Não faltou espírito de luta. Mas outros tantos predicados necessários em uma partida decisiva careceram ao Atlético Mineiro nesta quarta-feira. Sem calma, sem precisão e principalmente sem ideias para quebrar a retranca adversária, o Galo caiu nas oitavas de final da Copa Libertadores. Realmente os atleticanos têm razões para reclamar da arbitragem e dá até para questionar a sorte, que esteve tantas vezes ao lado do clube nos últimos anos, mas virou as costas para o time de Rogério Micale no Mineirão. Mesmo assim, a eliminação para o Jorge Wilstermann é completamente compreensível, a começar pela péssima partida feita na derrota por 1 a 0 em Cochabamba. Assim, o empate por 0 a 0 em Belo Horizonte foi cabal para deixar um gosto amargo em meio a tantas expectativas que não se concretizaram na temporada do Atlético.

Precisando do resultado a qualquer custo, o Galo entrou em campo com uma escalação não tão ousada, mas buscando o ataque desde os minutos iniciais. Seria claramente a tônica do que ocorreria durante a noite no Mineirão, contra um adversário que já vinha atuando de maneira defensiva fora de casa na Libertadores, e intensificou esta proposta para segurar sua vantagem. O que se viu diante da insistência atleticana, apesar da falta de criatividade na armação das jogadas.

Logo no primeiro minuto, Marcos Rocha forçou boa defesa do goleiro Raul Olivares em chute cruzado. Raríssima finalização certa dos alvinegros na noite. Afinal, por mais que tivesse a posse de bola, o Galo apresentava claras dificuldades para encontrar brechas na defesa adversária. O Jorge Wilstermann se entrincheirava. Eram muitas bolas alçadas na área, mas sempre faltavam centímetros para o tiro certeiro. Na melhor oportunidade, Luan estava livre após bola espirrada de Elias, mas cabeceou para fora. O tempo se esvaía aos anfitriões.

Fred chegou a balançar as redes para o Atlético aos 33 minutos. Recebeu lançamento e tocou na saída do goleiro Olivares, mas o jogo já estava paralisado. Impedimento mal marcado pela arbitragem, mas em um lance difícil, no qual o defensor saía na direção contrária. O centroavante, aliás, também já havia reclamado de uma penalidade nos primeiros minutos. O Galo, de qualquer forma, não se ajudava. Mesmo contra um adversário que mal conseguia passar do meio de campo, era improdutivo e pouco ameaçou na reta final do primeiro tempo.

Após o intervalo, Micale voltou a campo com um time mais ofensivo, ao substituir Adilson por Valdívia. O Atlético ganhou vivacidade, mesmo dependendo exclusivamente das bolas levantadas na área e dos chutes de média distância. Desta maneira, ao menos quase abriu o placar aos 11 minutos, em bola desviada por Luan que triscou a quina da trave. A reação explosiva do ponta deixava evidente a falta de frieza dos atleticanos. O que apenas se acentuaria na sequência da partida.

O próprio Luan deixou o campo para a entrada de Robinho, aclamado pelas arquibancadas. Não surtiu grandes efeitos em campo. O Atlético passou a errar passes na intermediária, o que permitia ao Jorge Wilstermann controlar um pouco mais a posse de bola e a atacar em velocidade, mesmo sem causar perigo. O tempo passava e o que restava aos torcedores era se agarrar na crença que conduziu tantos milagres em anos recentes. O “eu acredito” voltou a ser cantado no Mineirão. Mas não contradisse o impossível, diante da falta de inventividade. E quando podia se esperar a entrada de Rafael Moura, pelo excesso de chuveirinhos, quem veio a campo na terceira alteração de Micale foi Otero. Não traria nada de novo à equipe.

Nos minutos finais, Leonardo Silva passou a jogar no ataque. E, de fato, foi um dos melhores homens de frente do Atlético, ao menos por ganhar as bolas pelo alto. As duas melhores chances caíram nos pés de Robinho. Na primeira, chutou para defesa de Olivares. Depois, livre, falhou bisonhamente, mandando longe da meta. Nem mesmo quando o goleiro adversário soltou uma bola boba dentro da área, o Galo aproveitou. Na beira do campo, Micale se desesperava, pedindo calma, para que seus jogadores não cruzassem tanto. Ninguém deu ouvidos. Os acréscimos se arrastaram, com a cera dos jogadores bolivianos. Mas, ao apito final, a classificação era do coletivo mais organizado.

O Jorge Wilstermann está longe de ser um time brilhante. No entanto, possui um plano de jogo que vem surtindo efeito na Libertadores. Dificultou a vida do Palmeiras, eliminou Peñarol e Atlético Tucumán. Agora, a vítima foi o Galo, na primeira classificação de um clube boliviano sobre um brasileiro na história da competição continental – levando em conta apenas mata-matas. Falta qualidade individual, mas, nos últimos anos, está bem claro que o pragmatismo pode fazer os pequenos sonharem com campanhas memoráveis na Libertadores. O Aviador vai em frente, pegando o River Plate nas quartas de final.

O Atlético Mineiro, por sua vez, segue o ano precisando colocar ordem na casa. O clima de fim de festa é imenso. O time caro não vingou na Libertadores, também está fora da Copa do Brasil e não vai bem no Brasileirão. Ainda dá tempo de buscar a vaga na Libertadores 2018, mas o futebol apresentado não provoca tanta confiança assim. O objetivo primordial precisa ser o planejamento a médio prazo. Sobretudo, porque o elenco tem que aparar as suas arestas e o time precisa apresentar a capacidade coletiva que mal se viu nesta temporada. Que se reclame da arbitragem ou da falta de sorte, os atleticanos sabem que o buraco para explicar esta eliminação é bem mais fundo.

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