Vivendo eternamente à sombra do poderoso vizinho e rival Barcelona, o Espanyol teve poucos momentos de glória em sua história. Em 1987 e 1988, no entanto, viveram a expectativa de uma conquista imensa na Copa da Uefa, pelo peso de um caneco europeu e pelos fortíssimos adversários deixados pelo caminho. O título não veio, perdido de maneira inacreditavelmente melancólica. Mas a campanha dos Pericos (periquitos), que contavam em campo com o lendário goleiro camaronês Thomas N’Kono e com o hoje treinador azulgrana Ernesto Valverde, virou motivo de orgulho para o clube e segue sendo relembrada no país de tempos em tempos.

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Primeiro clube a escalar uma equipe inteiramente formada por jogadores nascidos no país, o Espanyol foi criado curiosamente como um contraponto aos “estrangeiros” que fundaram o Barcelona – como o suíço Hans (posteriormente “catalanizado” como Joan) Gamper. Décadas depois, no entanto, enquanto os azulgranas se posicionavam como um bastião pela soberania catalã e antifranquista, os Pericos não eram vistos com bons olhos nem mesmo em sua região, pelo fato de sua torcida ser formada em boa parte primeiro por monarquistas e depois por funcionários do governo central autoritário, incluindo migrantes de outras partes do país (especialmente madrilenos) remanejados para a Catalunha.

Além disso, futebolisticamente, os blanquiazules nunca chegaram perto do sucesso dos vizinhos. Haviam disputado praticamente todas as temporadas da liga desde sua instituição, exceto por duas passagens pela segundona (1962/63 e 1969/70). Mas nunca tinham ido além de um terceiro posto, em três ocasiões (1933, 1967 e 1973). Títulos, só os da Copa do Rei, levantados em 1929 e 1940. Na Europa, a história também era modesta: até 1987, tinham participado de apenas duas edições da Copa das Feiras (caindo duas vezes nas quartas de final, uma delas para o rival) e de outras duas da Copa da Uefa (parando na primeira fase e nas oitavas). Sua primeira grande história continental seria vivida a partir daquele momento.

O caminho para a Europa

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A temporada 1986/87 da liga espanhola foi atípica. Pela única vez, desde a criação do campeonato nacional em 1929, o regulamento não se resumiu ao sistema de pontos corridos em turno e returno. Numa tentativa de tornar a disputa mais atraente, a fórmula daquele ano estabelecia que, após as 34 rodadas habituais, os 18 times da primeira divisão seriam divididos em três blocos de seis equipes (ou “liguillas”, como os espanhóis costumam chamar), de acordo com a classificação na fase normal.

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Os seis primeiros colocados formariam o Grupo A, que apontaria o campeão da temporada. Os seis últimos jogariam o Grupo C, uma espécie de “torneio da morte” contra o descenso. E os seis do meio brigariam por uma vaga na efêmera Copa da Liga (que acabaria cancelada ao fim daquela temporada). Em todos os três grupos, os clubes se enfrentariam em turno e returno e carregariam os pontos da etapa anterior. Eram, portanto, 44 jogos para cada equipe. Um campeonato longuíssimo, que terminou apenas em 21 de junho.

Naquela temporada, o Espanyol fez uma campanha bastante consistente. Perdeu apenas uma das 22 partidas que fez no Estádio Sarriá (para o Real Madrid, já no returno da “liguilla”). Em 17 de dezembro, bateu o Atlético de Madrid por 2 a 1 em casa e alcançou o terceiro posto, no qual se estabilizaria ao vencer também as quatro partidas seguintes, colocando-se numa situação bastante confortável na tabela: distante dos ponteiros Real Madrid e Barcelona, mas com vantagem folgada sobre os demais competidores. Ao fim, igualou a melhor colocação de sua história na liga. E teve ainda o segundo ataque mais goleador (à frente dos rivais culés) e a quarta defesa menos vazada.

Por trás do bom desempenho estava um treinador jovem (36 anos quando chegou ao clube), mas de competência comprovada: Javier Clemente, que levara o Athletic Bilbao a um bicampeonato da liga em 1983 e 1984 (neste último em dobradinha com a Copa do Rei) jogando um futebol duro, aguerrido, forte defensivamente e veloz no ataque. Demitido do comando dos bilbaínos em janeiro de 1986 por desentendimentos com a diretoria após relegar o ídolo Manuel Sarabia ao banco de reservas, acabaria tomando o rumo da Catalunha no meio do ano, curiosamente substituindo outro basco, Xabier Azkargorta, que em três temporadas não conseguira levar o clube além do meio de tabela.

