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O dilema do Brocador também é a dúvida do Flamengo

Hernane não é e nunca será um craque. Pensar isso, aliás, soa como heresia. Mas é na simplicidade de seu jogo que o camisa 9 fez sua fama no Flamengo. O centroavante folclórico que tanto povoa o imaginário rubro-negro. Assim, tendo consciência de suas limitações e dando menos toques na bola para se tornar cada vez mais letal, o Brocador se consagrou. Tornou-se protagonista em uma campanha irrepreensível na Copa do Brasil, o artilheiro do novo Maracanã, o ídolo de uma torcida que adora colocar seus jogadores mais icônicos em um pedestal – e pedi-los na Seleção. O camisa 9 não era a solução perfeita para a massa, mas bastam os gols para que os gritos contra as chances perdidas se tornassem urros de alegria.

A partida contra o Emelec mostrou como Hernane é querido pela torcida que autointitula seu time como o ‘Mais Querido’. Marcou um dos gols na vitória por 3 a 1. Foi festejado antes, durante e depois do jogo. Os gritos de ‘Fica, Hernane!’ ecoaram em um Maracanã cheio, com quase 40 mil pessoas. Por mais que nem todas as cadeiras do estádio estivessem ocupadas, ouvir uma homenagem dessas balançando as estruturas de um estádio lendário (mesmo que em nova versão), deve ser o suficiente para qualquer um. Sonho de criança para muitos e que, se não passava pelo imaginário de Hernane em sua infância, se introduziu em sua mente depois de ontem. O camisa 9 se empenhou demais no jogo para agradar aqueles milhares e, quando balançou as redes, rompeu em uma demonstração de amor, beijando o escudo.

Hernane sabe que aquele poderia ser seu último jogo. A transferência para o Shanghai Shenhua não está fechada, mas bem encaminhada. Faltam algumas garantias financeiras para bancar os € 6 milhões oferecidos, já que o clube chinês ficou com a imagem suja nos últimos tempos por não pagar os salários de Didier Drogba e Nicolas Anelka. Se a grana tiver mesmo lá, o Brocador terá que decidir entre a conta bancária gorda na China ou algumas dezenas de milhares de reais no Flamengo, às vezes pagos com atraso, mas com o carinho de uma torcida que não falhará a cada comemoração de gol.

O dilema maior é de Hernane, claro. Mas também do Flamengo. Os rubro-negros sabem que uma oferta tão polpuda pelo centroavante talvez não apareça de novo tão cedo, ou nunca mais apareça. Pode ser que a fase esplendorosa do artilheiro seja apenas isso, uma fase. E o clube acabe tendo nas mãos um jogador que não será a solução do time para sempre, que nem sempre resolva com um toque.

Por outro lado, sem previsões do futuro ou achismos do que poderá acontecer, o Fla perde muito se vender Hernane hoje. Não apenas porque ele é o artilheiro, mas também pela estrutura de um time que depende bastante de seu homem de referência. Quando o camisa 9 está isolado, os rubro-negros são praticamente inoperantes. É ele quem abre espaços nas defesas adversárias, que faz excelente trabalho de pivô para os companheiros que vem de trás. Por mais que não seja exemplo de técnica, ele é muitíssimo funcional.

E as perspectivas não são de uma reposição no mesmo nível de eficiência. Alecsandro já está na Gávea, mas não é capaz de batalhar tanto na área quanto Hernane. A base também não indica ninguém pronto de imediato para a função. Mesmo o mercado não é nada confortante, com a escassez de centroavantes, ainda mais com as virtudes do Brocador. O Flamengo teria que demonstrar uma competência ímpar para encontrar pelo interior um jogador que sanasse tão bem essas carências, uma aposta de baixo custo ao clube. Como foi Hernane. Que rendeu muito mais que o esperado, satisfez a torcida como poucos nos últimos tempos e agora tem sua decisão. Cabe a ele escolher seu destino, entre a segurança financeira e a aposta na própria fase. Se ela não for passageira, a recompensa já foi provada no Maracanã.