Os confrontos entre Brasil e União Soviética marcaram época. Em 1958, o jogo que mudou os rumos da Seleção na Copa do Mundo, em atuação avassaladora de Garrincha. Em 1982, o início do sonho com o time de Telê Santana no Mundial da Espanha, em virada eternizada pelos petardos de Sócrates e Éder. Mais do que isso, rolaram ainda amistosos notáveis, como os 3 a 0 comandados por Pelé diante de 100 mil moscovitas em 1965 ou o triunfo soviético no Maracanã em 1980. A Rússia, herdeira esportiva da URSS, não possui um histórico tão longo assim contra a Canarinho. Mas há jogos interessantes, além do mais lembrado, a vitória na fase de grupos da Copa de 1994. Um exemplo disso vem da maior goleada do Brasil sobre os russos, um 5 a 1 aplicado em novembro de 1998.

Era um momento de transição na seleção brasileira. Vanderlei Luxemburgo chegou com grande confiança para reerguer o time após a derrota na final do Mundial da França. Já tinha feito sua estreia na casamata, em amistoso contra a Iugoslávia que terminou empatado, e também goleara o Equador pouco depois. Desta maneira, o jogo contra a Rússia em Fortaleza seria uma oportunidade para novos testes e observações, em um grupo que ainda tateava como seria o seu novo ciclo.

E, olhando para a escalação, o destaque fica mesmo para o ataque. Se hoje a questão do centroavante é um tema recorrente nos debates, durante a virada do século o Brasil contava com matadores em abundância. Inclusive, fazer sucesso na Europa não era necessariamente algo que aumentasse a cobrança para ver estes artilheiros com a amarelinha, em tempos de conexão menos intensa com o que ocorria nos gramados do Velho Continente. Não à toa, alguns craques tiveram dificuldades de se firmar na equipe nacional. E dois dos maiores exemplos disso foram justamente os titulares naquela noite contra a Rússia: Élber e Amoroso.

Pensando nos parâmetros atuais, sem muitas dúvidas, ambos teriam boas chances de se firmar na Seleção. Um, ídolo no Bayern de Munique e campeão de tudo com o clube, quase sempre como protagonista. O outro, arrebentando na Udinese em tempos fortíssimos da Serie A, antes de consagrar no Borussia Dortmund. Fato é que tanto Élber quanto Amoroso tiveram menos espaço na equipe nacional que o impacto no futebol europeu poderia sugerir. Élber anotou sete gols em 15 partidas, a maioria deles em 1998, jogando também a Copa Ouro no primeiro semestre – mas preterido na lista para a Copa. Já Amoroso emplacou um pouco mais, com nove tentos em 19 aparições. Chamado por Zagallo em 1995, acabou esquecido após se lesionar, voltando apenas em 1998. Ainda assim, nenhum dos dois passou perto de disputar a Copa do Mundo em 2002.

Em novembro de 1998, todavia, a dupla composta por Élber e Amoroso era vista com interesse. Não se considerava como a principal opção do país, mas se tornava uma alternativa bastante palpável. Na chegada a Fortaleza, a boa relação se deu desde o primeiro encontro. “Muito prazer, tenho muito que aprender com você”, falou Amoroso, segundo relato da Agência Estado. Élber, por sua vez, elogiava o companheiro “inteligente e bom finalizador”. Consenso entre ambos era também a reverência a Ronaldo, intocável entre os titulares, mas lesionado naquele momento. “Se um dia eu vier a jogar ao lado do Ronaldinho, vou me sentir realizado. Pode botar três para marcá-lo, que não adianta”, sentenciava Amoroso. “As arrancadas dele do meio-de-campo com a bola nos pés são geniais”, complementava Élber.

O camisa 7 e o camisa 9 ainda tinham grandes companhias no setor ofensivo armado por Luxemburgo. Rivaldo e Denílson apareciam no apoio, enquanto o time ainda contava com o vigor de Cafu e Serginho nas laterais. Rogério Ceni era o goleiro, Antônio Carlos e César compunham a dupla de zaga, Flávio Conceição e Vampeta fechavam a cabeça de área. E no banco de reservas, havia opções de jogadores se destacando no futebol nacional, como Jackson, Christian, Narciso e Marcos Assunção. A Rússia, por sua vez, vinha com um time em transição, após cair para a Itália na repescagem da Copa do Mundo de 1998, e também realizava experimentações. Entre os nomes mais célebres, destaque para os meio-campistas Aleksey Smertin e Sergey Semak, que acabariam disputando o Mundial de 2002.

Naquela noite no Castelão, ao menos, Amoroso e Élber arrebentaram. Foi um jogo tumultuado, com atraso de 25 minutos por falta de luz. Então, quando a bola rolou, a dupla de ataque se mostrou afinada. Amoroso serviu Élber no primeiro tento e marcaria o segundo pouco depois. Rivaldo fez o terceiro de pênalti, enquanto Marcos Assunção contou com a colaboração do goleiro Andrey Novosadov no quarto, cobrando falta. Oleg Kornaukhov descontou de pênalti. Por fim, um chute feroz de Amoroso definiu a goleada.

Curiosamente, os dois atacantes não coincidiriam mais pela seleção. Élber disputou mais alguns amistosos esparsos com Luxemburgo, até 2000. Depois disso, só reapareceria em campo uma vez, com Felipão, saindo do banco na derrota para o Uruguai que abriu o trabalho do treinador nas Eliminatórias. Já Amoroso foi à Copa América de 1999 e deu sua contribuição ao título, mas pouco seria utilizado por Luxa depois disso. Em 2003, meses após ser campeão alemão com o Dortmund, ainda ganharia algumas chances com Parreira, mas não mais que isso. De certa maneira, os 5 a 1 sobre os russos em Fortaleza ficam para a história – mais por aquilo que poderia acontecido e não foi.