Para a campanha seguinte, com o objetivo de formar um elenco forte e equilibrado para a competição europeia, o clube manteve os principais jogadores e trouxe três reforços importantes. O mais experiente era o lateral-direito Santiago Urkiaga (Athletic Bilbao), velho conhecido de Clemente no antigo clube e homem de seleção espanhola, com participações na Copa do Mundo de 1982 e na Eurocopa de 1984 (nesta, como titular em parte da campanha).

Também vindo do futebol basco, o volante José Javier Zubillaga fora lançado no time de cima da Real Sociedad na temporada 1981/82, quando os txuri-urdín conquistaram o bicampeonato da liga, mas nunca chegou a se firmar como titular, embora fosse peça importante do elenco. A terceira cara nova era a do jovem atacante Sebastián Losada, 20 anos completados no início da temporada. Produto da cantera madridista, vinha emprestado pelo Castilla com status de promessa da base espanhola – havia sido um dos destaques da seleção vice-campeã mundial de juniores em 1985 (derrotada pelo Brasil na decisão).

O elenco

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Treinador de temperamento forte e irrequieto, Javier Clemente também não se prendia a um esquema ou time titular. Ao longo da campanha europeia utilizou 18 jogadores, raramente repetindo escalações e variando as opções conforme os adversários e as situações de jogo. Assim, em vez de apontar uma equipe base, preferimos destrinchar aqui o elenco que entrou em campo naquela trajetória e que reunia atletas das mais variadas procedências dentro do futebol espanhol (e até de fora dele).

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O time começava por um goleiro que era indiscutivelmente o nome mais conhecido internacionalmente daquele elenco: o camaronês Thomas N’Kono, que chegara ao clube logo depois de se destacar com a seleção de seu país no Mundial de 1982. Experiente, sóbrio e seguro, convertera-se rapidamente em titular e ídolo. Naquela temporada seu reserva foi o basco Carlos Meléndez, trazido do Athletic Bilbao onde ocupava a suplência de Zubizarreta. Atuou em duas partidas.

Na lateral direita, o já citado Urkiaga começou a campanha como titular, até ser reinventado por Clemente no meio da temporada como uma espécie de zagueiro adicional ou volante, pelo lado esquerdo, responsável pela marcação individual de algum talento do adversário – nas semifinais contra o Club Brugge se encarregou de anular Marc Degryse, enquanto na decisão teve a missão de colar em Tita. Seu posto no lado da defesa foi assumido por Job, antigo titular e jogador forte no apoio.

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Pelo lado esquerdo, o titular absoluto e um dos destaques daquela campanha foi Miquel Soler, 22 anos no início da temporada. Dono da posição desde a chegada de Javier Clemente, era bom marcador, mas tinha no apoio sua melhor característica: inteligente, de bom fôlego e boa técnica, costumava ajudar na criação pelo meio ou descer veloz pela ponta. Chegaria à seleção e seria convocado para a Eurocopa de 1988, antes de ser contratado pelo Barcelona a pedido de Cruyff. No entanto, não impressionaria no Camp Nou e ao longo de sua carreira nunca chegaria a confirmar completamente o que prometia, embora passasse por clubes de peso (jogaria ainda no Real e no Atlético de Madrid, no Sevilla, no Zaragoza e no Mallorca) e mostrasse lampejos de bom futebol em alguns deles.

O miolo de zaga era frequentemente modificado, inclusive do ponto de vista tático, atuando ora com dois zagueiros, ora com um líbero atrás da dupla de centrais. O nome mais frequente no setor ao longo da campanha foi o do stopper Josep María Gallart, formado no clube, jogador duro, eficiente e também bom marcador individual (foi o encarregado de tomar conta de Gullit nos confrontos com o Milan). Até as quartas de final, teve ao seu lado Francis, zagueiro nascido nas Ilhas Canárias e cria da base do Real Madrid. Sem chances na capital, aportou na Catalunha na mesma época de Javier Clemente, acumulando um bom número de partidas como titular.

