Alfredo Di Stéfano compartilha uma história de idolatria na Argentina e na Espanha. Pode-se dizer que, em sua terra natal, a Flecha Loira não possui a representatividade que construiu em seu país adotivo. Ainda assim, não se deixa de respeitar o prodígio que estourou na lendária Máquina do River Plate e teve seus feitos na seleção argentina, sobretudo com a conquista da Copa América em 1947. No entanto, é na Espanha que a imagem como lenda se eternizou, por tudo o que conquistou pelo Real Madrid. E ele não teve qualquer ressentimento ao enfrentar os antigos compatriotas. Afinal, em uma de suas aparições pela seleção espanhola, às vésperas da Copa do Mundo de 1962, o atacante acabou com a Albiceleste.

A ponte entre Argentina e Espanha não era inédita, longe disso. Di Stéfano foi quinto jogador argentino a defender a seleção espanhola – e, dentre seus antecessores, o maior destaque fica a Héctor Rial, seu companheiro em Madri. A Flecha Loira estreou pela Fúria em janeiro de 1957. Três anos depois, surgiu a primeira oportunidade de enfrentar a Albiceleste, em amistosos preparatórios à Copa do Mundo de 1962. E o retorno do craque a Buenos Aires, em 24 de julho de 1960, não terminou nada feliz. Engoliu a derrota diante dos conterrâneos.

Segundo a imprensa da época, Di Stéfano esteve entre os raros a se salvar individualmente. Ao lado de Luis Suárez, foi um dos poucos “espanhóis” a demonstrar lucidez no Monumental de Núñez. Desta maneira, ficou fácil para a Argentina se impor. Com dois gols antes do intervalo, Sanfilippo definiu o triunfo albiceleste por 2 a 0. Bronqueado, a Flecha Loira reclamava do estado do gramado e dizia que havia sido uma das piores partidas de sua carreira. Nada que diminuísse o júbilo dos torcedores argentinos, que ao apito final invadiram o campo para abraçar os jogadores, em apoteótica festa destacada pelos jornais espanhóis.

Como era comum na época, as duas seleções marcaram o reencontro para o ano seguinte, em junho de 1961. A Espanha seria a anfitriã, recebendo a Argentina no Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán, em Sevilha. Desta vez, Di Stéfano não perderia a oportunidade de dar o troco nos conterrâneos. Foi uma atuação de gala do craque, bem acompanhado por Paco Gento e Luis del Sol, seus escudeiros no Real Madrid. Ocupando uma zona central mais recuada, em função diferente da que estava acostumado a desempenhar naqueles tempos no Chamartín, a Flecha Loira oferecia combate aos ataques argentinos e armava os contragolpes espanhóis. Segundo o ABC, o veterano de 34 anos era “senhor do meio-campo, colossal, mais jovem do que nunca, pisando em todos os cantos e cortando incursões perigosas”.

A supremacia da Espanha se ratificou no segundo tempo, com o placar de 2 a 0. Del Sol abriu a contagem aos 18 minutos. Já o tento de Di Stéfano aconteceu aos 28. A Flecha Loira saiu do campo de defesa espanhol, tabelando com Del Sol até a área argentina. Então, de frente à meta albiceleste, o gênio soltou um tiro indefensável ao goleiro Antonio Roma. A jogada arrancou amplos aplausos da multidão no Ramón Sánchez-Pizjuán. “Di Stéfano hoje jogou uma de suas grandes partidas, especialmente no segundo tempo, quando abertamente se lançou ao ataque”, avaliou o Mundo Deportivo do dia seguinte.

A repercussão na imprensa espanhola também trazia diversas declarações de membros do elenco e da comissão técnica da Argentina, exaltando Di Stéfano. Curiosamente, não se via qualquer conversa que pudesse indicar um conflito de interesses ao craque. No máximo, o veterano disse que “custou muito vencer os argentinos porque são magníficos”. Além disso, demonstrava que, apesar da idade, tinha gás para disputar o Mundial do Chile no ano seguinte. Uma pena que, sem as melhores condições físicas, a lenda não conseguiu entrar em campo na competição.

Depois de Di Stéfano, outros oito argentinos de nascimento defenderam a seleção espanhola no nível principal. Coincidentemente, o atacante Rubén Cano anotou o gol que classificou a Fúria para a Copa do Mundo de 1978, sediada em sua terra natal. Juan Antonio Pizzi, por sua vez, repetiu a Flecha Loira em 1995. O atacante marcou um dos gols na vitória sobre a Argentina por 2 a 1, em amistoso realizada no Vicente Calderón. O camisa 9 ainda disputou a Copa do Mundo de 1998 com os espanhóis.

PS: Vale conferir também o especial dos amigos do Futebol Portenho sobre o Deportivo Español, clube argentino que chegou até a vestir a camisa da Fúria.