São dois Cruzeiros, que não conseguem conviver. O Cruzeiro do Brasileirão, dominante, confiante e avassalador tenta disputar a Libertadores, mas não consegue em sua plenitude. Às vezes dá certo, mas às vezes parece fora do tom da competição. Nesses momentos, é preciso chamar o Cruzeiro da Libertadores, mas ele parecia hibernar entre algum lugar depois dos traumas domésticos recentes contra Estudiantes e Once Caldas.

Sejamos honestos, o Cruzeiro do Brasileirão vinha fracassando. Ele realmente se impôs apenas uma vez, contra a Universidad de Chile no Mineirão. Contra Real Garcilaso e Defensor Sporting fora de casa, ele não se encontrou. Ele jogava com a mesma naturalidade que um brasileiro forçando um portunhol para pedir uma empanada no mercado de Cuzco ou Montevidéu. Enquanto tentava articular um macarrônico “se-ñor, yo gus-ta-rí-a de u-na em-pa-na-da”, o adversário já havia fechado os espaços e tomado a bola. Diante dos uruguaios no Mineirão, viu-se um time que jogou com mais fluidez, mas achou que era possível perder gols em doses industriais e relaxar no final. Por favor, né?

Assim, a Raposa chegou à Santiago precisando descobrir um jeito de vencer na Libertadores. E não dava para esperar mais: um empate já significaria a eliminação. Aliás, mesmo uma vitória não daria a tranquilidade, pois continuaria dependendo de uma combinação na última rodada.

Era preciso voltar no tempo, voltar ao Cruzeiro que bateu o Once Caldas em Manizales em 2011 antes do vexame em Sete Lagoas, ao Cruzeiro que arrancou o 0 a 0 do Estudiantes de Verón em La Plata antes de perder no Mineirão em 2009, ao Cruzeiro que assustava os adversários nas noites de Supercopa, que ressuscitou de um início tenebroso para conquistar o continente em 1997, que bateu o River Plate com um gol de malandragem de Joãozinho nos minutos finais em 1976.

Foi esse Cruzeiro versão Libertadores que entrou em campo contra os chilenos. Aproveitou o adversário de jogo leve e aberto para ser fatal. Ficou atrás deixando a Unviersidad de Chile se expor para ser fatal em poucos ataques. Fez o primeiro em bola parada e o segundo em contra-ataque. Depois, se segurou atrás com uma dupla de zaga que deu a vida e um goleiro seguro. O nervosismo do oponente tratou de completar o serviço nos 20 minutos finais. Isso é Libertadores em seu estado mais puro.

Jogando assim, o Cruzeiro que pode ir mais longe do que se ficar preso à soberba e ao estilo que tanto lhe serviu no Brasileirão. Até porque, as bonitas e o Vinícius de Moraes que me desculpem, mas vencer é fundamental.