O posto de líbero (ou ao menos de zagueiro da sobra) era comumente ocupado por Miguel Ángel, nascido na região de Sevilha, mas um dos mais antigos do elenco perico – chegara em 1981, vindo do Jerez. Além das qualidades de proteção defensiva, tinha também um bom chute de longa distância, que costumava surpreender goleiros. Versátil e de boa técnica, Joan Golobart também foi utilizado na posição. Podia atuar ainda como meia, pela qualidade na saída de bola. Era também um bom cabeceador. Após passar pelo Hospitalet e pelo Sabadell, chegou ao clube em 1985 e rapidamente se identificou, a ponto de encerrar a carreira precocemente, aos 29 anos, quando do fim de seu contrato, por preferir não vestir outra camisa.

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O também já citado Zubillaga era presença quase fixa no meio-campo. Ironicamente, só não foi titular nos dois jogos decisivos (entrou no segundo). Volante de contenção de perfil batalhador, raramente passava do meio-campo, embora tenha chegado a marcar alguns gols em sua passagem pelo clube. Zagueiro duro e ríspido surpreendentemente convertido em meio-campista apoiador, Iñaki foi, a exemplo de Urkiaga, outro jogador reinventado pelas mãos de Javier Clemente. Entrou e saiu da equipe ao longo da campanha, mas somou um número suficiente de partidas para ser considerado titular.

Titular durante praticamente toda a campanha (saiu do banco de reservas apenas nas duas primeiras partidas), Diego Orejuela era o capitão do time e um dos pilares do meio-campo. Embora se notabilizasse mais pela raça, força física e liderança do que pela técnica, apresentava-se bem na distribuição de jogo. Cria do clube, apesar de sevilhano de origem, acumulou empréstimos antes de se firmar a partir de 1982, ficando nove temporadas como titular nos Pericos. Manuel Zúñiga, por sua vez, tinha lugar cativo no setor até as oitavas de final, mas perdeu espaço a partir da fase seguinte, passando a entrar esporadicamente. Era, no entanto, peça importante por sua característica de meia “todo terreno”, misturando combatividade e qualidade técnica. Também ostentou a braçadeira em algumas ocasiões.

Outro “reserva de luxo”, tanto pela história dentro do clube quanto pela enorme qualidade técnica, era o meia dinamarquês John Lauridsen. Um dos veteranos do elenco (chegara ao clube em dezembro de 1981), tinha a experiência de ter disputado a Eurocopa de 1984 pela seleção de seu país. Naquela campanha dos Pericos, no entanto, diante da preferência do treinador por um meio-campo mais “físico”, era mais utilizado entrando durante as partidas, fosse para cadenciar o jogo ou para fortalecer a criatividade do setor.

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Na frente, Javier Clemente costumava variar entre um esquema com dois ou três atacantes. Neste último caso, a equipe atuava com dois pontas abertos e um homem de área. Pelo flanco direito, o dono da posição era Ernesto Valverde, rápido e driblador, além de preciso nos cruzamentos. Chegara ao clube junto com Javier Clemente, que o observara no pequeno Sestao. Esteve no clube apenas nestas duas temporadas, sendo negociado a peso de ouro com o Barcelona, juntamente com Soler. Assim como o lateral, também não deu certo no rival e logo sairia para o Athletic Bilbao, onde recuperaria seu futebol.

Pelo outro lado, atuando abertos pelo lado esquerdo ou então na função de segundo atacante sem posição fixa, jogavam o já citado Sebastián Losada, talento promissor, ou Michel Pineda. Nascido na França de pais espanhóis, Pineda começou a carreira no Auxerre, mas aos 20 anos foi levado para o Espanyol. Destacou-se e acabou convocado para a seleção sub-20 da Espanha. Capaz de atuar também como centroavante, teve carreira curiosa, transitando entre seu país natal e o adotivo (depois dos Pericos, defenderia o Toulon por três temporadas, antes de passar pelo Racing Santander, Lleida e Alavés).

Homem de referência no ataque, o experiente “Pichi” Alonso foi o jogador de frente que mais vezes atuou. Jogador revelado pelo Castellón, fez carreira de artilheiro no Zaragoza (pelo qual marcou 92 gols em 160 partidas pela liga), antes de seguir para o Barcelona em 1982. Quatro anos depois, após a derrota azulgrana na final da Copa dos Campeões para o Steaua Bucareste, transferiu-se para o vizinho Espanyol, terminando como goleador dos Pericos na temporada 1986-87, com 17 tentos. Embora balançasse as redes com menor voracidade na campanha europeia, marcou um gol crucial nas semifinais contra o Club Brugge, no último minuto da prorrogação, levando a equipe à decisão. Além disso, sua catimba e presença de área eram ameaças constantes às defesas adversárias.

