A Premier League vivia um período de consolidação na virada da década de 1990. O dinheiro começava a jorrar ao redor dos clubes de maneira mais intensa desde a revolução ligada à venda de direitos televisivos. A Lei Bosman trouxe o seu impacto, abrindo as fronteiras a estrangeiros. E, cada vez mais, as equipes inglesas buscavam contratar alguns dos melhores do mundo. Naqueles tempos, ainda era difícil competir com o auge da Serie A ou com a fama dos gigantes de La Liga. Ainda assim, craques renomados ou novas descobertas desembarcavam na Inglaterra, ajudando a aumentar o nível de competitividade. E, diante da ascensão da seleção croata, diversos futebolistas do país defenderam as equipes inglesas. A geração que disputou a Euro 1996 e alcançou as semifinais da Copa de 1998 não deixou exatamente lendas à Premier League. Mas as passagens, mesmo que curtas e envolvendo medalhões em fim de carreira, ofereceram lembranças. Efêmeras, mas com lampejos de craques.

A Croácia teve sua primeira aparição na Inglaterra em 1996. Naquele ano, a seleção disputou sua primeira competição internacional, a Eurocopa, realizando também um amistoso preparatório contra os Three Lions em Wembley. E o time treinado por Miroslav Blazevic causou o seu impacto. Durante a fase de grupos, terminou na segunda colocação, responsável por eliminar a Dinamarca, campeã continental quatro anos antes. Já nas quartas de final, vendeu caro o resultado contra a Alemanha em Old Trafford. Os croatas chegaram a buscar o empate no início do segundo tempo, mas, com um jogador a menos, acabaram sofrendo a derrota por 2 a 1. Mesmo assim, para um principiante, já era mais do que satisfatório.

Naquele momento, o elenco da Croácia já se espalhava pela Europa. A Guerra da Iugoslávia impulsionou a diáspora, considerando a geração talentosa que despontava desde as seleções iugoslavas de base. Desta maneira, os destaques do time se concentravam na Itália, dona da liga com maior poderio financeiro na época; e na Espanha, de ligações históricas com os bons valores dos Bálcãs. No mais, os convocados à Euro se dispersavam por Alemanha, Turquia, Bélgica e Japão. E dois deles já desbravavam a Inglaterra.

O pioneiro desta geração croata no futebol inglês foi Igor Stimac. O defensor era um daqueles que marcaram seu nome na Iugoslávia Sub-20, campeão do Mundial de Juniores em 1987. Deixaria o Hajduk Split nos tempos de guerra e passaria dois anos no Cádiz, até voltar a Split por uma temporada e ser pinçado pelos ingleses. Em outubro de 1995, por £1,5 milhão, o jogador de 28 anos assinou com o Derby County. Juntou-se a um time que brigava pelo acesso na Championship e o conquistou a promoção ao final da temporada 1995/96. Passou quatro anos com os Rams, como uma das referências do elenco. E demonstrou como os jogadores croatas poderiam ser bem sucedidos na Premier League. O zagueiro / volante se transformou em uma espécie de “herói cult” à torcida. Era um jogador técnico, mas que também se doava 100% e, de tão líder, usou a braçadeira de capitão. Abriu portas a partir de então.

Na mesma época em que Stimac dava os seus primeiros passos no Derby County, o West Ham fechava negócio com outro zagueiro croata. Slaven Bilic era da mesma geração e jogou por anos com Stimac no Hajduk Split. Em 1993, migrou à Alemanha, fazendo seu nome com um Karlsruher que brigava pelas vagas nas copas europeias. Em janeiro de 1996, então, se tornou solução aos Hammers, que pagaram £1,3 milhões pelo defensor – um recorde ao clube na época. Logo na estreia, o novato causou impacto, participando do gol que valeu a vitória por 1 a 0 sobre o Tottenham. Mesmo como poucos jogos, ajudou a acertar o sistema defensivo. Já na primeira temporada completa sob as ordens de Harry Redknapp, tomou conta da zaga, e terminou a temporada 1996/97 eleito o segundo melhor do time. Mais uma prova de que os croatas poderiam triunfar na Premier League.

