França e Bélgica se encontram, nesta terça, em São Petersburgo, para definirem o primeiro finalista da Copa do Mundo. Por tudo que cerca o jogo, será um ambiente extrema e completamente diferente do que se viu no encontro anterior entre as duas seleções em Copas. Um encontro que deu razões até para o surgimento de um estereótipo: decisões de terceiro e quarto lugares nos Mundiais costumam ser aborrecidas antes da bola rolar, e até animadas durante os 90 minutos. Pelo menos, foi assim naquele 4 a 2 dos franceses, em 28 de junho de 1986, na cidade mexicana de Puebla.

O clima de depressão era inegável, antes do jogo começar. Nem tanto, do lado da Bélgica. Afinal de contas, contra o nível ionosférico que Diego Maradona alcançara em campo naquela Copa, não houve o que a defesa dos Diabos Vermelhos pudesse fazer nas semifinais. Além do mais, havia o cansaço de uma prorrogação contra a então União Soviética, nas oitavas de final, e dos 120 minutos mais chutes da marca do pênalti contra a Espanha, nas quartas. Então, não só o clima era de amenidade, como o próprio time comandado por Guy Thys estava refeito para aquela decisão. Todos os principais destaques iriam a campo em busca do terceiro lugar: o goleiro Jean-Marie Pfaff (quase unanimemente apontado o melhor daquela Copa), o zagueiro Georges Grün, o meio-campo Vincenzo Scifo e o atacante Jan Ceulemans.

Na França, sim, o fim de festa era claro. Ao superar o Brasil na palpitante partida das quartas de final, a marcante geração dos Bleus – Manuel Amoros, Maxime Bossis, Alain Giresse, Dominique Rocheteau, Jean Tigana e, acima de todos, Michel Platini – chegou confiante para a semifinal contra a Alemanha, oportunidade grande para revanchar a queda traumática em 1982. Só que a Mannschaft conseguiu um gol precoce, numa falta de Andreas Brehme com falha do goleiro Joël Bats, logo aos oito minutos. Levou aquela semifinal como quis, se valendo do nervosismo e da falta de objetividade francesa nos ataques (um jornal mexicano estampava que a atuação nas semifinais fora “um champanhe que não borbulhava”). Num contra-ataque no penúltimo minuto, Rudi Völler fez 2 a 0 e colocou a Alemanha na final. Aos franceses, chegava o fim decepcionante da geração. Fim escancarado na escalação para a decisão do terceiro lugar: vários reservas, do goleiro Albert Rust (medalha de ouro no torneio olímpico de futebol em 1984) ao meio-campista Philippe Vercruysse, passando por quem perdera a posição no decorrer da Copa (caso do meia Bernard Genghini e do atacante Jean-Pierre Papin). De titulares absolutos nos Bleus para o jogo, só Amoros, Patrick Battiston e Tigana. Para se ter uma ideia da informalidade francesa naquele jogo, Platini e Bats até foram ao estádio, mas sequer colocaram um agasalho esportivo: ficaram de camisa social na tribuna.

Piorando as coisas, o estádio Cuauhtémoc de Puebla teve número reduzido de espectadores. Dos 21 mil lugares de capacidade oficial, apenas a metade estava ocupada. Um setor construído especialmente para a Copa, com cerca de 8 mil lugares, ficou às moscas. Assim, com clarões visíveis nas arquibancadas, começou a partida que definia o terceiro lugar daquela Copa. E o maior entusiasmo da Bélgica para terminar aquela campanha já honrosa rendeu a abertura do placar: aos 11 minutos, Ceulemans tocou na saída de Rust para fazer 1 a 0. Só então a França “entrou” na partida. Gente como o atacante Bruno Bellone passou a acelerar mais o ritmo. Com qualidade técnica bem maior, não demorou para a virada acontecer. Aos 27 minutos, Jean-Marc Ferreri recebeu de Bellone na área e chutou para empatar; aos 43, Papin aproveitou bola perdida na área e tocou sobre Pfaff para marcar seu segundo gol naquela Copa.

Desde então, o clima de “amistoso de luxo” se impunha. Uma chance aqui, uma falta mais dura ali (logo amenizada com pedido de desculpas), um marasmo acolá. O que mudou aos 27 minutos do segundo tempo: na área, Nico Claesen ficou com a bola e chutou rasteiro e cruzado, no contrapé de Rust, para empatar o jogo. Claesen comemorou bastante, e a Bélgica reanimou o jogo. Os 90 minutos terminaram com alguma alternância nos ataques. E só a prorrogação definiria o terceiro colocado daquela Copa, como jamais acontecera antes – e como ainda não ocorreu até agora. Debaixo do sol previsivelmente escaldante em Puebla, com os jogadores cansados, um dirigente belga chegou a perguntar à Fifa sobre a possibilidade das duas seleções dividirem o terceiro lugar. Hipótese obviamente rechaçada de pronto pela Fifa.

Essa emoção seguiu até o final da primeira parte do tempo extra. Aos 14 minutos, após escanteio, Genghini dominou a bola, se virou na entrada da pequena área e chutou no canto de Pfaff para recolocar a França na frente. E os Bleus se aliviaram definitivamente na segunda parte, aos sete minutos. Amoros foi derrubado por Eric Gerets, e o juiz norte-irlandês George Courtney apitou o pênalti. Ótimo cobrador, Amoros bateu para o 4 a 2 e definiu a terceira posição naquela decisão relaxada e inesperadamente animada. Exatamente o inverso do que ocorrerá em São Petersburgo, quando coisa muito mais importante estará em disputa (e a tensão será muito maior) para franceses e belgas.