O Egito vive uma expectativa imensa neste domingo. Os Faraós só dependem de si para confirmar o retorno à Copa do Mundo após 28 anos de ausência. Uma vitória contra o eliminado Congo-Brazzaville em Alexandria já basta para o feito, embora mesmo em caso de derrota os egípcios continuam com a vaga em suas mãos, então precisando bater Gana durante a visita aos Estrelas Negras na última rodada. Sedentos pelo Mundial depois de tantas frustrações, porém, os torcedores não querem nem pensar nisso. Para eles, hoje é o dia de fazer história.

Nas últimas seis tentativas de se classificar à Copa, o Egito experimentou decepções enormes. A maior delas, sem dúvidas, aconteceu em 2010. Os Faraós terminaram empatados com a rival Argélia em rigorosamente todos os critérios na disputa pela liderança do grupo, que dava a vaga direta à Copa. Foram obrigados a disputar um tenso jogo extra no Sudão, com vitória das Raposas do Deserto por 1 a 0. Frustraram a geração que, um ano depois, emendaria seu terceiro título consecutivo na Copa Africana de Nações.

No entanto, diante da possível glória neste domingo, vale lembrar também a última vez que os egípcios comemoraram a vaga no Mundial, justamente em cima argelinos. Ao longo da década de 1980, Egito e Argélia viveram um dos momentos mais aflorados da histórica rivalidade – cuja explicação, aliás, não se limita ao futebol. Os Faraós conquistaram a Copa Africana de Nações em 1986, enquanto as Raposas do Deserto se classificaram a duas edições consecutivas da Copa do Mundo, em 1982 e 1986. Além disso, na disputa do Pré-Olímpico de 1984, uma briga campal entre as duas equipes aumentou o ranço.

Rumo ao Mundial de 1990, ambas as seleções lideraram os seus grupos na fase de classificação das Eliminatórias. E se enfrentaram na fase decisiva, em confronto direto valendo uma das vagas na Itália. Durante o primeiro encontro, em Constantine, o empate por 0 a 0 prevaleceu. Já a partida de volta aconteceria no Cairo, com o Estádio El Qahira El Dawly abarrotado por 100 mil pessoas – embora os números extraoficiais afirmem que a quantidade de torcedores superou os 120 mil. A expectativa era tamanha que quatro horas antes do jogo as arquibancadas já estavam lotadas.

O gol da classificação do Egito aconteceu logo aos quatro minutos do primeiro tempo. Esteve longe de ser bonito, com um bate e rebate na área até que Hossam Hassan desviasse de cabeça. A beleza daquele tento, entretanto, está no êxtase da multidão ao comemorar. Na explosão do artilheiro, então com 24 anos, ainda se moldando como um ídolo histórico dos Faraós. Hassan defenderia a equipe nacional até 2006, acumulando 69 gols e 178 jogos – este, um recorde mundial que só seria batido pelo compatriota Ahmed Hassan. Naquele triunfo por 1 a 0, ele foi o herói que recolocou os egípcios na Copa após um hiato de 56 anos.

No entanto, o confronto histórico no Cairo acabaria entrando para os livros sob a nada honrosa alcunha de ‘Jogo do Ódio’, por conta dos eventos que aconteceram após o apito final. Os argelinos partiram para cima do árbitro tunisiano Ali Bin Nasser (o mesmo de Argentina x Inglaterra na Copa de 1986), reclamando de uma falta sobre o seu goleiro durante o gol do Egito. De tão revoltados, atiraram enormes vasos de planta contra a torcida, enquanto um torcedor agrediu um jogador da Argélia dentro do campo. A briga tomou conta das arquibancadas e se estendeu também ao túnel.

Já em uma recepção depois da partida, os ânimos voltaram a se exaltar, com mais confusão e agressões. O médico do Egito acabou cego de um olho, atingido por uma garrafa estilhaçada. Apontado como responsável pelo ato bárbaro, o meia Lakhdar Belloumi foi condenado pela justiça egípcia a cinco anos de prisão e, já fora do país na época do julgamento, entrou para a lista da Interpol. O perdão ao veterano só foi concedido em 2009, às vésperas do primeiro encontro pelas Eliminatórias da Copa de 2010, graças à intervenção dos governos. Belloumi, contudo, seria realmente inocente. Segundo testemunhas, o verdadeiro culpado era o goleiro reserva da Argélia.

A campanha do Egito no Mundial da Itália foi digna. Sorteado em um grupo difícil, com Inglaterra, Holanda e Irlanda, o time empatou dois jogos na fase de grupos. A derrota na última rodada para os ingleses, por 1 a 0, é que tirou as chances de classificação. E, curiosamente, a Copa Africana de Nações de 1990 acabaria conquistada pela própria Argélia – em papéis que se inverteriam 20 anos depois. Agora, enquanto as Raposas do Deserto se frustraram no grupo da morte, os Faraós estão prontos para se classificar ao Mundial de 2018.