Entre a Euro 1996 e a Copa de 1998, os olhares ingleses à Croácia eram evidentes. Stimac ganhava a adoração no Derby County. E a diretoria do clube gostou tanto da ideia que resolveu trazer outro croata logo depois da Eurocopa. Dono de muita inteligência tática e enorme qualidade técnica, Aljosa Asanovic saiu em alta do torneio continental. Levou os Rams a investirem em sua transferência logo em julho de 1996, comprado junto ao Hajduk Split, após um ano emprestado ao Valladolid. E mesmo que sua estadia tenha durado apenas uma temporada, deixou saudades por sua precisão nos passes longos, a voracidade na canhota, a categoria no domínio. O meia anotou sete gols em 38 jogos, terceiro artilheiro na equipe, impulsionando-a a um razoável 12° lugar. Só não ficou mais tempo por aceitar proposta do Napoli, seguindo ao San Paolo em 1997/98. Embora acusado de ser acomodado, é lembrado como um dos jogadores mais talentosos que passaram pelo Baseball Ground.

Outro personagem secundário a jogar na Inglaterra em 1996/97 foi Nikola Jerkan. Presente na Eurocopa, o defensor de 32 anos tinha uma longa passagem pelo Oviedo, mas não deu certo no Nottingham Forest. Disputou apenas 14 jogos pelos alvirrubros, antes de ser emprestado ao Rapid Viena. Deixou de ser convocado à seleção em 1997, assistindo de casa à celebração dos companheiros na França. Já em agosto de 1997, um dos croatas presentes na Premier League mudou de casa. Bilic era assediado pelo Everton desde o fim da temporada anterior, em tempos nos quais não existiam janelas de transferências. Preferiu ficar até assegurar que o West Ham não seria rebaixado, mas, logo depois, aceitou a proposta de £4,5 milhões para ir ao Goodison Park. Jogou uma temporada inicial razoável com os Toffees. Entretanto, depois da Copa de 1998, sofreu com lesões e suspensões, encerrando o seu contrato com o clube para terminar a carreira no Hajduk Split. Voltaria ao país em 2015, para treinar o West Ham.

Bilic e Stimac eram os únicos jogadores em atividade na Premier League convocados pela Croácia à Copa do Mundo de 1998. A liga croata se reconstruía, tornando-se a grande concentração de listados. Da mesma forma, Itália e Espanha também ofereciam nomes importantes, enquanto outros se espalhavam por Turquia, Alemanha e França. E se muitos dos destaques no Mundial já tinham sua badalação por clubes, como Zvonimir Boban ou Davor Suker, tornaram-se nomes ainda mais requisitados depois da campanha histórica na França. Eliminar a Romênia e a Alemanha, além de quase complicar os Bleus nas semifinais, valeu como um selo de qualidade aos jogadores croatas. Um investimento óbvio, dentro da realidade abastada na Inglaterra, e que se desdobrou nos anos seguintes.

Após a Copa de 1998, o Coventry City tratou de buscar o seu croata. Pagou £2,6 milhões ao Betis para contar com Robert Jarni, que gastou a bola no Mundial. O ala anotou um dos gols na vitória sobre a Alemanha nas quartas de final e seus cruzamentos foram uma das principais armas dos quadriculados. O problema é que o veterano de 30 anos sequer entraria em campo pelos celestes. O Real Madrid também estava interessado em seu futebol, mas o Betis recusava-se a vender seu astro ao concorrente no Campeonato Espanhol. Por isso mesmo, os merengues pagaram £3,4 milhões para tirá-lo do Coventry. Na época, alguns acusaram o clube inglês de atuar em conjunto com a diretoria madridista para viabilizar o negócio.

O efeito da Croácia de 1998 na Premier League seria um pouco letárgico. Em 1999 é que o mercado realmente esquentou. Primeiro, com a transferência de Stimac ao West Ham. O zagueiro teria uma boa temporada de estreia em Upton Park, mas sem a idolatria ou a liderança vistas no Derby County. Deixaria os londrinos após mais um ano. Meia reserva da seleção no Mundial da França e considerado uma das grandes promessas em seu país, Silvio Maric se mudou do Dinamo Zagreb ao Newcastle, referendado por suas atuações na Liga dos Campeões. Nunca justificou em St. James’ Park o seu alto preço e, um ano depois, arrumava as malas para o Porto. Já o acerto bombástico aconteceu mesmo em agosto de 1999, quando o Arsenal assinou com artilheiro da Copa do Mundo. Davor Suker juntou-se aos Gunners.

