MANAUS - Faz alguns meses, escrevi aqui na Trivela que o Brasil é um grande Camboja. Meu ponto é simples. O Brasil sabe muito pouco sobre o mundo e o mundo, sobre o Brasil. Nós nos relacionamos com os outros por uma autoestrada de desinformação, uma avenida de clichê e preconceito mútuo. Pode não parecer, mas o Brasil ainda é bastante fechado. Na prática, a gente ainda se sente meio estranho no planeta.

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Lá, em dezembro, eu levantei a hipótese de que a Copa do Mundo poderia ser uma excelente oportunidade para começar, quem sabe, a mudar essa situação. Nós iríamos conviver com pessoas de tudo quanto é lugar no planeta. Elas veriam o Brasil com e sem clichê.

Minha véspera de Copa tem confirmado essa hipótese – além de ter levantado uma hipótese a mais. Além de dimunuir o fosso entre o Brasil e o mundo, talvez seja a chance de os brasileiros de outras partes do país se conhecerem um pouco melhor. Eu, que passei os últimos dias fotografando umas bandeirinhas em São Paulo, vi que muito clima de Copa país afora. Tem até Fuleco Gigante!

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Afinal, a Trivela me mandou viajar o Brasil e ver o que estava acontecendo nas cidades. A primeira parada? Manaus. Confira comigo no replay.

rua decorada em Manaus

Rua 3, no bairro da Alvorada, em Manaus

Escalas do avião

Peguei o avião em São Paulo na manhã desta quarta-feira. Estava lotado de chilenos cantando. Em Congonhas, aquele aeroporto acanhado da capital paulista, tudo correu bem – até os voluntários madrugaram para atender aos turistas e, quem não era voluntário, ajudou como pode. Não teve caos nem atraso. Só chilenos cantando e elogiando o Valdívia (é, pois é).

Na escala, em Brasília, comecei a encontrar dezenas de mexicanos de sombrero, também cantando. E vi ingleses, muitos ingleses. O destino dos comedores de fish and chips (e, mais do que nunca, de curry) era Manaus, cidade na qual eu também vou ficar até domingo e onde a seleção deles enfrenta a Itália. No voo, na medida em que o avião sobrevoava a capital do Amazonas, os ingleses do meu voo se amontoavam na janela para ver o rio, para ver a floresta de cima. Foi uma comoção para ver o rio. No desembarque, teve um pouco de clichê maroto, de cliché menino, com uns supostos índios recebendo os gringos. Foi exótico, mas durou pouco. Em seguida, começou outro país.

O aeroporto de Manaus ainda está em obras. Quem desce nem percebe. Parece estar tudo tranquilo, fluindo. Até que surge um operário haitiano e te pergunta, num inglês carregado, se você precisa de ajuda. Os haitianos estão se refugiando no Brasil desde o terremoto que devastou o país deles, em 2010, e vários encontraram emprego na construção civil e nos serviços em Manaus. Digo que sou brasileiro, agradeço e ele segue em frente. Então aparece o Ivano Cordeiro, produtor de cinema que vai me hospedar em Manaus por esses dias (sabe como é, a Trivela tem amigos no Brasil inteiro – e a hospedagem dos amigos vai merecer um post à parte). A gente começa a falar da Copa, de clima de Copa e ele fala: Vou te levar para uma das ruas decoradas de Manaus.

E ai, amigos, tem Fuleco gigante, tem taça gigante, tem de tudo um pouco. E poucas coisas podem ser mais interessantes do que ingleses tirando fotos com Fulecos gigantes numa rua decorada de Manaus, patrocinada pelo Zé Aldo, lutador de UFC. Isso, é o UFC patrocinando uma rua decorada da Copa que tem um Fuleco Gigante. Confira, fica na rua 3, bairro da Alvorada, em Manaus, pertinho da Arena.

Ainda é cedo para ser otimista em relação ao legado não-material da Copa. Não dá para saber se esse clima de descoberta mútua entre brasileiros e estrangeiros e entre brasileiros e brasileiros vai continuar nem se vai ter frutos além do Instagram. Mas parece que tem alguma coisa acontecendo, e, por enquanto, é muito bom.

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