O “Euroespanyol”

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A estreia da nova campanha europeia viria no dia 16 de setembro de 1987, fora de casa, diante do perigoso Borussia Mönchengladbach, terceiro colocado na Bundesliga e semifinalista da própria Copa da Uefa na temporada anterior. Uma equipe coesa, que tinha como principal nome o atacante Uwe Rahn, goleador da liga e reserva da seleção. Na primeira partida, no Estádio Bokelberg, os Pericos não se intimidaram e venceram por 1 a 0, gol de Pined na etapa inicial. Na volta, no Sarriá, uma vitória tranquila confirmou a vaga e mostrou as credenciais da equipe de Javier Clemente: Valverde abriu o placar aos 30 minutos e Iñaki marcou o segundo pouco antes do intervalo. Na etapa final, antes dos dez minutos, Golobart e Pineda já haviam ampliado o placar para 4 a 0, descontado com um gol de Rahn para os Potros aos 15 minutos.

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Logo de início, porém, ficou claro que o clube sacrificaria a campanha na liga, apostando as fichas na competição europeia. Se na temporada anterior o bom desempenho no Sarriá praticamente assegurou um tranquilo terceiro posto, agora o começo foi bem ruim: em seus oito primeiros jogos em casa, o time perdeu nada menos que cinco, vencendo os outros três (curiosamente, um deles contra o rival Barcelona, batido por 2 a 0 na terceira rodada). A briga durante toda a temporada seria na parte de baixo da tabela, com os Pericos nunca ultrapassando o 11º lugar.

Seria mesmo preciso muito foco para derrubar o adversário seguinte: nada menos que o Milan treinado por Arrigo Sacchi, que ostentava seus dois astros holandeses recém-contratados, Ruud Gullit e Marco Van Basten, além de nomes como Baresi, Ancelotti, Virdis, Giovanni Galli e os jovens Maldini e Donadoni. Mesmo obrigados a fazerem sua partida como mandante em Lecce, por uma punição da Uefa, os rossoneri eram favoritos destacados para o confronto. Mas o futebol aguerrido dos Pericos seria um grande obstáculo.

O primeiro gol saiu aos 41 minutos: após uma cobrança de escanteio do Espanyol, o Milan tentou sair rápido em contragolpe, mas Gallart interceptou, e a bola sobrou para Pichi Alonso em posição irregular. O centroavante fez a parede e recuou o passe para Zubillaga, que invadiu a área e bateu cruzado por baixo de Giovanni Galli. A estocada decisiva veio logo aos quatro minutos da etapa final, quando Bianchi saiu jogando errado pela lateral esquerda e perdeu a bola para Zúñiga, que desceu pela ponta e cruzou para trás. Pichi Alonso recebeu, limpou Maldini e chutou para marcar o segundo gol.

Carrasco dos milaneses

milan - espanyol 1987 - mundo deportivo

Um empate sem gols no Sarriá, com Gallart novamente anulando Gullit, levou o Espanyol à fase seguinte, com o grande feito de sua defesa ter passado em branco nas duas partidas. Curiosamente, o próximo adversário também vinha de Milão. Apesar de menos incensada do que aquele Milan passaria a ser futuramente, a Inter de Giovanni Trappatoni era um rival duro de ser enfrentado e também tinha muita qualidade: Zenga no gol, Bergomi, Ferri e o argentino Passarella na defesa, Giuseppe Baresi e o belga Scifo no meio, o ponta Fanna e a dupla de goleadores Serena e Altobelli na frente.

Em 25 de novembro, sob um frio de zero grau em Milão, a Inter saiu na frente no primeiro tempo quando Fanna desceu pela ponta esquerda e cruzou. A bola foi mal cortada pela defesa espanhola e sobrou perfeita para o tiro cruzado de Serena. Após alguns milagres de N’Kono, a resposta dos Pericos veio aos 34 minutos da etapa final, quando Job desceu pela ponta direita, cruzou, a bola desviou em Ferri e foi certeira na cabeça de Lauridsen (que entrara em campo dez minutos antes), encobrindo Zenga, bem no ângulo.