Formado pelo Osijek, Suker estourou nas seleções de base, campeão do Mundial Sub-20 de 1987. Transferiu-se ao Dinamo Zagreb pouco depois e deixou a Iugoslávia durante a eclosão da guerra. Vestindo a camisa do Sevilla, tornou-se um dos grandes ídolos do clube, sempre brigando pela artilharia de La Liga. Já a boa forma na Euro 1996 referendou sua mudança ao Real Madrid, onde viveu altos e baixos. Depois de uma ótima temporada de estreia, perdeu espaço no segundo ano, reserva durante a reconquista da Liga dos Campeões em 1998. Era questionado por sua parca mobilidade e a falta se empenho sem a bola. A Chuteira de Ouro na Copa serviu para elevar o seu moral, recobrando uma nova chance, mas o gênio difícil o complicou. Envolveu-se em inúmeros casos de indisciplina, esquentou o banco com John Toshack e arrumou as malas rumo à Inglaterra.

Aos 31 anos, Suker não jogou tanto assim pelo Arsenal. A concorrência no time de Arsène Wenger era pesadíssima. Além de Dennis Bergkamp e Nwankwo Kanu, Thierry Henry acabava de desembarcar em Highbury. Desta forma, o croata esquentou o banco muitas vezes, quase sempre visto como uma alternativa ao segundo tempo ou a partidas menos importantes. Deixou sua marca principalmente pelos frequentes golaços, graças à enorme capacidade de definição. De qualquer forma, balançou as redes apenas dez vezes em 37 aparições oficiais, marcado ainda por desperdiçar um pênalti na decisão da Copa da Uefa contra o Galatasaray. Em 2000, seguiu ao West Ham e, com apenas 12 jogos oficiais pelos Hammers, partiria para encerrar a carreira no Munique 1860, onde atuou por mais dois anos.

Em 2000, o Chelsea tirou Mario Stanic do Parma. Os Blues não viviam ainda os seus tempos abastados com Roman Abramovich, mas contavam com um time copeiro e que brigava pelas primeiras posições na Premier League, embora não fosse candidato direto ao título. Aos 28 anos, o meio-campista acumulava boa rodagem, que incluía passagens também por Zeljeznicar, Dinamo Zagreb, Sporting Gijón, Benfica e Club Brugge. Nascido na Bósnia, mas de etnia croata, participou de todo o processo de afirmação da nova seleção. E teve relativo sucesso na Serie A, titular ao longo de quatro temporadas. Justificava o investimento de £5,6 milhões, aportando ao lado de Jimmy Floyd Hasselbaink e Eidur Gudjohnsen no elenco treinado por Gianluca Vialli.

A carreira de Stanic em Stamford Bridge, no entanto, terminou minada pelas lesões. Sua estreia foi estrondosa, com dois tentos contra o West Ham na primeira rodada da Premier League 2000/01 – um deles, recebendo na intermediária, fazendo uma série de embaixadinhas para dominar a bola e soltando o balaço do meio da rua, na gaveta, em pintura que lhe valeria o prêmio de gol mais bonito da temporada. O problema é que em sua segunda partida pela liga o croata sofreu uma séria lesão no joelho, voltando apenas em 2001. Enfrentou dificuldades físicas e, sem espaço, precisou se reinventar em outras funções. Peça versátil e útil no elenco de Claudio Ranieri, apareceu mais nas duas temporadas seguintes, com gols e passes importantes para levar o Chelsea à Liga dos Campeões. Todavia, voltou a ser provado pelas contusões em 2003/04. Era um líder no elenco, mas fez duas míseras aparições pela Premier League naquela temporada. Aos 32 anos, decidiu pendurar as chuteiras em julho de 2004.

Ao mesmo tempo que Stanic desembarcava em Londres, outro astro croata era contratado na Premier League. Alen Boksic não disputou a Copa do Mundo de 1998 apenas porque estava lesionado, um desfalque sentido por tudo o que representava àquele time. Revelado pelo Hajduk Split, teve uma rápida passagem pelo Cannes (onde foi companheiro de Zinedine Zidane), antes de se transferir ao Olympique de Marseille. Arrebentou na temporada em que os celestes conquistaram a Liga dos Campeões, logo depois se mudando à Lazio, em meio ao escândalo que culminou no rebaixamento dos marselheses. Viveu anos como um atacante eficiente no Estádio Olímpico, idolatrado pela torcida biancocelesti. Após uma rápida passagem pela Juventus, onde foi vice da Champions em 1997, voltou à capital para se tornar uma alternativa à potente linha de ataque. Os problemas físicos o prejudicaram, mas, mesmo reserva, deixou sua marca na conquista do Scudetto em 1999/00. Contudo, aos 30 anos, logo buscou novos rumos. Foi contratado pelo Middlesbrough por £2,5 milhões.

