A rivalidade entre Juventus e Napoli tem grandes capítulos dentro de campo, embora transcenda o futebol. A turineses e napolitanos, o confronto costuma representar algo maior, que contrapõe norte e sul da Itália. E a década de 1980 acaba sendo definitiva para moldar a rixa entre os dois clubes. Uma Juve que servia de base à seleção italiana, além de contar com alguns dos melhores estrangeiros do mundo. Um Napoli que tinha seu deus, seu Diego Armando Maradona, o craque que tão bem casou com a personalidade e com as ânsias dos celestes. Nos anos dourados do Calcio, cada duelo era cercado de expectativas.

E, em uma época de placares magros e defesas ferrenhas, há um Juventus x Napoli especial neste rico passado. Em novembro de 1988, há quase 30 anos, as redes balançaram oito vezes no Estádio Olímpico de Turim. Oito gols em uma vitória dos napolitanos por 5 a 3, que pintou como improvável goleada dos visitantes, mas quase terminou como uma marcante reação dos bianconeri, chegando a encostar duas vezes no placar. Tempos célebres de grandes jogadores em campo. Tempos, sobretudo, tempos de Maradona.

A Juventus atravessava um momento de transição naquela metade final dos anos 1980, cabe ponderar. Depois da conquista do Scudetto em 1985/86 e da aposentadoria de protagonistas, especialmente Michel Platini, a Velha Senhora não se mostrava tão competitiva assim. Frequentava a zona de classificação às copas europeias, mas sem necessariamente disputar a taça. De qualquer forma, não se deixava de respeitar um time com tantos nomes de peso. O dinamarquês Michael Laudrup, o soviético Oleksandr Zavarov e o português Rui Barros compunham o trio estrangeiro. Já entre os italianos, nomes que vestiram a camisa bianconera por longos períodos, como Stefano Tacconi, Sergio Brio, Luigi de Agostini e Giancarlo Marocchi. Destaque também para a presença do veterano Alessandro Altobelli, em sua obscura passagem pela Juve após deixar a Inter. E, como técnico, o ídolo Dino Zoff.

Do outro lado, o Napoli vivia os melhores anos sob as ordens de Ottavio Bianchi. Maradona, claro, não perderia aquele jogo, vestindo a camisa 10 e portando a braçadeira de capitão. No comando do ataque, Careca, também em um momento espetacular da carreira. E o restante da equipe contava com a base famosa que se consagrou com dois títulos do Campeonato Italiano, além da Copa da Uefa, que seria conquistada ao final daquela mesma temporada. Para aquele jogo, estavam alinhados referências como Giuliano Giuliani, Ciro Ferrara, Alessandro Renica, Massimo Crippa, Fernando de Napoli e Andrea Carnevale.

Aquele jogo já representava um confronto direto na Serie A 1988/89, após cinco rodadas. O Napoli aparecia na terceira colocação, com os mesmos sete pontos da Juventus, um lugar abaixo na tabela. Já no topo, os rivais Inter e Milan. Naquele momento, de qualquer forma, as expectativas eram enormes para o Juve x Napoli. O próprio presidente juventino Umberto Agnelli, que não andava tão frequente nas arquibancadas, voltou ao Estádio Olímpico de Turim. Levou consigo ninguém menos que Henry Kissinger, antigo secretário de estado dos EUA e figura proeminente na diplomacia – que nunca escondeu sua paixão pelo futebol. Judeu refugiado na América quando tinha 15 anos de idade, o político nasceu na Baviera e, durante a infância, pôde ver o Greuther Fürth de sua cidade natal ser campeão nacional.

Quando a bola rolou, porém, Agnelli e Kissinger precisaram aplaudir o baile do Napoli. Muito mais azeitado, o time celeste não perdoou as brechas deixadas pela defesa juventina. Maradona era quem mais aproveitava os espaços, deitando e rolando no latifúndio existente no meio-campo, por mais que suas ações quase sempre fossem inibidas com faltas duras. Uma delas resultou na cobrança do camisa 10 para Carnevale abrir o placar aos três minutos. Os napolitanos ampliaram aos 30, a partir de uma jogadaça de Careca, que teve o primeiro chute salvo na pequena área, mas não perdoou no rebote. E o estrago estava completo aos 44, quando Maradona arrancou do campo de defesa. Ferrara o acompanhou e rolou para Careca fuzilar.

Quando todos davam a Juventus como morta, a Velha Senhora conseguiu reagir. Zavarov se encarregou de orquestrar os bianconeri. A partir de um passe preciso do soviético, Roberto Galia descontou aos três minutos. E o próprio Zavarov anotou o segundo, aos dez, escorando cruzamento de De Agostini. Ao menos o Napoli acordou rapidamente, anotando o quarto aos 13. Em contra-ataque brilhante, De Napoli roubou a bola no meio e cruzou na medida para Careca completar sua tripleta. Aos 32, De Agostini daria nova esperança à Juve, convertendo um pênalti. Mas também na marca da cal é que os celestes arremataram a vitória, aos 40, em cobrança de Renica. Já substituído após tantas pancadas, Maradona gritava e vibrava com os companheiros.

Naquela temporada, Juventus e Napoli voltariam a se enfrentar três vezes. Pelas quartas de final da Copa da Uefa, os bianconeri venceram por 2 a 0 em Turim, mas Maradona liderou os 3 a 0 diante de 89 mil no San Paolo. Após a inversão do placar nos 90 minutos regulamentares, a classificação acabou definida no último minuto do segundo tempo da prorrogação. Já no returno da Serie A, sem que Dios estivesse em campo, a Velha Senhora deu o seu troco. Venceu por 4 a 2 de virada, com Renato Buso comandando o ataque. Os juventinos terminaram o Campeonato Italiano na quarta colocação. Os napolitanos foram vice-campeões, mas longe de competir com a Internazionale. Os celestes terminariam a temporada ainda com o vice na Copa da Itália, derrotados pela ascendente Sampdoria, mas puderam comemorar a façanha na Copa da Uefa.

Aquela emocionante vitória do Napoli por 5 a 3 foi a penúltima do clube contra a Juventus em Turim. Os celestes precisaram esperar 21 anos para comemorar novamente. Em outubro de 2009, outra partidaça. David Trezeguet e Sebastian Giovinco abriram dois gols de vantagem aos bianconeri, mas os napolitanos buscaram uma impensável virada por 3 a 2 no segundo tempo. Autor de dois gols naquele milagre, Marek Hamsik é o remanescente à procura de mais uma surpresa neste domingo, em noite que fatalmente ficará para a história do Calcio.