MANAUS - Existe espírito de Natal – e existe espírito de Copa, ô se existe. As qualidades das outras pessoas crescem, os defeitos delas desaparecem, a generosidade de todo mundo aflora e ai, amigos, haja coração para tanto clichê menino, para tanto clichê maroto, para tanto clichê que, no fundo, é verdadeiro (e às vezes até emocionado, porque #carasdurões também se emocionam).

Futebol na veia! Está viajando? Então saiba onde rola a picardia na Copa

Na estrada com a Trivela: Essa é a mistura de Manaus com a Inglaterra

Não sei como estão as outras cidades-sede, mas eu nunca vi uma cidade tão tomada pela generosidade, pela picardia e pela hospitalidade quanto a capital do Amazonas. E isso, aos poucos, conseguiu apagar até os problemas da cidade. O trânsito, caótico, só se compara aos de São Paulo nos dias de chuva com greve do metrô. A diferença é que é assim todo dia. Você pode passar três horas dentro de um carro para percorrer uma distância de quatro quilômetros, o que dá quase um quilômetro por hora. Isso é capaz de acabar com o ânimo de qualquer um. Até que você passa por uma avenida lotada de veículos e vê um inglês curtindo a vida adoidado em cima de uma moto-táxi da cidade. Não deve ser fácil para quem vive aqui, mas os turistas estão curtindo um bocado viver como se não houvesse amanhã nas avenidas de Manaus. O defeito, de repente, vira atração turística – e o imagina na copa fica deslocado, solto, como se fosse fruto de uma alucinação coletiva (embora a gente nunca, nunca, possa esquecer os problemas e as promessas que nunca se tornaram realidade).

Os ingleses se tornaram uma atração em Manaus e superam por uma margem holandesa (foi mal, Espanha) os italianos – que quase não são vistos. Eles pegam a garrafa de 600mls, que nós costumamos dividir entre quatro pessoas, e tomam no gargalo mesmo, como se fosse uma pint um pouquinho maior. E eles tomam várias, muitas, e se tornam melhores amigos do louquinho da praça, do vendedor de sorvete, do garçom. Passam o dia inteiro nos bares, cantando England, England, e tiram fotos dos moradores, com os moradores e a pedido dos moradores de Manaus. Em pouco tempo, você vê manauaras e ingleses conversando em alguma língua entre o inglês e o português, dividindo um sorvete de castanha, e abraçados gritando algo que talvez fosse um chupa! durante um gol da Holanda.

A alegria do moto táxi

Torcedor inglês vibra com moto táxi em Manaus. É sério (foto: Leandro Beguoci)

E isso cria uma situação curiosa. Encontrei um grupo de ingleses logo no meu primeiro dia aqui. Eles estavam furiosos com o trânsito, com o calor, com a umidade. Hoje, encontrei com eles de novo – de moto-táxi, sem camisa e com garrafas de cerveja na mão. Perguntei o que eles acharam de Manaus, e eles me responderam que a cidade melhora com o tempo. Quanto mais você conhece as pessoas e passa tempo na praça do Teatro Amazonas, me disse um deles, mais você gosta da cidade e mais tem vontade de voltar. E a paixão é retribuída. Já tem muito manauara esquecendo a declaração do técnico da Inglaterra, que disse que não queria jogar na cidade. É uma lua-de-mel.

A mistura de Manaus com a Inglaterra

Torcedor inglês tira foto ao lado de índias do interior do Amazonas (foto: Leandro Beguoci)

Pode não durar para sempre, mas já vai deixar na cabeça dessas pessoas lembranças para uma vida inteira, e isso já é bastante coisa. A gente passou muito tempo imaginando o que ia acontecer na Copa, mas eu nunca pensei que veria cavaleiros medievais ingleses ao lado de indias do interior do Amazonas cantando God Save The Queen no centro da cidade. A realidade sempre dá um passa-moleque na ficção. Como diz um amigo meu, o Vinicius Oliveira, é a rainha que precisa se preocupar com a imagem do inglês médio no exterior.

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Joga bonito

Ingleses tentam jogar futebol em praça de Manaus (foto: Leandro Beguoci)