Se não era uma potência na Premier League, o Boro vinha de dignas campanhas e boas participações nas copas nacionais durante este período. Contar com um atacante experiente como Boksic era ótimo aos alvirrubros, embora as regalias ao astro incomodassem um pouco. Combinando técnica e potência, o veterano foi eleito o jogador da temporada em seu primeiro ano no clube, autor de 12 gols em 28 partidas na Premier League. O problema é que, aos poucos, as contusões voltaram a incomodá-lo e minaram o seu espaço. No segundo ano, foi menos efetivo, com oito gols em 22 aparições na Premier League. Já no terceiro, sofrendo para ganhar minutos em campo, optou pela aposentadoria. Viveu de lampejos no Estádio Riverside, mas o suficiente para ser lembrado com carinho.

Por fim, o último daquela geração croata de 1998 a desembarcar na Inglaterra foi Robert Prosinecki. Tido por alguns como o mais talentoso daquela seleção da Croácia, era também um dos mais rodados. Formado pelo Dinamo Zagreb, foi mais um campeão do Mundial Sub-20 de 1987. Depois, virou um dos protagonistas do Estrela Vermelha que faturou a Champions em 1991. Não daria tão certo no Real Madrid, passando depois também por Oviedo, Barcelona e Sevilla. Na época da Copa de 1998, se colocava como astro do Dinamo Zagreb, mas ficou aquém de seu potencial ao longo do Mundial. A partir de 2000, seguiu uma trajetória de andarilho, até ser contratado pelo Portsmouth em 2001. Aos 32 anos, virava um negócio de luxo à equipe acostumada a lutar contra o rebaixamento.

A passagem de Prosinecki pela Premier League foi o último bom momento de sua carreira. Outra vez, o Pompey tentou fugir da degola e chegou até a mudar de treinador durante a campanha, com a contratação de Harry Redknapp em março de 2002. Pois o camisa 8 deu sua contribuição para manter a equipe na primeira divisão. Anotou nove gols em 33 jogos, com algumas atuações magistrais para conduzir o meio-campo. Os dribles estonteantes e as fintas secas estão entre as melhores lembranças da torcida em Fratton Park, assim como a visão de jogo privilegiada e os belos chutes de média distância. Era como um gênio que chegou de maneira inesperada e brindou a equipe modesta com o suprassumo do futebol. Ao final da temporada, o meia disputou a Copa de 2002. No entanto, seu contrato de um ano não foi renovado, partindo ao Olimpija, da Eslovênia. Foi eleito o maior “herói cult” pela fanática torcida do Portsmouth em 2008 e também figura em algumas seleções históricas do clube. Meses já suficientes para deixar saudades.

A aposentadoria de Strinic em 2004 marcou o fim da daquela geração croata na Premier League. No entanto, os compatriotas que passaram pela Inglaterra nos anos posteriores proporcionaram legados ainda mais amplos. Niko Kranjcar também foi adorado no Portsmouth, antes de seguir ao Tottenham. Os Spurs contaram ainda com Vedran Corluka, embora ninguém tenha maravilhado tanto quanto Luka Modric. Igor Biscan jogou por anos no Liverpool, parte do time vencedor da Champions em 2005, e tem Dejan Lovren como o seu herdeiro. Nikica Jelavic acumulou gols, principalmente pelo Everton, assim como Ivan Klasnic foi funcional ao Bolton. Eduardo da Silva era uma aposta do Arsenal, mas acabou eternizado por um episódio bem mais doloroso.

Ao todo, 24 croatas já atuaram na Premier League. No elenco que disputa a Copa do Mundo de 2018, quatro atletas representam esta história: Modric, Corluka, Kramaric e Lovren, o único que permanece em atividade na Inglaterra. As trajetórias de muitos dos croatas que passaram pelo país nos últimos anos são mais sólidas que seus antecessores, alguns deles superando os 100 jogos no Campeonato Inglês – Kranjcar, Lovren, Modric, Corluka e Jelavic, além de Stimac. Ainda assim, há uma dose de encantamento e saudosismo que permanece ligada a 1998, apesar da efemeridade. São os pioneiros.