E seria com outro gol de cabeça no ângulo que a classificação viria para o Espanyol no jogo de volta, no Sarriá, em 9 de dezembro. Da cabeça de Orejuela, após falta levantada na área da direita por Urkiaga logo aos 23 minutos, no único gol do jogo. Depois de igualar sua melhor campanha na liga espanhola na temporada anterior, o time catalão já chegava novamente às quartas de final, alcançando seu maior feito até então nas copas europeias.

O adversário das quartas, disputadas já em março de 1988, não assustava tanto. O Vitkovice, da Tchecoslováquia, foi o adversário menos tarimbado do Espanyol naquela campanha. Bancado pelas indústrias de aço e ferro de Ostrava, havia se sagrado campeão tcheco de maneira surpreendente em 1986 e chegara a eliminar o Paris Saint Germain e bater o futuro campeão Porto no jogo de ida das oitavas da Copa dos Campeões. E na atual edição da Copa da Uefa, derrubara o vice-campeão do ano anterior, o escocês Dundee United. Mas contava apenas com um jogador mais conhecido, o líbero Miroslav Kadlec, que disputaria a Copa de 1990 pela seleção de seu país e seria uma das referências no vice tcheco da Euro 1996.

Assim, o time de Javier Clemente não teve trabalho para derrubar o adversário: no Sarriá, vitória por 2 a 0, com um gol em cada tempo. Lauridsen abriu o marcador em cobrança de falta, e Pineda, aproveitando grande jogada de Soler pelo lado esquerdo, fechou o placar. Na volta, um empate sem gols no gramado enlameado do estádio do Banik Ostrava assegurou a classificação. Enquanto isso, na mesma fase da competição, o poderoso vizinho Barcelona caía em pleno Camp Nou, derrotado por 1 a 0 pelo Bayer Leverkusen. Era bom ficar de olho nos alemães.

A dramática batalha das semifinais

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Se a vida havia sido tranquila para os Pericos nas quartas, na fase seguinte uma nova pedreira os aguardava. O Club Brugge chegava às semifinais vindo de classificações espetaculares. Nas três primeiras fases, havia revertido derrotas como visitante com goleadas em casa, no Estádio Olímpico de Bruges: 5 a 0 no Zenit, 4 a 0 no Estrela Vermelha e 5 a 0 no Borussia Dortmund. Nas quartas, despachara outro candidato a sensação, o Panathinaikos, algoz da Juventus.

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Os Blauw-Zwart contavam com vários experientes jogadores da seleção belga, como o meia-atacante Jan Ceulemans, o zagueiro Hugo Broos e a dupla Franky e Leo Van Der Elst, todos integrantes da equipe dos Diabos Vermelhos que chegara em quarto lugar na Copa do Mundo do México, dois anos antes. Além deles, havia ainda o jovem talento Marc Degryse, e estrangeiros como o atacante dinamarquês Kenneth Brylle (companheiro de Lauridsen na Eurocopa de 1984), o centroavante israelense Ronny Rosenthal (que depois jogaria no Liverpool) e o zagueiro senegalês Mamadou Tew.

No jogo de ida, os Pericos sentiriam a pressão da inflamada torcida local que lotou o estádio. Em um contragolpe, o Brugge abriu o placar pouco antes do intervalo, quando Gallart falhou em cortar um cruzamento, e a bola sobrou para Ceulemans fuzilar Meléndez, substituto de N’Kono no gol. Na etapa final, em lance semelhante, Gallart tentaria novamente se antecipar, mas desta vez desviaria contra as próprias redes. Como novamente os belgas passariam sem sofrer gols em casa, a missão do Espanyol – que perdia sua invencibilidade no torneio – estaria bastante dificultada.

Acostumado a reverter resultados nas fases anteriores, o Brugge acabaria se vendo na situação oposta no Sarriá, naquele 20 de abril. Quando Job foi à linha de fundo e centrou, Pichi Alonso ajeitou de cabeça para trás, e Orejuela, também de cabeça, abriu o placar para o Espanyol logo aos oito minutos, o estádio pegou fogo. No segundo tempo, aos 16 minutos, Orejuela abriu para Valverde na direita, e o ponteiro alçou na segunda trave para a cabeçada de Losada, marcando o segundo gol e encaminhando a decisão da vaga para a prorrogação.

