Quando a Islândia conseguiu avançar à repescagem nas Eliminatórias da Copa de 2014, muitos pensaram que era um ponto fora da curva. A façanha de uma seleção pequena que demoraria décadas para se repetir. Quando a Islândia se classificou à Euro 2016, deixando a Holanda pelo caminho, provou que a grandeza de sua história não se resumia a um mero capítulo incompleto. Que tinha muito mais a escrever. E por mais que apostassem nos islandeses como meros figurantes na França, que os acusassem de comemorar um empate feito o título, eles novamente responderiam em campo. Eliminaram a Inglaterra e alcançaram as quartas de final. Um livro épico que continuaria sendo eternizado com letras douradas. A Islândia fez mais. Provou-se mais uma vez. A Copa de 2018 será, enfim, o palco merecido ao trabalho fantástico. Ao esforço descomunal do grupo de jogadores que coloca o país de 330 mil habitantes entre os melhores do mundo. Pela primeira vez em uma Copa do Mundo. Não há mais fronteiras que impeçam a invasão viking nos estádios.

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As raízes do sucesso da Islândia são profundas. Vem desde a formação de jogadores, das categorias de base. O investimento do país em construir ginásios com grama artificial, que desenvolvesse os seus jovens muito além dos parcos meses em que o frio rigoroso dá uma trégua, melhorou o material humano. A geração, então, vinha sendo preparada desde muito cedo. Alguns jogadores passaram a ganhar espaço em alguns dos principais centros da Europa, enquanto as seleções menores lapidavam o conjunto. A campanha até a fase final do Europeu Sub-21 de 2011 foi o primeiro passo, que abriu o caminho para o que se viveria nos anos seguintes. Para que os bons talentos fossem aprimorados pelo técnico Lars Lagerbäck, o mestre que elevou a seleção principal a um patamar inédito durante os cinco anos em que esteve à frente do time.

Entretanto, o próprio Lagerbäck alertava: “Alguém disse que é um conto de fadas. Eu digo que é por um lado, mas não por outro. Esse é o resultado do trabalho duro de muita gente. Todo mundo evoluiu. Falam muito sobre o meu papel e que eu irei me tornar presidente, mas tudo isso acontece porque somos um grupo de pessoas que trabalhamos incrivelmente duro em um ótimo ambiente. E temos jogadores muito bons”. Durante os seus anos na seleção, o sueco já preparava Heimir Hallgrímsson como seu sucessor. Aluno de Lagerbäck no curso de capacitação da Uefa, o ex-jogador local se tornou seu assistente já em 2011, e passou a dividir funções em 2013. O dentista que assumiria o comando em 2016 e continuaria dando páginas ao conto de fadas, graças ao trabalho em conjunto.

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A base de jogadores continua a mesma. O empenho coletivo, também. E isso se nota a cada partida da Islândia. Há, sim, a qualidade técnica de alguns atletas acima da média. Entretanto, muito mais importante é a dedicação de cada um para cumprir a sua parte. É o que transformou a seleção islandesa em um time extremamente eficiente quando tem a bola, de passes rápidos e verticais, que possui ótimo aproveitamento nas chances de gol que cria. Sobretudo, um time que se porta excepcionalmente bem na defesa, atuando de forma coesa. O sucesso islandês se explica nos pés, na mente, no pulmão e no coração de quem se entrega intensamente durante os 90 minutos.

A campanha nestas Eliminatórias, aliás, ressalta justamente isso. No equilibradíssimo Grupo I, a Islândia se manteve competitiva graças ao esforço até o último instante. Durante a segunda rodada, a equipe arrancou a virada por 3 a 2 sobre a Finlândia com dois gols nos acréscimos, e precisaria acreditar até os 45 do segundo tempo para superar a Croácia em Reykjavík. Bateria também como mandante a Turquia e a Ucrânia, além de voltar com a vitória na visita ao Kosovo. Estava no páreo pela vaga direta, em uma chave que não permitia qualquer cochilo. Até que esta Data Fifa confirmasse o feito.

