“Planejamento é fundamental para ganhar a Copa Libertadores da América.” Tal frase – e suas variáveis – é quase um mantra de tão usada para clubes brasileiros a cada vez que a competição sul-americana começa. Pois o Cruzeiro, dos mais tradicionais times do país em torneios continentais, tem uma prova em contrário. Na edição de 1997 da Libertadores, a Raposa teve muitas turbulências internas, passou sufoco várias vezes durante a campanha, mas há 20 anos, em 13 de agosto de 1997, o Mineirão ficou fervilhante com os vários gritos de “ê, meu pai/eu sou Cruzeiro, meu pai” que celebravam a segunda vez que a taça da Libertadores foi parar na Toca.

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Na verdade, dentro de campo, nem havia tanta desorganização. A torcida tinha vários jogadores em quem confiar. No gol, Dida já era titular absoluto; no miolo de zaga, Wilson Gottardo dava a experiência necessária; Nonato e Ricardinho eram dois dos mais marcantes jogadores da história recente do clube (o primeiro, na lateral esquerda; o segundo, como volante); desde a conquista da Copa do Brasil de 1996, Palhinha se consolidara como o criador das jogadas de ataque; e Marcelo Ramos vivia uma das fases mais goleadoras de sua carreira. Bastava somar a essa espinha dorsal algumas contratações de jogadores encostados em outros clubes, como o lateral direito Vitor (que já tinha dois títulos de Libertadores com o São Paulo) e o volante Fabinho. Treinando todos, o ex-zagueiro Oscar Bernardi. Tradição, já se disse aqui, também não faltava: o Cruzeiro fora finalista da Supercopa da Libertadores no ano anterior.

Porém, o começo no grupo 4 da Libertadores foi desastroso: três derrotas nos três primeiros jogos. Na estreia, 1 a 2 para o Grêmio – campeão brasileiro -, em pleno Mineirão (derrota que foi suficiente para demitir Oscar). Na série de visitas aos dois clubes peruanos que formavam o grupo, já com Paulo Autuori no comando, tropeços para Alianza Lima e Sporting Cristal (que voltaria a esta história), em dois 1 a 0. A volta da fase de grupos já ficava decisiva: só vitórias manteriam as chances cruzeirenses de avançar às oitavas de final. Já mais assentado sob o comando de Autuori, e tendo a vantagem de definir a classificação em dois jogos no Mineirão, o time aliviou a torcida: foi ao Olímpico e fez 1 a 0 no Grêmio, e classificou-se de vez com 2 a 0 no Alianza Lima e 2 a 1 no Sporting Cristal.

Porém, as oitavas de final continuaram a via-crúcis cruzeirense. Nelas criou-se uma tortuosa “rotina”: o Cruzeiro perdia fora e ganhava em casa. A regra do gol fora de casa ainda não fora instituída, mas o sofrimento foi gigante contra o El Nacional, do Equador: derrota por 1 a 0 em Quito, e a vitória por 2 a 0 no Mineirão foi perturbada por um gol de Joffre Arroyo, numa cobrança de falta, aos 45 minutos do segundo tempo, levando a decisão da vaga nas quartas para os pênaltis. Aí, Dida mostrou a capacidade de sempre: pegou uma cobrança, o Cruzeiro fez 5 a 3 e avançou.

Nas quartas de final, um reencontro: o Grêmio, adversário na primeira fase. Outra vez, dois jogos muito equilibrados, contra um time que estava achando tempo ainda para ser campeão da Copa do Brasil naquele mesmo ano. Na ida, o Cruzeiro adiantou os trabalhos: 2 a 0 no Mineirão. No Olímpico, Fabinho fez o gol salvador – e mesmo com a virada do Grêmio para 2 a 1, a equipe do Barro Preto alcançou uma vaga nas semifinais que parecia difícil.

O Cruzeiro também achava espaço para conquistar o Campeonato Mineiro, naquele meio de ano. As atuações de Dida, Gottardo e Palhinha melhoravam. E só mesmo isso evitava a explosão do choque interno que já havia. De um lado, Paulo Autuori evitava que a cobrança da diretoria sobre as atuações irregulares explodisse no grupo; do outro, o diretor de futebol Moraes (já falecido, zagueiro titular na conquista da Libertadores de 1976) e o presidente Zezé Perrella pressionavam cada vez mais o treinador, com frases como “não existe técnico bom e time ruim”, dita por Perrella.

A roda-viva seguiu. Com um mau começo no Campeonato Brasileiro (incluindo uma goleada sofrida para o São Paulo em pleno Mineirão – 5 a 0, em 16 de julho, com cinco gols de Dodô), e mais sufoco nas semifinais da Libertadores, contra o Colo Colo. Aí, Marcelo Ramos chamou a responsabilidade, a princípio. Foi dele o gol no 1 a 0 do jogo de ida, no Mineirão; e foi dele um dos gols na derrota por 3 a 2, em Santiago, que levaram a mais uma disputa de vaga na marca do pênalti. E Dida apareceu de novo: com duas defesas do goleiro, o Cruzeiro fez 4 a 1 nas cobranças e conseguiu a decisão sonhada – mais um reencontro, contra o Sporting Cristal.

Para complicar, havia ainda a disputa da Copa Centenário, celebrando os 100 anos de Belo Horizonte, entre o jogo de ida e o de volta na decisão. Outra queda de braço entre a diretoria, que desejava ver o time profissional, e Autuori, que pediu e ganhou: um time misto (com os ainda juniores Fábio Júnior e Geovanni) encarregou-se de jogar o torneio amistoso, treinado por Wantuil Rodrigues, enquanto os profissionais cuidavam da Libertadores. Na ida, um tenso empate em 0 a 0, com Dida tendo grande atuação. Rumo à volta, Paulo Autuori deu o limite: cansado das brigas com Moisés, comunicou ao grupo no domingo anterior à final que ela seria seu último jogo comandando o Cruzeiro.

E o 13 de agosto de 1997 foi a data de outra partida de fazer roer todas as unhas no Mineirão superlotado. Com um time bem treinado por Sergio Markarián (e contando com certa técnica no meio-campo, com o atacante brasileiro Julinho como destaque), o Sporting Cristal segurava-se, aproveitando-se até do nervosismo cruzeirense. No segundo tempo, aos 20 minutos, o coração da torcida falhou em cobrança de falta de Nolberto Solano, que Dida rebateu antes de defesa fundamental, no reflexo, quando Julinho aproveitou a sobra.

Outra vez, os chutes da marca do pênalti já eram vislumbrados para definir o campeão sul-americano. Até que, aos 31 minutos, Elivélton comprovou sua fama de ‘pé quente’. Já experiente, com dois títulos da Libertadores nos tempos de São Paulo, autor do gol do título paulista para o Corinthians em 1995, reserva muito utilizado no fabuloso Palmeiras campeão paulista de 1996, o atacante chutou sem muita força. Mas viu o goleiro Julio Cesar Balerio deixar passar a bola fraca. E veio o gol do segundo título cruzeirense na Libertadores. Um título com um ambiente muito errado – mas que deu certo.

Foto: Arquivo Cruzeiro