No tenso tempo extra, quando a disputa dos pênaltis já era esperada, o gol heroico da classificação veio no último lance: Zúñiga recebeu de Lauridsen e carregou pelo campo de ataque até entregar a Soler no flanco esquerdo. O ala cruzou rasteiro, e o arqueiro Vande Walle foi para a bola, mas não conseguiu encaixá-la. A sobra caiu nos pés de Pichi Alonso, oportunista, para tocar para as redes e enlouquecer a torcida. Até mesmo N’Kono correu o campo inteiro para abraçar o autor do tento que colocava os Pericos na primeira decisão europeia de sua história.

Perto do paraíso

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A trajetória do Espanyol naquela Copa da Uefa atraiu a atenção e a simpatia do país inteiro, que passou a torcer pelo sucesso do clube, especialmente depois que o Real Madrid caiu nas semifinais da Copa dos Campeões no gol fora de casa contra o PSV, e os Pericos viraram a última esperança de sucesso nacional nos torneios continentais. O apoio veio de todos os cantos: a charanga do Osasuna, uma das mais famosas do país, confirmou presença no Sarriá no jogo de ida da final. O folclórico Manolo do bumbo, torcedor do Zaragoza e o mais simbólico chefe de torcida da seleção espanhola, também garantiu que iria ao jogo.

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O adversário na decisão, o alemão-ocidental Bayer Leverkusen, também escrevia seu primeiro momento histórico no cenário europeu naquela temporada. Fundado em 1904 pelos funcionários da Bayer, indústria farmacêutica que o empresta o nome, o clube perambulou pelas divisões inferiores por boa parte de sua história, até finalmente ascender à elite da Bundesliga em 1979. Após algumas temporadas no meio da tabela e até brigas contra o rebaixamento (em 1982 o clube chegou a disputar o playoff da degola contra o Kickers Offenbach), a mudança de patamar viria com a chegada do técnico Erich Ribbeck em 1985.

Dois sextos lugares nas duas primeiras temporadas do novo treinador valeram classificações para a Copa da Uefa. Na primeira temporada, o time das aspirinas caiu logo na segunda fase diante do Dukla Praga. A partir de 1986, receberia bons reforços que se juntariam a nomes estabelecidos há várias temporadas no clube, como o goleiro Rudiger Vollborn, o atacante Herbert Waas e o ponta sul-coreano Cha Bum-Kun (ex-Eintracht Frankfurt).

Naquele ano, o clube traria do Hamburgo o líbero Wolfgang Rolff, que defendera a seleção alemã ocidental na Copa do Mundo do México. E na temporada seguinte, dois bons e experientes reforços estrangeiros chegariam: o meia polonês Andrzej Buncol (que disputara os dois Mundiais anteriores por sua seleção) e o meia-atacante brasileiro Tita (ex-Flamengo, Vasco, Grêmio e Internacional, e também com passagem pela Seleção). Com eles, e mesmo tendo de mandar alguns jogos na vizinha Colônia, o time superaria Austria Viena, Toulouse, Feyenoord, Barcelona e Werder Bremen no caminho até a final daquela Copa da Uefa.

O primeiro jogo da decisão, no Sarriá, começou com o Espanyol querendo partir logo para definir o resultado, mas os rodados jogadores do Leverkusen trataram de esfriar o ímpeto dos donos da casa por quase toda a primeira etapa. Quando a angústia da torcida perica já era grande, logo depois de os donos da casa terem um gol de Orejuela anulado por impedimento, veio enfim a abertura da contagem aos 44 minutos da primeira etapa: Soler recebeu passe na meia esquerda, passou pelo defensor e arrancou rumo à linha de fundo. O cruzamento veio preciso para a testada de Losada.

A vantagem obtida pouco antes do intervalo deu moral ao Espanyol, que partiu para o abafa na volta para o segundo tempo. O segundo gol veio rápido, logo aos quatro minutos: após o cruzamento de Orejuela, e a confusão na área, Soler acertou um petardo de pé direito quase da marca do pênalti que venceu Vollborn novamente. A pressão contínua resultou no terceiro gol aos 11 minutos: Hinterberger dominou mal uma bola recuada e perdeu para Valverde, que cruzou da linha de fundo para um peixinho de Losada, na primeira trave. E a grande vantagem para o segundo jogo poderia ter sido ainda maior nos minutos finais, quando, após uma bonita trama de contra-ataque, a cabeçada de Golobart acertou a trave. De qualquer forma, o triunfo por 3 a 0 era excelente.

