O Maracanã pulsou. Era um coração enorme no meio da cidade vidrada na semifinal da Copa do Brasil. Sofreu durante boa parte dos 90 minutos. Mas, ao final, bateu forte para comemorar a classificação à decisão. Pulsou em vermelho e preto. Outra vez, Flamengo e Botafogo fizeram um duelo brigado. Sobraram entradas ríspidas e desentendimentos. Os erros de arbitragem afetaram os dois times. As chances de gols foram escassas – não tanto quanto na última semana, mas ainda assim poucas. No entanto, em uma noite que exigia mais vibração do que a anterior, o time de Reinaldo Rueda preponderou. Buscou mais o ataque, manteve a segurança na defesa. E contou com um lance brilhante de Orlando Berrío para vencer. O drible do colombiano é uma obra de arte e valeu a vitória por 1 a 0, assim como a vaga na final. O Fla medirá forças com o Cruzeiro para tentar levantar a taça pela quarta vez.

O Flamengo preparou o Maracanã especialmente para a noite. Sabia que a maioria no estádio poderia fazer a diferença, depois de uma partida tão parelha no Estádio Nilton Santos. Mas não era apenas o vermelho e o preto espalhados por quase todos os cantos que empurrariam o time. A grande novidade estava no retorno de Paolo Guerrero, jogando no sacrifício após retornar de lesão. Outra escolha de Rueda foi a improvisação de Pará na lateral esquerda, revigorando a marcação. Já pelo Botafogo, a aposta ficava por conta de Guilherme, o escolhido para suprir a ausência de Rodrigo Pimpão.

Logo aos dois minutos, o Botafogo deu um grande susto. Em rápido contra-ataque, Roger cruzou para Guilherme que, sozinho, cabeceou para fora. Seria uma raríssima chance dos alvinegros na partida. Os dois times seguiram cautelosos. O Flamengo tinha mais posse de bola, mas custava a encontrar brechas na defesa adversária. Guerrero claramente não tinha a sua melhor condição física, ainda que buscasse se movimentar. E foi dele a resposta rubro-negra, depois de um erro de Luis Ricardo, aos 12 minutos. O chute rasteiro do peruano parou em ótima defesa de Gatito Fernández.

O volume de jogo do Flamengo surtia pouco efeito em uma partida truncada. Os flamenguistas não tinham calma suficiente na conclusão das jogadas, sem conseguir aproximar os jogadores e insistindo demais nas bolas longas. Ao menos não sofriam na defesa. A precisão para bloquear as saídas do Botafogo era fundamental. Os apuros recentes vividos pelos rubro-negros estavam distantes de se repetir no Maracanã, especialmente pela atuação de Juan, completando 300 apresentações pelo clube. De qualquer forma, os alvinegros voltariam a se aproximar do gol pouco antes do intervalo, em arremate de Matheus Fernandes que passou perto. Do outro lado, o escorregão de Berrío e a furada de Diego poderiam dar outra sorte ao Fla.

Para o segundo tempo, o Flamengo voltou com mais atitude. Logo no primeiro lance de ataque, por pouco não abriu o placar com Willian Arão, completando cruzamento de cabeça e tirando tinta da trave. Só que a energia dos dois times se converteu em entradas duras. E em decisões contestáveis da arbitragem, com os alvinegros pedindo as expulsões de Cuéllar e Rodinei, enquanto os rubro-negros reclamavam de um pênalti não marcado por toque de mão de Marcelo.

Mantendo a presença no ataque, o Flamengo passou a encadear mais as jogadas. Trabalhava melhor os passes, principalmente pela movimentação nos lados do campo, e contava com sua qualidade técnica superior. Faltava descolar um espaço. E ele veio de maneira genial aos 25, para o gol de Diego. Rodinei enfiou a bola para Berrío, que ganhou de Victor Luis na corrida e, na linha de fundo, deu um toque de letra para completar o drible da vaca sobre o marcador. O colombiano rolou a bola para trás e encontrou Diego, um tanto quanto apagado na noite, mesmo livre para se aproximar da área. Independentemente disso, o meia teve estrela. Bateu por baixo e, com o caminho congestionado em sua frente, inclusive pelas pernas abertas de Guerrero, Gatito Fernández não conseguiu fazer a defesa. O Fla saía em vantagem, para levar o Maracanã à loucura.

maraca

Berrío saiu ovacionado logo em seguida. Entrou Vinícius Júnior, pedido pela torcida um pouco antes. A partir de então, o Flamengo passou a jogar com mais cautela. Gastava um pouco mais o tempo. E continuou criando mais. Everton, outra vez chamando a responsabilidade, era um dos nomes mais importantes para os rubro-negros. Jair Ventura tentou renovar as energias de seu time botando Leandrinho, Gilson e Vinícius Tanque em campo, mas a defesa rubro-negra mantinha a segurança e conseguia rebater as bolas. Além disso, levava perigo nos contra-ataques. Vinícius Júnior incomodava bastante com sua velocidade, mas não aproveitou as duas chances que criou. Coube ao Fla manter os nervos e esperar o tempo passar. Ao apito final, a festa se misturou com o alívio.

O sorriso no rosto do Flamengo é evidente. A situação não era simples, mas o time conseguiu se impor e superar as adversidades. Se uma derrota poderia inflamar a crise, a classificação dá a tranquilidade para a sequência do trabalho de Reinaldo Rueda. O time ainda tem um caminho a percorrer, mas pode fazer isso com os pés no chão depois da vitória. E ainda que o aproveitamento do ataque não tenha sido o melhor, apesar do esforço de Guerrero, a defesa deixou boas impressões nos rubro-negros.

O Botafogo, por sua vez, cai em suas limitações, por mais que tenha batalhado bastante sem a bola. As virtudes ofensivas do time de Jair Ventura não apareceram, com oportunidades de gol raríssimas, especialmente pelos contra-ataques que não se encaixaram. Neste sentido, Rodrigo Pimpão fez falta, e uma bola acabou sendo suficiente para o Flamengo comemorar. Restará aos alvinegros se concentrarem na Libertadores, em missão dura contra o Grêmio, também eliminado na Copa do Brasil. Os erros serão úteis para tirar as lições contra outro adversário com mais volume de jogo ofensivo.

Agora, o Flamengo volta o seu pensamento ao Cruzeiro. Será um encontro interessante pelo momento de ambos os clubes, que correspondem abaixo das expectativas no Campeonato Brasileiro, apesar dos elencos que montaram. Os rubro-negros, de qualquer maneira, sabem que terão problemas – e não só por aqueles que não poderão jogar por não estarem inscritos. A ausência de Guerrero, suspenso por um cartão amarelo discutível aplicado no primeiro tempo, será sentida. A diferença que o peruano faz no ataque, mesmo sem a melhor forma, é notável por toda a sua movimentação e o perigo que representa. Mas não é o desfalque que abaixará a cabeça do Fla. O moral se eleva depois de uma classificação tão difícil. Deu para perceber isso, em alto e bom som, diante das arquibancadas do Maracanã.

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