O Manchester United atravessou sua última grande temporada em 2012/13. Tempos em que Sir Alex Ferguson ainda dava as cartas em Old Trafford e os Red Devils acabariam conquistando a Premier League. Entre os raros tropeços naqueles meses, houve um que valeu a história aos visitantes incômodos. O Cluj já tinha se tornado costumeiro na fase de grupos da Liga dos Campeões. Ainda assim, havia um peso especial em viver o sonho dentro do Teatro dos Sonhos. Que os mancunianos estivessem com um time misto, pouco importava ao valor simbólico da façanha, garantida pelo brasileiro Luis Alberto. Uma pena que ela não tenha rendido um pouco mais, com os romenos não avançando aos mata-matas apenas por conta da desvantagem no confronto direto com o Galatasaray.

Se cinco anos não parecem tanto tempo assim, eles podem significar uma era. O United sabe bem disso. O Cluj, ainda mais. Os problemas financeiros dos grenás não levaram ao fundo do poço, como aconteceu a outros clubes tradicionais de seu país, com rebaixamento e refundações. Independentemente disso, a crise fez a instituição beirar o abismo, com riscos sérios de insolvência. Em pouco tempo, a mesma equipe que peitava os Red Devils se tornava coadjuvante no Campeonato Romeno. E por isso mesmo, o título conquistado nesta temporada é tão importante. É um sinal mais do que claro do renascimento. Por questões de ranking, não põe o time direto na fase de grupos da Champions, mas permite o sonho na Rota dos Campeões.

Clube ligado aos ferroviários, o Cluj possui uma realidade modesta em boa parte de sua história, transitando entre diferentes divisões, com aparições esparsas na elite do Campeonato Romeno. A transformação começa em 2002, quando os grenás iam da terceira à segunda divisão. A chegada de novos investidores providenciaram uma injeção financeira, culminando na ascensão meteórica rumo à primeira divisão. E não demorou para que registrasse os primeiros sucessos. Em 2007/08, pela primeira vez em sua história, a agremiação da Transilvânia faturava a liga. Chegaram à Champions pela primeira vez, derrotando a Roma dentro do Estádio Olímpico logo na estreia, embora o bom presságio não tenha se mantido nas rodadas seguintes.

De qualquer maneira, eram tempos abastados ao Cluj. Depois da quarta colocação em 2009/10, os grenás conquistaram o bicampeonato romeno nas temporadas seguintes, em 2010/11 e 2011/12. Além disso, batiam cartão na fase de grupos da Champions. A classificação nunca veio, mas aquele jogo em Old Trafford, seu último pelo torneio até então, levou aos 16-avos de final da Liga Europa. Os ferroviários caíram ante a Internazionale. Todavia, não demoraria para o período de depressão chegar, quando os donos do clube deixaram de oferecer o apoio financeiro necessário, com o principal investidor transferindo suas ações.

O ponto mais baixo aconteceu em 2014/15. O Cluj sequer pagava as dívidas por atrasos salarias de antigos jogadores. A situação se tornou insustentável, com a saída de parte dos atletas, e culminou na punição realizada pela federação romena. Os grenás perderiam 24 pontos e iriam para a lanterna da primeira divisão. No entanto, o rebaixamento não se concretizou porque a diretoria apelou à Corte Arbitral do Esporte, vencendo a briga judicial. Em maio de 2015, o tapetão confirmou a permanência na elite, assim como um honroso terceiro lugar – que, ainda assim, não rendeu a vaga na Liga Europa por causa do Fair Play Financeiro. A administração iniciou o processo de insolvência.

O esforço do Cluj, a partir de então, esteve em contornar a calamidade. Os resultados esportivos, de qualquer forma, eram razoáveis, com campanhas de meio de tabela na liga e o título da Copa da Romênia em 2016. Já a luz no fim do túnel surgiu em 2017, quando o empresário Marian Bagacean se tornou acionista majoritário da instituição. Contornou as dívidas urgentes, encerrou a insolvência e iniciou uma nova fase de investimentos – apesar de alguns problemas judiciais que persistiam. A injeção financeira impulsionou o sucesso na atual temporada.

O rosto da nova era do Cluj é Dan Petrescu, um dos principais nomes da seleção romena dos anos 1990, que assumiu como treinador. Além disso, 21 novos jogadores chegaram para rechear o elenco, embora a maioria dos investimentos tenha sido feita em atletas que estavam sem contrato. Entre os “novatos”, estava o meia argentino Emmanuel Culio, algoz da Roma naquela noite de Champions em 2008 e que, aos 34 anos, voltava ao clube onde atravessou o melhor momento da carreira. Terminou como vice-artilheiro e protagonista na campanha do quarto título nacional dos grenás.

A jornada, aliás, foi relativamente segura ao Cluj. O clube liderou a fase de classificação do Campeonato Romeno desde o primeiro turno, com raros tropeços. A campanha dentro de casa, sobretudo, foi excelente – sem nenhuma derrota e com apenas dois gols sofridos em 13 partidas. Já no hexagonal final, um pouco mais de riscos. O excesso de empates permitiu que o Steaua Bucareste tomasse a ponta por cinco rodadas. No entanto, no antepenúltimo compromisso os ferroviários tomaram a ponta ao baterem a Universitatea Craiova. Por fim, os triunfos sobre Astra Giurgiu e Viitorul valeram a taça. Damjan Djokovic anotou o gol do título a uma equipe que não rendeu muito no ataque, mas contou com a competência de sua defesa para triunfar. Festa aos 18 mil presentes no Estádio Dr. Constantin Radulescu.

Vale dizer, no entanto, que ainda surgiu uma tentativa de impugnar o título do Cluj. Gigi Becali, o polêmico presidente do Steaua Bucareste, com quem Petrescu trocou farpas ao longo da campanha, afirmou que o contrato do atacante Billel Omrani com os grenás possuía uma assinatura falsa. Não que a potência da capital esteja livre de problemas. Dentro da disputa judicial pelo nome e pelos direitos do clube, Becali teria que pagar uma compensação ao exército por ter usado oficialmente a marca de Steaua Bucareste ao longo de dez anos sem permissão, entre 2004 e 2014. São €37 milhões, que podem levar os campeões europeus de 1986 ao seu próprio processo falimentar.

Com o fim da insolvência e as dívidas sanadas, as finanças não devem ser problema para que o Cluj participe da Liga dos Campeões. Não existe mais o atalho de entrar diretamente na fase de grupos e o funil na Rota dos Campeões se tornou mais estreito. De qualquer maneira, a mera presença já possui o seu significado, assim como a Liga Europa sairia de ótimo tamanho. Apesar das acusações sobre o “futebol feio” em campo, a recuperação da taça após seis anos tem um simbolismo tremendo, ante as incertezas que se viveram na Transilvânia.