Difícil imaginar um jogo menos relevante para o Fortaleza do que o daquela tarde de domingo. No dia anterior, o time principal havia vencido fora de casa o Paysandu em um confronto direto na disputa pela liderança do Grupo A na Série C. Na tarde seguinte, uma formação que misturava a equipe reserva com jogadores da base enfrentou o Verona, clube italiano que fazia uma excursão das mais exóticas no Ceará. Mas não diga isso aos cerca de 250 tricolores que pagaram R$ 30 para ver ao amistoso no estádio do Pici.

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O clube italiano estava com seu time reserva, mas ainda era mais estruturado e experiente que o remendado adversário brasileiro. Apesar de alguns cochilos, o Verona dominava a partida e comandou o marcador quase todo o tempo. E isso irritava uma espécie fundamental da biodiversidade futebolística brasileira, uma espécie que luta contra a extinção nessa era de arenas multiuso: o alambradino.

Bem, você nunca deve ter ouvido falar no alambradino, até porque eu acabei de inventar esse termo. Mas é o equivalente do alambrado ao geraldino da geral e ao arquibaldo da arquibancada do Maracanã, ou à Turma do Amendoim das numeradas do Palestra Itália. O alambradino habita estádios acanhados, a maioria no interior (mas há alguns em capitais, como nos que estavam no Pici). Seu habitat são os corredores diante das arquibancadas, onde eles podem se agarrar à grade, como se quisessem se fundir com ela para ficar mais perto do campo. A visão do jogo é ruim dali, mas não importa. Ele quer sentir o jogo de perto, ouvir os gritos dos jogadores, gritar no ouvido do técnico e xingar a mãe do bandeirinha.

Fortaleza e Verona se enfrentam no estádio Alcides Santos (Ubiratan Leal/Trivela)

Fortaleza e Verona se enfrentam no estádio Alcides Santos (Ubiratan Leal/Trivela)

Os alambradinos do Tricolor de Aço não se contentavam com aquela derrota para um time italiano. A partida não valia nada, mas um troféu seria entregue no final e aquilo parecia suficiente. O atacante Patric era o alvo preferido das cornetas. Lento, não conseguia vencer a marcação veronista. Um alambradino, quando viu que Marcelinho Paraíba estava no estádio acompanhando o amistoso, imediatamente pediu para ele entrar em campo para ajudar o ataque. Claro, os arquibaldos daquela tarde riam. Os poucos torcedores com a camisa do Verona também, e não havia problema nenhum naquilo.

Difícil uma tarde de futebol mais agradável que aquela. O estádio Alcides Santos, nome oficial do Pici, é dos mais simpáticos. Recebeu uma reforma recente para abrigar os jogos do Fortaleza durante as obras do Castelão e do Presidente Vargas. Não há aquela pretensão de estádio que inclui um “arena” no nome ou “ão” no apelido. É um daqueles campos em que você realmente se sente em casa, pode passear de um lado por outro e reconhecer cada um dos companheiros que estão por ali.

Torcedores do Fortaleza no estádio do Pici (Ubiratan Leal/Trivela)

Torcedores do Fortaleza no estádio do Pici (Ubiratan Leal/Trivela)

Infelizmente, a tendência é que o Pici seja cada vez menos utilizado. A capacidade leva o Fortaleza a mandar seus jogos no Castelão ou no Presidente Vargas. O Alcides Santos, com apenas 7 mil lugares, fica para casos excepcionais, como no 0 a 0 contra o CRB há duas semanas (Castelão e PV já entregues à Fifa) e nesse amistoso alternativo contra o Verona.

Mas a casa do Fortaleza ainda vive. Ela vive na alma dos alambradinos, que sempre preferirão o abraço da grade de metal do que o apoio da cadeira acolchoada de uma arena multiuso.

O estádio Alcides Santos merece sua visita. Para conhecer este e outros pontos importantes do futebol fortalezense, confira o Guia Futebol na Veia, resultado da parceria entre a Trivela e o Impedimento.