Arsène Wenger tentou. Mudou sua estratégia, buscou remodelar o Arsenal após a derrota incontestável na decisão da Copa da Liga Inglesa. Mas, pela segunda vez em cinco dias, o Manchester City atropelou os Gunners em Londres. E, nesta quinta, de maneira até mais categórica, considerando o placar construído ainda no primeiro tempo. Se em Wembley os londrinos tiveram uma atuação razoável na defesa, apesar dos erros cruciais, no Emirates buscaram mais o ataque, diante da inoperância ofensiva do domingo. O problema está em uma palavra-chave: equilíbrio. Algo que não se nota nos alvirrubros e sobra nos celestes. Ederson frustrou o time da casa e a precisão dos Citizens fez toda a diferença do outro lado. Ao final, a nova vitória por 3 a 0 amplifica o abismo entre os times. Os mancunianos possuem melhores peças individuais e um coletivo melhor encaixado. Mais do que isso, ímpeto, algo que raras vezes se nota entre os comandados de Wenger.

A escalação do Arsenal era relativamente ofensiva. Desta vez, Wenger privilegiou o 4-2-3-1, com um quarteto ofensivo potente. Pierre-Emerick Aubameyang, Mesut Özil, Henrikh Mkhitaryan e Danny Welbeck se encarregariam da missão no ataque. Já do outro lado, Pep Guardiola também escalou uma equipe mais leve. Ilkay Gündogan substituiu o lesionado Fernandinho na cabeça de área, acompanhado por Kevin de Bruyne e David Silva. Na linha de frente, o tridente composto por Leroy Sané, Sergio Agüero e Bernardo Silva.

Por incrível que pareça, o Arsenal começou melhor o jogo. Tinha iniciativa e parecia disposto a deixar para trás a impressão ruim do domingo. Tentava se impor no campo de ataque e criou as primeiras ocasiões de gol. Em uma bola rebatida por Vincent Kompany, Ederson evitou o gol contra, enquanto Mkhitaryan soltou o pé para defesa firme do goleiro. O Manchester City, todavia, também buscava uma brecha. E se os adversários se adiantavam em campo, os celestes tinham mais espaço para explorar a sua velocidade. Assim, abriram o placar aos 14 minutos.

Foi jogadaça de Sané, fazendo fila pelo lado esquerdo, com uma arrancada imparável. O garoto passou por três, deixando Granit Xhaka no chão, e abriu com Bernardo Silva do lado direito. Não menos brilhante, o português encarou a marcação e mandou no canto superior de Petr Cech. Golaço com a marca dos Citizens. Sané, aliás, protagonizou um recital no primeiro tempo. Suas participações simplesmente desnortearam a defesa do Arsenal. O amadurecimento do alemão na temporada é notável, sobretudo pela velocidade – nas pernas e no raciocínio. Depois de um tempo de readaptação, após retornar de lesão, recupera a sua melhor forma.

O Arsenal poderia ter empatado. Seguiu insistindo no ataque, mas não conseguia se aproximar do gol e vencer Ederson. O brasileiro realizou mais duas boas defesas, em arremates de Xhaka e Aaron Ramsey. O quarteto ofensivo, todavia, deixava a desejar. Faltava mais energia para realmente colocar os Citizens contra a parede, com a sonolência daqueles que deveriam chamar a responsabilidade. Faltava penetração. E o que não se via entre os londrinos, sobrava aos mancunianos. O City não chegou muitas vezes ao ataque, mas, quando conseguia, era letal.

Aos 28, os visitantes marcaram o segundo gol. Mais uma grande jogada de Sané pela esquerda, fazendo de tontos os defensores. A zaga do Arsenal também teve sua parcela de contribuição, assistindo ao passe para Agüero, que ajeitou a David Silva. Dentro da área, o espanhol não perdoou. Então, a partida se abriu completamente ao Manchester City. O terceiro saiu aos 32, em novo contra-ataque. David Silva lançou Agüero, que fintou a marcação no domínio e partiu em velocidade ao campo de ataque. Passou a De Bruyne, que então enfiou a Kyle Walker. Os celestes botavam os Gunners na roda. O mais feio do lance ficou para a finalização de Sané, meio sem jeito, escorando o passe do lateral. Ao menos o alemão anotava o seu, merecido, coroando a exibição mágica. E com os londrinos nas cordas, o quarto gol só não aconteceu porque Cech salvou a tentativa de Agüero na pequena área.

Aos sete minutos do segundo tempo, o Arsenal teve um motivo para acreditar. Nicolás Otamendi derrubou Mkhitaryan na área e o árbitro assinalou o pênalti. Haveria tempo para uma reação? Ledo engano. Aubameyang mirou o canto e Ederson conseguiu defender a cobrança. Depois disso, a partida se arrastrou. O Arsenal demonstrava ainda menos vontade de conseguir qualquer coisa, finalizando apenas mais uma vez nos 40 minutos restantes, sem direção. Já o Manchester City economizou forças, seguro na defesa. Ainda assim, Cech mais uma vez evitou o quarto, em defesaça após chute rasteiro de Agüero.

Os 45 minutos finais serviram mais para observar o entorno. A diferença entre os times. O Arsenal parece entregue à sua mediocridade, sem buscar a criatividade, sem ser agressivo. À beira do campo, enquanto Guardiola se esgoelava mesmo com o triunfo garantido, Wenger apenas assistia. O francês não gastou uma alteração sequer durante o jogo. Já nas arquibancadas, sinais claros de insatisfação. O público não era bom, com várias cadeiras vazias por causa das dificuldades de locomoção em Londres, diante da nevasca que afeta a cidade. Assim, os presentes se prestaram a manifestar a insatisfação, vaiando os Gunners em diversos momentos, especialmente quando a equipe abdicava do ataque para recuar a bola ao campo de defesa. A maioria sequer esperou o apito final, indo para casa antes disso.

O Manchester City segue absoluto na liderança da Premier League. Retoma a vantagem de 16 pontos em relação ao Manchester United, cada vez mais tornando a confirmação do título uma mera questão matemática. Confiança redobrada para receber o Chelsea no próximo domingo. O Arsenal, por sua vez, vê a classificação à Liga dos Campeões como um mero devaneio. Em sexto, os Gunners estão a dez pontos do Top Four. A preocupação fica ao futuro. Talvez estas derrotas tenham sido cabais para definir que a história de Wenger no Norte de Londres, tão brilhante no início e tão melancólica nos últimos anos, está próxima do final.