Jorge Sampaoli assumiu a seleção chilena com uma missão clara. Teria que classificar o time à Copa do Mundo de 2014, depois da sofrível passagem de Claudio Borghi e do mau início nas Eliminatórias. Para tanto, o técnico recebeu carta branca para transformar a Roja. Era o herdeiro de Marcelo Bielsa, que tanto encantou os chilenos por seu futebol ofensivo. Com uma diferença: Sampaoli conseguiu montar um time capaz de encarar também os grandes. Foi assim nos amistosos preparatórios e, agora, também no Mundial. A vitória por 2 a 0 sobre a Espanha foi a mostra maior dessa força, com a classificação às oitavas.

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É certo que a apatia espanhola facilitou muito o serviço do Chile. Mas não dá para negar os méritos da equipe de Sampaoli ao matar o jogo ainda no primeiro tempo. Ainda que a equipe já tenha exibido um futebol mais impressionante em outras ocasiões, venceu a partir de seus pilares: a troca de passes rápida, a velocidade nos contragolpes, a pressão na saída de bola dos adversários. Uma fórmula do treinador, que deu muito certo na Universidad de Chile, e foi adaptada na seleção. Graças à base que já contava no clube, unida aos principais talentos individuais do elenco chileno, que jogam juntos há tanto tempo.

Especialmente do meio-campo para frente, é esse o princípio que rege o Chile, que torna a equipe tão boa coletivamente. O entrosamento e o talento. De La U, Sampaoli firmou entre os titulares Marcelo Díaz, Eugenio Mena, Charles Aránguiz e Eduardo Vargas. Um quarteto que está muito bem acostumado ao futebol intenso promovido pelo treinador. Díaz é o principal motor na meia-cancha, enquanto Aránguiz garante intensidade. Vargas, por sua vez, é um fenômeno sob o comando de Sampaoli, com 13 gols em 17 jogos com o treinador na Roja. Dá movimentação ao ataque e é um enorme perigo em suas arrancadas em diagonal.

Por outro lado, o técnico também aproveita muito bem uma das melhores gerações da história do Chile, formada desde o Mundial Sub-20 de 2007. Dela, vem Gary Medel, Mauricio Isla, Arturo Vidal e Alexis Sánchez. Outros quatro nomes imprescindíveis na espinha dorsal chilena. Medel, o líder da zaga, talvez a maior preocupação da equipe. Isla, que se completa muito bem com Mena nas subidas pelas alas. E os dois maiores talentos individuais.

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Vidal não está em seu ápice físico, e talvez por isso mesmo o Chile também não chegou ao seu melhor. Mesmo assim, o volante jogou demais contra a Espanha. Devastou o meio-campo com sua presença com e sem a bola. Iniciou o primeiro gol, em um desarme fundamental. Tão bem quanto ele foi Alexis. Pode não ser o atacante perfeito, mas é a peça perfeita para a engrenagem da Roja. O jogador voluntarioso e ágil para potencializar as características do time.

Com eles, se somam os zagueiros Jara e Silva (ou, por vezes, Valdívia) e o goleiro Bravo, que faz uma grande Copa do Mundo. Ainda que, individualmente, o Chile não tenha um grande candidato à Bola de Ouro, coletivamente poucas seleções se comparam ao time de Sampaoli. A troca de passes e o entrosamento são importantíssimos, como o primeiro gol sobre a Espanha deixou muito claro. É um time que, pelo trabalho desenvolvido, merece o sucesso nessa Copa. E que torna ainda mais simbólica a vitória sobre a Espanha: a ideia fixa de Del Bosque e a mutação eficiente de Sampaoli.