Aos alheios que não conheciam Paolo Guerrero antes da Copa do Mundo, os meses prévios ao Mundial da Rússia expuseram a sua história e a sua luta. O centroavante se tornou um dos grandes personagens da competição antes mesmo que ela acontecesse. Nem todos concordam com a decisão de absolver o veterano após ser pego no exame antidoping, por fazer uso de uma substância que não era de seu conhecimento e que comprovadamente não beneficiou o seu desempenho. No entanto, não se nega o empenho de Guerrero para se juntar ao elenco de Ricardo Gareca. Sua luta para provar a inocência – que foi acatada pela justiça comum suíça, se sobrepondo à decisão do Tribunal Arbitral do Esporte e ao questionável regulamento da Fifa. Enfim, o ídolo peruano poderia estrear. Não conseguiu ser tão preponderante como se imaginava. Mas, em seu último jogo, contra a Austrália, teve uma recompensa por seu esforço. Terminou um duelo da Copa como protagonista.

A decisão de Ricardo Gareca ao poupar Guerrero a partir dos primeiros minutos contra a Dinamarca é discutível. Ainda assim, o atacante fez a diferença enquanto esteve em campo. A seleção peruana cresceu a partir da entrada de seu homem de referência, que comandou o ataque e incomodou bastante a defesa dinamarquesa. Seu chute de calcanhar viraria o complemento perfeito à epopeia anterior ao Mundial, mas o destino não foi tão poético desta vez. A derrota atingia a Blanquirroja em cheio, mas havia tempo para se recuperar. O duelo pegado contra a França, porém, outra vez pendeu ao lado contrário. Guerrero lutou, mas não jogou bem e foi insuficiente a um ataque que ficou devendo naquela partida. Em sua melhor chance, parou em Hugo Lloris. Ao apito final, eliminação consumada, não escondeu as sentidas lágrimas pela eliminação que vinha tão cedo.

De qualquer forma, havia mais um jogo para se disputar, contra a Austrália. Mais uma ocasião para se batalhar. E os peruanos, mesmo sem chances na competição, não esmoreceram. Voltaram a buscar a vitória, a primeira nesta Copa, aquela que não vinha há 36 anos na competição. Puderam contar com o melhor de Guerrero. O jogo direto ao centroavante desta vez funcionou. O lançamento de Yoshimar Yotún pegou o centroavante na linha tênue do impedimento. Matou com o tronco, protegeu a bola, fintou o marcador e encontrou André Carrillo totalmente livre na entrada da área. O golaço do ponta possui como prólogo toda a qualidade do camisa 9 nos fundamentos. Até que os segundos redentores viessem no início do segundo tempo.

Não foi o gol mais bonito do jogo e nem o mais importante. Ainda assim, foi o gol de Guerrero. O gol que o veterano tanto almejou. A bola mascada de Christian Cueva chegou limpa ao artilheiro. Pronta para ser chutada. E ele sabe muito bem o que fazer. Girou o corpo e desferiu um chute capaz de balançar as redes. A injeção de sentimentos que ele tanto buscou finalmente aconteceu, diante de milhares de torcedores que estavam lá para apoiar a seleção peruana e também exaltá-lo. Na comemoração, o camisa 9 foi tomado pela emoção. Exibiu orgulhoso o escudo no peito e o beijou. A satisfação era evidente em sua face.

Ao fim da partida, o regozijo. Os peruanos se entristeceram por se despedirem da Copa do Mundo tão cedo, mas o trauma já ficou para trás. Nesta terça, puderam experimentar novamente um pouco da alegria e do prazer. Nas arquibancadas, a torcida cantava forte e dava uma enorme cena final à seleção. Imagens complementadas dentro de campo. Guerrero chorou mais uma vez. Agora, sem ressentimentos, com felicidade. Deu um abraço forte em Christian Cueva para dizer que, apesar dos resultados, em alguns aspectos a jornada valeu a pena. E a população peruana, orgulhosa de sua identidade, escancarada ao restante do mundo, confirma.

“Esse triunfo é para a nossa gente e por Jefferson Farfán. No próximo ano teremos um novo desafio na Copa América. Mostramos que o Peru pode jogar de igual com qualquer um”, declarou Guerrero após a partida. O capitão usava a camisa de Farfán, em homenagem ao companheiro que sofreu uma concussão contra a França e precisou ser hospitalizado, mas se recupera. “É inesquecível. Lutamos muitíssimo para chegar aqui. Não pudemos dar essa alegria a todo o povo peruano que veio à Rússia e esperavam que nos classificássemos. Estamos tristes, mas não vamos de mãos vazias. Em todas as partidas nos sacrificamos muito e creio que todo o povo peruano pode ficar tranquilo pelo rendimento da equipe”.

Aos 34 anos, Guerrero sabe que não tem muito tempo de carreira pela frente. Seu futuro próximo é indefinido, diante de sua situação contratual com o Flamengo, em vínculo que se encerra em agosto. Independentemente disso, o veterano quer mais com a seleção peruana. Nesta semana, falou até mesmo em disputar a Copa do Mundo de 2022. A campanha rumo à Rússia e também a rápida passagem pelo Mundial mostraram que a Blanquirroja pode mais. É o sonho que prevalece, em desejo compartilhado por todo o país.