Fábio Carille esbravejou na coletiva de imprensa do último domingo. Negou que estivesse próximo de assinar com o Al-Hilal da Arábia Saudita e fez acusações graves contra a imprensa. Bateu em uma minoria que merece crítica, por exagerar fatos e viver de boataria. Atacou injustamente muitos profissionais competentes, que acompanham diariamente o Corinthians, e que não publicariam um tema tão importante sem a devida apuração. O tempo, senhor da razão, mostrou a verdade. E nem foram necessários tantos dias assim. Logo nesta terça, o treinador confirmou sua saída rumo ao Al-Wehda, clube de Meca que acabou de retornar à primeira divisão saudita. Segundo apuração de Dassler Marques, do UOL, Carille ganhará um salário cinco vezes maior em relação ao que recebia no Parque São Jorge, com contrato firmado pelos próximos dois anos.

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O Corinthians demonstrou estar preparado à perda de Fábio Carille. Diante das sondagens de outros clubes, oferecendo salários maiores, os alvinegros sabiam que a saída do treinador era possível – e sem quaisquer rusgas. Anteriormente, Carille tinha recebido propostas de outros time brasileiros (o Atlético Mineiro é o caso mais notório) e também de equipes do exterior (como afirmou na coletiva de domingo, enfatizando uma oferta de uma equipe chinesa que recusou), mas desta vez agiu diferente. Deixa o reconhecimento e, em partes, a idolatria que recebia dos corintianos para fazer o seu pé de meia, com um salário suntuoso de um clube que, aparentemente, volta com ambições à elite do Campeonato Saudita.

Não se nega que Carille representa uma perda ao Corinthians. O antigo auxiliar precisou de pouco tempo à frente da equipe principal para comprovar a sua competência. Sua maior virtude está na maneira como soube preservar um sistema de jogo sólido, sem perder a capacidade de realizar adaptações, e também conseguiu reverter os sinais de queda de rendimento. Da desconfiança inicial, o comandante rumou ao início histórico do Brasileirão e recobrou o fôlego a tempo no final. Já neste ano, também teve os seus percalços, até emendar uma sequência consistente a partir do título no Paulistão e da classificação na Libertadores. Outro predicado importante era o próprio trato com os jogadores, extraindo o melhor de vários deles e até excedendo as expectativas quanto ao rendimento individual. Dentro do coletivo bem montado, ficava mais fácil de deslanchar.

Carille não deixa o Corinthians sozinho. Leva consigo o auxiliar Leandro Silva, o preparador Walmir Cruz e o observador técnico Mauro da Silva. Três profissionais importantes que, no fim das contas, exigem uma montagem mais ampla da comissão técnica. Será necessário tempo até que o elenco se aclimate aos substitutos, embora isso não pareça ser um grande entrave. A questão maior se concentra sobre o herdeiro de Carille, por mais que a diretoria não tenha indicado dúvidas sobre a sucessão.

Osmar Loss era o auxiliar de Carille, repetindo o filme que se viu anteriormente. A falta de experiência à frente de equipes profissionais depõe contra, especialmente por suas passagens curtas e frustradas por Juventude e Bragantino. No entanto, estes acabam sendo recortes pequenos da carreira consolidada do treinador, sobretudo nas categorias de base. Loss despontou à frente do Internacional, onde participou da projeção de diversos talentos colorados e ergueu taças. A passagem de mais de uma década preparando os garotos, de certa maneira, teve seus reflexos nas equipes campeãs da América na década passada. Depois, seguiria a Juventude e à base do Fluminense, antes de retornar ao Beira-Rio. Já em 2013, chegou para ser um dos principais mentores das divisões inferiores corintianas.

O trabalho de Loss no “terrão” do Corinthians manteve a excelência de momentos anteriores de sua carreira. Comandando os juniores, disputou quatro finais da Copa São Paulo, conquistando dois títulos. Mais importante que os troféus, todavia, é a maneira como projetou os pratas da casa ao elenco profissional – mesmo que nem sempre o aproveitamento fosse amplo. A partir de janeiro de 2017, o gaúcho se tornou auxiliar de Carille no novo trabalho. E certamente tem a sua parte no sucesso dos últimos meses. De dentro, conhece a filosofia e os próprios jogadores com quem lidará. Facilita o seu caminho, até pela forma como pega o time arredondado por Carille nesta sequência de temporada.

Obviamente, Loss possui as suas próprias ideias. Na base, fugia do estereótipo do treinador que buscava força física na montagem de seus times para garantir a continuidade no emprego com títulos. Pelo contrário, o gaúcho montava equipes fluídas e privilegiando o talento individual. No Corinthians, é de se indagar qual será a mobilidade para deixar as suas marcas. Considerando o arraigamento do sistema de jogo, funcionando tão bem sob as ordens de Carille, fica difícil imaginar mudanças drásticas. Em compensação, sua chegada sinaliza o intuito da diretoria em aproveitar ainda mais o terrão. Tendo trabalhado com vários garotos, não é de se duvidar que o substituto torne a ascensão das promessas algo mais constante, sem travas para colocá-los em campo.

Mas se o contexto beneficia Loss, os ajustes finos terão que ser feitos por ele. E há muito a se trabalhar. Como Carille se definia, “era um cara de grupo”, o que facilitava no trato com os jogadores. Algo que o novo comandante precisará construir no dia a dia, além do contato que já tinha. Terá também que apresentar sua habilidade para superar situações adversas e manter o padrão a partir de mudanças pontuais, o que Carille fazia muitíssimo bem. E, por mais que o momento no Parque São Jorge não pese contra a mudança, considerando a tranquilidade esportiva, Loss precisa ter consciência que a mínima turbulência renderá pressão. Até por não ser um técnico tão renomado junto ao grande público, as indagações sobre as suas credenciais virão – como ocorreu com o próprio Carille no início. O sarrafo de exigências está alto, por aquilo que é e que consegue o Corinthians.

Ao Corinthians, a mudança se torna um teste à filosofia. A passagem de bastão de Tite a Fábio Carille foi relativamente bem sucedida – apesar do erro de percurso com Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges. Os alvinegros bem que buscaram outro comandante tarimbado antes de efetivarem o auxiliar, mas a “inexperiente” alternativa deu continuidade ao que já vinha dando certo e vingou com seus próprios traços. É isso que a cúpula corintiana recobra quando confia em Osmar Loss. Não é exatamente uma questão de nomes, mas de ideias, que possam manter o que se vê estabelecido no dia a dia do CT Joaquim Grava. Mas é preciso ter consciência que as virtudes pessoais também terão influência nesta manutenção. Entre arriscar outra vez com um técnico medalhão, dentro do mercado escasso, ou privilegiar o conhecimento interno, os alvinegros vão ao segundo caminho, embora ainda movediço.

Já a Fábio Carille, resta o desejo de sorte na sequência de sua carreira. É preciso reconhecer a importância do treinador, até por recuperar o fio da meada deixado por Tite no Corinthians. Seu adeus se dá por motivos basicamente financeiros e não tem como condenar a sua postura, pensando nas incertezas que sua carreira poderia ter a médio e longo prazo. Certamente, por seu reconhecimento e por aquilo que poderia construir, Carille mais perde do que ganha, em termos esportivos, na sua mudança à Arábia Saudita. Mas fica a filosofia que, talvez, possa frutificar.