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O triunfo imponente sobre a Turquia em Eskisehir apresentou o melhor da Islândia. Deve ser usado como aula quando se fala do time de Hallgrímsson. Os islandeses funcionaram perfeitamente como manda a sua cartilha. Não deram qualquer espaço diante da posse turca e foram vorazes quando recuperavam a bola. Bombardearam a meta dos anfitriões e o placar por 3 a 0 poderia ser até mais elástico. E em um grupo que até então não possuía qualquer favorito, os escandinavos deram o passo decisivo para a classificação. Dependeriam apenas de si nesta segunda, em Reykjavík, diante de Kosovo.

O clima no Estádio Laugardalsvöllur era especial. A cada instante, ouviam-se as palmas da torcida, os gritos de apoio, a confiança de que a missão seria cumprida. Os kosovares foram rivais mais duros do que muitos poderiam prever. Dificultaram o jogo, embora a Islândia estivesse segura do que fazer, à espreita do momento certo. E ele veio aos 40 do primeiro tempo, com Gylfi Sigurdsson. Após uma bola mal afastada pela zaga, o camisa 10 fintou a marcação e tocou na saída do goleiro. Já na volta do intervalo, os islandeses seguiram com seu jogo até consumarem o triunfo. Mais uma vez, o jogo vertical foi o mapa da mina. Uma bola longa da defesa iniciou o ataque pela esquerda, com Birkir Bjarnason. Ele passou a Sigurdsson, que fintou o marcador e cruzou para Johann Gudmundsson marcar o gol. O gol da vitória por 2 a 0. O gol que selou a classificação à Copa do Mundo. Durante os minutos finais, Kosovo até tentou descontar. Nada que rompesse a euforia dos escandinavos.

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Logo ao apito derradeiro, os fogos já começaram a explodir em Reykjavík. A comemoração no Laugardalsvöllur mais parecia uma confraternização entre velhos amigos. Uma enorme família de 330 mil apaixonados pela seleção. E depois dos abraços calorosos no gramado, que se multiplicavam nas arquibancadas, veio o momento que se tornou marca desta seleção islandesa. O símbolo inerente aos vikings, aos sucessos conquistados em campo e à simbiose com a torcida. As palmas orquestradas pelo capitão Aron Gunnarsson ecoavam alto. Mais alto do que nunca, rumo à Copa do Mundo. E ecoarão mais vezes na Rússia.

Os heróis da Islândia são os mesmos que marcaram seus nomes desde a Euro 2016. Halldórsson, Árnason, Bödvarsson, Hallfredsson, Gunnarsson, Bjarnason, Finnbogason. Gudmundsson teve papel decisivo nos dois últimos jogos, em atuações fundamentais. E coube ao nome mais consagrado, Gylfi Sigurdsson, se encarregar do trabalho final. Se não vive boa fase no Everton, o camisa 10 demonstrou que é parte importante da seleção. Fundamental, com duas jogadas incisivas para a classificação à Copa do Mundo. Como os outros, eleva o conjunto ao maior momento de suas vidas, que se estende da Euro ao Mundial.

A noite será da mais pura erupção futebolística na Islândia. Se em 2010 o vulcão Eyjafjallajökull espalhou suas cinzas por boa parte da Europa, desta vez são os fogos que partem aos céus da ilha que serão vistos ao redor de todo o mundo, reproduzidos mais e mais vezes em meio à comemoração desenfreada pela conquista. As ruas serão tomadas. A taxa de natalidade, mais uma vez, vai subir, com os filhos da Euro ganhando irmãozinhos da Copa. Durante o Mundial, será difícil saber quem continuará no país. E quem continuar, vai dar 100% de audiência aos jogos da seleção. Imagens que ressurgem, que magnetizam os olhares, que grudam na memória. Em 2018, os islandeses continuarão rendendo boas histórias. Seus jogadores darão sequência a trajetórias dignas de filme. Ou de um livro, que ganhará mais e mais páginas na Copa do Mundo, para embalar a imaginação de quem se encanta com futebol. O livro de ouro da Islândia, cujas páginas estão distantes de falar apenas sobre futebol.