A grandeza do Real Madrid se construiu, sobretudo, nos anos 1950, quando os merengues enfileiraram taças e montaram aquele que costuma ser considerado o melhor time do mundo no Século XX. Uma época de craques inesquecíveis e histórias até hoje recontadas no dia a dia. No entanto, um passo fundamental ao gigantismo dos madridistas havia sido dado na década anterior. Em 1944, o clube iniciou a construção de seu novo estádio, que prometia ser um dos maiores do planeta. Poucos mais de três anos depois, em 14 de dezembro de 1947, o Real inaugurava o Nuevo Chamartín – rebatizado em 1955 para homenagear Santiago Bernabéu, então presidente da agremiação e principal responsável por levar o sonho adiante. Setenta anos depois, o estádio permanece como elo entre as lendas do passado e o horizonte grandioso que os blancos ambicionam sempre.

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Fundado em 1902, o Real Madrid atuou em diferentes campos da capital espanhola durante seus primeiros anos de existência. A primeira casa oficial foi inaugurada em 1912: o célebre Estádio de O’Donnell, com capacidade para sete mil espectadores, localizado próximo ao centro de Madri. Os merengues jogaram naquele terreno, onde hoje se encontram prédios, até 1923. Naquele ano, o clube adquiriu alguns terrenos em Chamartín de La Rosa. Remontou as arquibancadas do antigo Estádio de O’Donnell no novo local e fincou sua bandeira ali.

O Estádio de Chamartín atravessou sérios percalços. Durante a Guerra Civil Espanhola, chegou a ser usado como base por republicanos e por franquistas em diferentes fases do conflito. Esteve bem no meio do fogo cruzado, sofreu muitas avarias e suas arquibancadas foram destruídas por aqueles que buscavam madeira para lenha na capital sitiada. Em 1939, ao término das batalhas, a praça esportiva passou por uma ampla reforma e foi reinaugurada em outubro, com um dérbi madrileno. Mas, consequentemente, o impacto da crise econômica era pesado sobre o Real Madrid. Ex-jogador e treinador do clube, Santiago Bernabéu seria o responsável por tomar as rédeas neste momento.

O velho Chamartín, porém, parecia pequeno aos sonhos do Real Madrid. Era menor do que o Metropolitano, casa do Atlético de Madrid – então chamado de Atlético Aviación. E enquanto os colchoneros desfrutavam suas glórias no início da década de 1940, até pelo apoio que tinham do franquismo, os merengues buscaram virar uma página importante de sua história a partir do chão. A reconstrução do estádio seria o caminho escolhido para iniciar a nova era.

As obras do Nuevo Chamartín são motivo de controvérsia. Os documentos oficiais afirmam que a construção foi possibilitada por um empréstimo bancário concedido a Santiago Bernabéu. O presidente conseguiu levantar o dinheiro posteriormente com a venda de ações do clube aos torcedores, mobilizando a classe média local, ainda que o momento econômico fosse de recessão extrema. No entanto, conforme o livro ‘The Ball is Round’, de David Goldblatt, “diz-se que o concreto das arquibancadas foi doado pelo governo” – enquanto, por outro lado, o autor também afirma que “as condições econômicas eram desesperadoras, com boa parte do país desnutrido, não havendo nenhuma chance de investimento por parte do governo”.

Fato é que o Real Madrid, com o dinheiro angariado por Bernabéu, conseguiu adquirir os terrenos ao redor do velho Chamartín. Em outubro de 1944, as obras começaram. Já em 14 de dezembro de 1947, depois de várias dificuldades, a construção suntuosa para 75 mil torcedores estava pronta a ser inaugurada. Para o primeiro jogo, o Real Madrid convidou o Belenenses, campeão português do ano anterior. Os merengues venceram por 3 a 1 e também marcaram o primeiro gol de Chamartín. O autor foi o atacante Sabino Barinaga, de trajetória peculiar: nascido no País Basco, ele era um dos jovens refugiados enviados à Inglaterra durante a Guerra Civil. Começou sua trajetória no segundo quadro do Southampton, antes de voltar à Espanha e ser contratado pelos madridistas.

Com o novo estádio, não apenas o Real Madrid ganhou nova dimensão, como também a área ao redor do Chamartín se valorizou. E as obras continuaram nas décadas seguintes. Em 1954, o clube inaugurou um novo setor das arquibancadas, que aumentava a capacidade para 125 mil torcedores. Foi esta a multidão que assistiu ao esquadrão estrelado por Alfredo Di Stéfano conquistar o bicampeonato da Champions em 1957, derrotando a Fiorentina na decisão realizada em Madri. Menos de duas semanas antes, os merengues haviam estreado os refletores do estádio, em amistoso contra os pernambucanos do Sport.

Dentro do Bernabéu, o Real Madrid ergueu sua imagem imponente em toda a Europa. Atravessou diversas glórias durante as décadas de 1950 e 1960. No entanto, o alto custo de manutenção do estádio fez o clube cogitar a procura por um novo lar em 1973. Ideia que logo acabou dissolvida, até porque o Bernabéu passaria por sua primeira reforma massiva pouco depois. Era necessário preparar o estádio à Copa do Mundo de 1982, realizada na Espanha. Instalou-se a cobertura, realizaram-se mudanças nas arquibancadas que diminuíram a capacidade para 90 mil e também se remodelou a fachada. Naquele gramado, a Itália faturou o tricampeonato mundial.

Depois disso, o Santiago Bernabéu passaria por outras reformas e melhorias, sobretudo nos anos 1990. Acompanhou diferentes épocas vitoriosas do Real Madrid. Embora seja um dos estádios mais clássicos da Europa, e de grandiosidade que remete a outras concepções arquitetônicas, não parou no tempo e continua como um dos mais modernos e bem avaliados do continente. Não à toa, recebeu finais da Champions em quatro décadas diferentes, a última delas em 2010, quando a Internazionale derrotou o Bayern de Munique.

E a direção do Santiago Bernabéu ao futuro continuará. A próxima grande remodelação foi aprovada em 2014 e está em processo, a maior desde a construção do estádio. A história está toda ali, preservada, mesmo depois de 70 anos. Enquanto isso, o Real Madrid projeta a manutenção de sua força levando em conta também o que representa a sua casa. A grandeza do clube talvez não tivesse todas essas proporções sem o Chamartín.