Da euforia à desolação

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Com uma das mãos na taça, o time viajou para Leverkusen confiante na conquista. E resistiu muito bem à pressão do adversário no Ulrich Haberland Stadion por todo o primeiro tempo. O empate sem gols persistiu até os 12 minutos da etapa final, quando Tita se aproveitou da indecisão entre Miguel Ángel e N’Kono para se intrometer na jogada e tocar para as redes. O brasileiro foi buscar a bola no gol e correu com ela até o centro do campo. Foi quando o Espanyol começou a desmoronar.

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Cinco minutos depois, Tita deixaria o campo substituído por Tauber. Mas seria seu substituto o criador da jogada do segundo gol logo em seu primeiro toque na bola, ao descer pela ponta esquerda e cruzar para a cabeçada de Falko Götz. Foi a senha para a pressão constante do time da casa. Perdendo o meio-campo, Javier Clemente queimou suas duas alterações no setor, descartando a chance de colocar Valverde e Pineda, duas opções mais ofensivas para frear o ímpeto do adversário.

A nove minutos do fim, o árbitro Jan Keizer apontou uma falta sobre o coreano Cha Bum-Kun pela ponta direita do ataque alemão. A bola é alçada na área, e o próprio Cha cabeceou no canto para marcar o terceiro do Leverkusen, igualando a série. Ia embora definitivamente a grande vantagem construída pelos Pericos no Sarriá. Apesar do abalo moral e da lesão de Miguel Ángel que deixou a equipe com dez, o Espanyol conseguiu suportar a prorrogação sem sofrer mais gols. Até que vieram os pênaltis, com a sorte parecendo novamente sorrir aos blanquiazules.

O experiente Pichi Alonso abriu a série convertendo para o Espanyol. Quando N’Kono defendeu a cobrança de Falkenmayer, e Job acertou o segundo para os Pericos, a euforia despertou novamente entre seus torcedores. O que se viu a seguir, porém, foi trágico: Rolff descontou para os alemães. Urkiaga bateu no canto oposto de Vollborn, mas a bola acertou o travessão e quicou fora. Waas empatou a série em dois gols. Zúñiga bateu mal, no meio do gol, e parou em Vollborn, que nem precisou saltar. Tauber bateu rasteiro, queimando a grama, e colocou o Leverkusen na frente. O jovem Losada, o quinto cobrador do Espanyol, viu-se então na obrigação de converter para manter a disputa, mas bateu mal, por cima do gol, e uma dor imensa tomou conta dos jogadores, comissão técnica e torcida. A taça não fez o voo de volta rumo a Barcelona.

Sem o título da Copa da Uefa e com a má colocação na liga, não haveria campanha europeia na temporada seguinte. O elenco acabou esfacelado. Valverde e Soler saíram para o Barcelona (o primeiro pelo valor recorde de transferências entre clubes espanhóis até então). Job e Miguel Ángel foram negociados com o Bétis. Losada retornou ao Real Madrid, Zúñiga foi jogar no Sevilla e Lauridsen deixou o clube depois de quase uma década, seguindo para o Málaga. Javier Clemente continuou no comando, mas sem reforços à altura para suprir a debandada. Na 23ª rodada, quando o treinador acabou demitido, a equipe havia vencido apenas duas partidas.

A campanha assustadoramente ruim levou à contratação de reforços durante a campanha, como o atacante inglês Adrian Heath, bicampeão nacional com o Everton, e o meia soviético Vasili Rats, que chegou já na reta final. Mas não houve como evitar que o clube fosse condenado a jogar os playoffs de acesso e descenso contra o Mallorca. Os Pericos venceram a partida de ida, no Sarriá, por 1 a 0, gol de Golobart. Mas na volta, um gol de Miguel Ángel Nadal para os bermellones levou a decisão para a prorrogação. No tempo extra, Gabriel Vidal marcou logo no terceiro minuto e decretou a queda dos catalães.

O clube voltaria à elite já na temporada seguinte. Depois, disputaria apenas mais uma na segunda divisão em 1993/94. E nas demais se acomodaria no meio de tabela na elite, saltando acima de campanhas medianas apenas esporadicamente, como no quarto lugar obtido em 1995/96. Em 2007, porém, a equipe dirigida justamente por Ernesto Valverde voltaria a fazer bonito na Europa na mesma Copa da Uefa, superando camisas tradicionais como Ajax, Benfica e Werder Bremen. Mas perderia uma final caseira contra o Sevilla em Glasgow. Por uma triste coincidência para seus torcedores, novamente nos pênaltis.

Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publicará na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.