebaixamento. Desta vez, por fim, a escalada se consumou com uma rodada de antecedência.

Durante o início da Série B, o Ceará não aparecia necessariamente entre os favoritos. O respeito permanecia ao clube de massa e com bom nível de investimento. Contudo, a largada não empolgou. Contratado em fevereiro e campeão cearense em maio, Givanildo Oliveira foi demitido em junho. Venceu apenas três de seus primeiros nove jogos, deixando o Vozão no 12° lugar. Seu substituto? Um treinador famoso por estudar os aspectos do jogo e buscar um estilo agressivo dentro de campo. Uma pretensão antiga da diretoria. Mas também alguém que teve seu nome atrelado ao rival: Marcelo Chamusca, campeão com os rivais na memorável decisão do estadual de 2015, embora também intrinsecamente ligado aos fracassos na Série C. Era um daqueles que haviam encarnado Sísifo, e por duas vezes, contra Macaé e Brasil de Pelotas.

À frente do Ceará, porém, Chamusca seria capaz de escrever a sua própria história. De construir seu caminho em preto e branco. E o trabalho do treinador foi ótimo, à medida que conseguiu acertar o time e recuperou a confiança de seu elenco. O Vozão ainda oscilou no primeiro momento, mas logo depois ganharia impulso na virada dos turnos. Foram quatro vitórias seguidas no início de agosto, que colocaram o time no G-4 pela primeira vez. Cairia um pouco na sequência, mas se recuperaria com nove jogos de invencibilidade a partir de setembro, sendo seis vitórias. Após seu 28° compromisso, quando venceram o confronto direto contra o Vila Nova, os alvinegros agarraram seu lugar na zona de acesso para nunca mais soltar.

Competente tanto em casa quanto fora, em 28 de outubro o Ceará anunciou que o retorno à Série A viria. Neste dia, o Vozão visitou o Beira-Rio e, diante das arquibancadas lotadas, com a torcida ansiosa por confirmar a volta dos colorados à elite, os cearenses estragaram a festa. Venceram por 1 a 0, reforçando a noção de que poderiam fechar a Segundona com chave de ouro. O desempenho depois disso caiu um pouco, com apenas uma vitória nas últimas cinco rodadas. Nada que afastasse os alvinegros de seus objetivos. Neste sábado, a equipe de Marcelo Chamusca sequer precisou jogar para saber que tinha sido promovida. O tropeço do Londrina ajudou e os jogadores já entraram em campo no Heriberto Hülse para celebrar. O empate por 1 a 1 com o Criciúma foi do protocolo.

O elenco do Ceará está recheado de velhos conhecidos da torcida e também alguns medalhões. Mas dois nomes merecem especial consideração dos alvinegros. Ricardinho está no clube desde 2013. Foi protagonista em grandes conquistas, especialmente na Copa do Nordeste em 2015. E sua entrada na equipe auxiliou a guinada vivida nesta Série B. Já no ataque, pesa a presença do interminável Magno Alves, aos 41 anos. Outro idolatrado por seus feitos recentes e pelos muitos gols, o atacante foi apenas coadjuvante desta vez, ficando com frequência no banco de reservas. Elton, outro veterano, foi a principal referência do ataque. Ainda assim, os dois gols do Magnata aconteceram em partidas essenciais, contra Vila Nova e Guarani. O ícone amplia mais o seu currículo e os motivos para ser adorado pela massa alvinegra.

E não dá para comentar o acesso do Ceará sem se exaltar o envolvimento da torcida durante a campanha. Os alvinegros abraçaram a equipe de Marcelo Chamusca e encheram as arquibancadas do Castelão com frequência, sobretudo nesta reta final. Quatro dos cinco maiores públicos da Série B 2017 são dos alvinegros, todos com pelo menos 35 mil pagantes. Não surpreenderá se o recorde de 45 mil espectadores seja quebrado na última rodada, quando os cearenses recebem o ABC. O gigante de concreto será o palco da apoteose do Vozão. A erupção pelo retorno à Série A, que, por tabela, acabará se tornando uma enorme manifestação da honra que é ser Ceará. Os motivos para extravasar são muitos.

Esta será a terceira vez que o Vozão – time mais frequente da história da Segundona, com 30 participações – aparece na primeira divisão desde a década de 1990. Nas duas ocasiões anteriores, a permanência não durou além de dois anos. Por isso mesmo, os alvinegros esperam que o trabalho desenvolvido nos últimos tempos possa garantir uma sequência mais duradoura, especialmente pelo dinheiro que a presença na elite injeta. Será um ano para o Ceará se afirmar. Um ano para tentar provar quem é mais feliz em Fortaleza. A rivalidade, que teve grandes momentos nos últimos anos, vivenciará um pico de rixas e provocações. O futebol cearense, como um todo, fica mais forte graças a isso. E será marcante a maneira como as duas torcidas se relacionarão, com todos os elementos envolvidos – dos acessos aos técnicos. Ao menos por enquanto, o Vozão tem todos os motivos para se gabar. Viu os rivais ganharem os holofotes nacionais, foi lá e fez ainda mais. É quem realmente ri por último e quem ri melhor na capital. Até mesmo gargalha.