A crise do futebol holandês vive um capítulo por semana. Bem, talvez ela seja mais visível nas semanas em que se disputam os torneios continentais – como nesta, com as derrotas de Feyenoord (Liga dos Campeões) e Vitesse (Liga Europa) praticamente definindo que o país não terá nenhum time nas fases eliminatórias dos dois certames, algo que não ocorria desde a temporada 1998/99. Mas há vários exemplos de como a Holanda está sem rumo, sem certeza nenhuma do que fazer dentro ou fora das quatro linhas. E um deles é o descrédito dos técnicos do país Europa afora.

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Não era assim, e não faz muito tempo. Para citar dois nomes: ainda se considerava que Guus Hiddink e Dick Advocaat eram técnicos de ponta. Ambos sempre eram cogitados e contratados por clubes e seleções em busca de uma mentalidade, de um rumo. Basta mencionar os trabalhos de Hiddink na Austrália que fez honrosa campanha na Copa de 2006, e na Rússia de bons momentos na Euro 2008 (óbvio, dá para citar a Coreia do Sul semifinalista da Copa de 2002, arbitragens controversas à parte). E lembrar também que Advocaat treinava o bom time do Zenit, campeão da antiga Copa Uefa em 2007/08.

Nas décadas anteriores, então, falar em técnicos holandeses – ou de influência no futebol do país – era falar em profissionais um passo à frente em questões táticas. Nos anos 1970, havia o nome dos nomes: Rinus Michels (influenciado por dois ingleses que passaram pelo Ajax antes, Vic Buckingham e Jack Reynolds). Mas havia ainda o pouco mencionado Wiel Coerver, treinador no Feyenoord campeão da Copa Uefa 1973/74, criador do “método Coerver”. Havia o antecessor de Coerver no Feyenoord, Ernst Happel – austríaco, é verdade, mas marcante na história do clube, como condutor do técnico campeão europeu em 1969/70, e a “antítese” de Michels.

A mesma coisa se repetiu nos anos 1990: se era gênio em campo, Johan Cruyff mostrou ser gênio no banco. E tinha sua nêmesis em Louis van Gaal. Sem contar os nomes periféricos: Leo Beenhakker, Aad de Mos, Clemens Westerhof, Jo(hannes) Bonfrère… E nos anos 2000, além dos citados Hiddink e Advocaat, é possível citar os bons momentos de Bert van Marwijk e Frank Rijkaard. Enfim, a Holanda era a meca da tática.

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Deixou de ser assim. E três personagens provam a derrocada holandesa neste quesito. O primeiro, e mais conhecido, é Frank de Boer. Se os primeiros anos de trabalho do ex-zagueiro no Ajax faziam crer que surgira um técnico capaz de atualizar o ideário do Futebol Total em que a Holanda tanto acredita, a sequência revelou uma grande dificuldade de Frank em sair da camisa-de-força do 4-3-3 com pontas e troca de passes.

Nos últimos tempos de Ajax, houve a queda para o PSV – expressa na inesquecivelmente dolorosa perda do título holandês de 2015/16, na última rodada. Veio a saída, Frank de Boer recebeu a aposta da Internazionale, e fracassou fragorosamente: certo, o caos administrativo em Appiano Gentile era geral, mas De Boer não colaborou com decisões atrapalhadas nos 85 dias à frente dos nerazzurri. O irmão de Ronald passou o resto da temporada 2016/17 em pausa. Recebeu o voto de confiança do Crystal Palace e… foi ainda pior. Num time que briga para não cair no Campeonato Inglês, apostou no 4-3-3 e durou meros 77 dias. Caiu após quatro derrotas nas quatro primeiras rodadas, sem marcar gol algum. Pode até reagir na carreira, mas no momento, seu filme está completamente carbonizado.

Não chega a ser assim com Ronald Koeman. Afinal de coisas, o irmão mais novo de Erwin possui alguns bons trabalhos na carreira – na própria Holanda, com Ajax e Feyenoord, no Southampton, e até na primeira fase com o Everton. Porém, o ex-capitão da seleção holandesa mostra certa irregularidade, como exemplificam os esquecíveis trabalhos por Benfica, Valencia… e agora, na decepcionante continuação do trabalho com os Toffees: na zona de rebaixamento da Premier League, perto da eliminação (consumada nesta quinta) na Liga Europa, ninguém preferiu esperar para ver. Koeman foi demitido.

Pelo menos, parece ter destino traçado, conforme reconheceu à revista “Voetbal International”: “Assumir a seleção seria a sequência ideal para minha carreira”. E o próprio ocupante atual do cargo, o supracitado Dick Advocaat, reconheceu: “Acho que Ronald seria uma boa escolha. Ele treinou e jogou em altíssimo nível, tem a idade ideal, e agora está livre”. Ou seja: pelo visto, após Advocaat terminar seu compromisso com a Oranje treinando-a nos amistosos contra Escócia e Romênia, o caminho ficará aberto para que Koeman, enfim, chegue ao cargo que, para muitos (o colunista aqui se inclui), deveria ter sido dele já após a Copa de 2014. Não melhoraria muito as coisas, mas pelo menos haveria mais proteção à defesa.

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Finalmente, há Peter Bosz. Que virou coqueluche na Europa ao comandar o Ajax que chegou à final da Liga Europa na temporada passada – e que ganhou chance de ouro no Borussia Dortmund, aproveitada pelos litígios crescentes com a diretoria do clube de Amsterdã. Bosz chegou, credenciado para manter o estilo ofensivo que o clube alemão ostenta. Está mantendo – até demais: com a defesa cada vez mais frágil, o time do Vale do Ruhr começa a fraquejar no Campeonato Alemão, e se vê às voltas com a crescente possibilidade de uma eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões. Hipóteses que aumentariam a pressão sobre Bosz, se concretizadas – e mais: com a atual fase do Ajax, também motivariam a pergunta de como os Godenzonen conseguiram o que conseguiram em 2016/17.

Dentro da Holanda, o cenário também não é animador. Se o Utrecht de Erik ten Hag prometia no começo da temporada, tem se mostrado frágil demais na defesa – a ponto de minorar as cogitações de que ele pudesse ser a novidade no comando da seleção. Phillip Cocu até remonta o PSV com sucesso, mas os vexames do começo de temporada e o tempo de trabalho em Eindhoven fazem crer que ele já esteve melhor na carreira, e que talvez seja mais lúcido correr mundo na carreira antes de assumir a seleção (desejo que Cocu já assumiu, para daqui a alguns anos). A mesma coisa será recomendável para Giovanni van Bronckhorst, que não consegue incutir no Feyenoord a garra vista na temporada passada – e nem acha soluções satisfatórias para remontar a defesa perturbada por lesões, como se vê nas derrotas inapeláveis pela Liga dos Campeões.

Enfim, não só a Holanda não sabe para onde ir, taticamente, como os seus principais nomes no banco de reservas também sinalizam uma decadência. Pior: a frequência de ex-jogadores talvez denote certa falta de preparação prévia, como reclamou Robert Maaskant (também técnico medíocre, a bem da verdade) ao jornal “De Volkskrant”, em agosto: “Quando comecei como técnico, pensava: ‘eu não tive grande carreira como jogador, então é melhor começar o quanto antes. Porque, quando todas as estrelas da seleção nos anos 1990 chegarem aos 40 anos, elas quererão ser treinadoras e conseguirão os melhores cargos’. Começou com Marco van Basten treinando a seleção, sem experiência. Desde então, você não constrói mais uma carreira no futebol holandês: ela simplesmente acontece para você”.

Se os próprios treinadores não sabem o que fazer, que dirá a federação holandesa…