Era preciso um milagre. Aquele dia 10 de dezembro de 1995 era um dia que os torcedores do Santos precisavam de muita fé. O time só se classificaria com um resultado muito difícil, três gols de diferença, depois de ter perdido por 4 a 1 o jogo de ida da semifinal do Brasileirão para o Fluminense, no Rio de Janeiro. Um milagre que só mesmo o Messias poderia realizar. Com os cabelos cor de fogo, Giovanni teve uma atuação digna da camisa 10 que vestia, da lenda Pelé. Comandou o Santos em uma improvável virada e classificou o time para a final do Brasileirão.

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Como tinham as melhores campanhas, Santos e Botafogo entraram naquelas semifinais podendo jogar com a vantagem do empate. Ou seja: se a disputa ficasse empatada no número de pontos e saldo de gols depois dos dois jogos, esses times avançariam.

A Folha de S. Paulo trazia a manchete sobre o jogo por um aspecto interessante: “Abismo salarial joga vaga hoje”. A folha salarial do Fluminense era, então, quase três vezes maior que a do Santos. Para se ter ideia de como o mundo mudou, a folha do Flu era de R$ 600 mil mensais, o que hoje pagaria uma estrela do time. O Santos, por sua vez, tinha uma folha de modestos R$ 220 mil. Eram dois times semifinalistas do Campeonato Brasileiro, mas os tempos eram outros.

Os ingressos também tinham outro preço. Na Folha de S. Paulo do dia seguinte, o relato que os ingressos para aquele jogo custaram entre 0,40 e R$ 22. Claro, eram outros tempos, o salário mínimo era outro, a inflação desse tempo todo mudou muita coisa. Mas ainda é impressionante, porque com R$ 22, não há sequer possibilidade de ver um jogo tão decisivo assim nos dias de hoje. Se corrigirmos o valor pelo índice IPC-A, o ingresso mais caro nos dias de hoje teria valor correspondente de R$ 79,92. A final da Copa do Brasil entre Palmeiras e Santos, por exemplo, no Allianz Parque, teve preço médio do ingresso a R$ 134,55.

Não bastasse a vantagem financeira que, em tese, lhe dava uma maior qualidade técnica, Fluminense ainda podia perder por dois gols. Parecia mesmo uma missão impossível. A goleada no primeiro jogo era uma vantagem grande demais para ser tirada. Ao menos, em um dia normal, contra um time normal. Não era o Santos daquele dia. Não era Giovanni naquele dia. Naquele dia, Giovanni comandaria o Santos e faria qualquer torcedor ateu agradecer aos céus. Ou ao Messias, ali, com a camisa 10.

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Foi Giovanni que marcou os dois primeiros gols do Santos naquele jogo no Pacaembu. O primeiro, de pênalti, sofrido por Camanducaia, aos 25 minutos. Depois, recebendo na entrada da área, enganando o marcador já no domínio e batendo de bico, no alto, aos 29. Foi o placar do primeiro tempo. Para o milagre, faltava um.

Os jogadores do Santos não desceram para os vestiários no intervalo. Ficaram reunidos no centro do campo, sentindo o calor da torcida, mostrando o comprometimento de um time que queria, queria muito, tirar a sina da falta de títulos do clube desde 1984, ano da última taça. Giovanni, em entrevista ainda no campo, disse que a decisão tinha sido tomada no hotel, pelos jogadores. “Decidimos que se a gente estivesse ganhando por 2 a 0 no intervalo, ficaríamos em campo para sentir o calor da torcida”. Ficaram. Sentiram. A torcida, que já acreditava tanto durante a semana, passou a acreditar mais. Sintonia fina entre arquibancada e campo. E entre futebol e genialidade de Giovanni, decisivo.

Giovanni contra o Fluminense, na semifinal do Brasileirão de 1995: atuação mágica

Giovanni contra o Fluminense, na semifinal do Brasileirão de 1995: atuação mágica

Veio o segundo tempo, veio Giovanni inspirado. Ele passou para Macedo, que recebeu, fintou e bateu de esquerda, logo a seis minutos. Gol da classificação? Ainda não. Um minuto depois, o Fluminense descontaria com Rogerinho aproveitando um rebote, de peixinho. Era suficiente para o tricolor classificar.

A torcida do Santos não sofreria tanto tempo. Aos 16 minutos, em uma bobeada de Cássio, entrou na área, cruzou dividindo com o goleiro Wellerson e Camanducaia marcou. Eram 16 minutos. O Santos fazia 4 a 1 e tinha a classificação naquele momento. Mas viria a coroação definitiva do camisa 10 naquele jogo.

Giovanni, no meio-campo, estava bem marcado por dois jogadores. Não tinha para onde sair. Ele passou de calcanhar para Marcelo Passos, que avançou pela esquerda e bateu colocado, tirando do alcance de Wellerson: 5 a 1, aos 38 minutos do segundo tempo. Rogerinho, dois minutos depois, aos 40, diminuiu para 5 a 2. Era tarde. Naquele dia, nada, ninguém poderia tirar a classificação do Santos de Giovanni.

O Estado de S. Paulo estampou na capa do jornal de esportes do dia seguinte a manchete: “Santos, impossível, vence como campeão”. O Santos não foi campeão, mas o time ficou marcado na memória do torcedor e de todos os que gostam de futebol. Não porque era brilhante, mas porque, naquele dia, se viu um camisa 10 do Santos fazer um milagre e jogar tanta bola que a avaliação da sua atuação só poderia ser o número da sua camisa. Uma atuação de Pelé do Messias. Um dia para a história do futebol. E para arrepiar quem vê as imagens dessa atuação espetacular.

FICHA TÉCNICA

Santos 5×2 Fluminense

Local: Pacaembu, São Paulo
Data: 10/12/1995
Público: 28.090
Árbitro: Sidrack Marinho dos Santos (SE)
Gols: Giovanni aos 25 e aos 29’/1T; Macedo aos 6’/2T, Rogerinho aos 7’/2T, Camanducaia aos 16’/2T, Marcelo Passos aos 38’/2T, Rogerinho, 40’/2T

SANTOS
Edinho, Marquinhos Capixaba, Ronaldo, Narciso e Marcos Adriano; Gallo e Carlinhos; Macedo, Giovanni, Marcelo Passos (Marcos Paulo depois Pintado) e Camanducaia (Batista). Técnico: Cabralzinho

FLUMINENSE
Wélerson, Ronald, Lima, Alê (Gaúcho) e Cássio; Vampeta, Otacílio e Aílton; Valdeir (Leonardo), Renato Gaúcho e Rogerinho. Técnico: Joel Santana

Abaixo, os lances do jogo na inesquecível narração de Luciano do Valle, na Band. Logo depois, lances compilados pela TV Santos.