Eu não vou cometer o sacrilégio. Eu não vou cometer o sacrilégio. Eu não vou cometer o sacrilégio. Repito isso para deixar bem claro que eu não vou cometer o sacrilégio de fazer qualquer comparação técnica entre Orlando Berrío e Fernando Redondo – que, quem viu jogar, sabe o monstro sagrado que era, certamente entre os maiores meio-campistas de todos os tempos. Mas é impossível não notar a semelhança entre o drible que o colombiano aplicou sobre Victor Luis nesta quarta, nas semifinais da Copa do Brasil, e o que o argentino eternizou em plena Liga dos Campeões, em Old Trafford, contra o Manchester United – como ressaltado nas redes sociais por algumas pessoas após a jogada, incluindo Juan Pablo Sorín e Júlio César Cardoso, da página Ensina Romário.

O lance de Berrío é mais fulminante. Arranca em velocidade após o passe de Rodinei, ultrapassa o marcador e muda de marcha. O toque de letra é fundamental para deixar o botafoguense perdido na linha de fundo, antes que o ponta termine de engoli-lo. Ao final, o passe para Diego serve apenas de complemento. A bola, compreensiva com a obra de arte que o colombiano acabara de produzir, num lampejo de genialidade, permitiu-se entrar.

Redondo, por sua vez, é mais classudo em seu lance. Pressionado na lateral por Henning Berg e Roy Keane se aproximando na marcação, usa o recurso para criar um novo espaço. É como se desse um passe de letra para si mesmo. Enquanto o zagueiro norueguês tenta entender o que aconteceu, o meio-campista busca a bola longa na linha de fundo, avança e avista Raúl, livre de marcação. Os deuses do futebol também carimbaram o gol de placa – eleito aqui na Trivela como um dos 15 mais bonitos dos nossos 15 primeiros anos, além de costumeiramente apontado entre os mais bonitos da história moderna da Champions, graças à assistência impecável.

Mais do que belíssimo, aquele tento ainda foi bastante importante. Naquela noite, o Real Madrid ratificou sua classificação às semifinais da Liga dos Campeões 1999/00, vencendo o Manchester United por 3 a 2, após o empate por 0 a 0 no Bernabéu. Raúl já tinha marcado pouco antes quando Redondo ofereceu de presente o terceiro gol, no início do segundo tempo. Os Red Devils não conseguiram buscar o prejuízo, mesmo balançando as redes duas vezes nos minutos restantes. Campeões na temporada anterior, os comandados por Sir Alex Ferguson se despediram do torneio naquele momento. Abriram alas para os próximos donos da taça.

Redondo, por sua vez, vivia uma fase fabulosa, capitaneando o time de Vicente del Bosque. Terminou a competição com a Orelhuda nas mãos, depois que os merengues eliminaram o Bayern de Munique na etapa seguinte e derrotaram o Valencia na final. Também foi eleito o melhor jogador da temporada europeia pela Uefa. Uma pena que o seu declínio começaria logo depois: transferido contra a sua vontade ao Milan, lesionou-se logo nos primeiros treinos e passou mais de dois anos em recuperação. Nunca mais voltaria ao seu melhor. Aquele drible mágico, no fim das contas, acabou se tornando uma das últimas mostras de sua genialidade – que não se limitava a lampejos, visível jogo após jogo por cerca de uma década.

Como sempre é bom relembrar gols bonitos, vale rever o que fizeram Redondo e Berrío: