Sim, milhões de libras estavam em jogo neste sábado em Wembley. O acesso à Premier League significa receber um dinheiro surreal, especialmente pelos direitos de transmissão da TV. A importância das receitas é inegável, e a imprensa tantas vezes bate nesta tecla. A decisão dos playoffs da Championship, porém, possui uma importância bem maior. É aquilo que não entra nos balancetes, que não satisfaz apenas os donos dos clubes, que não se prende ao negócio. Há uma emoção que se transborda, como em pouquíssimos jogos na temporada inglesa. E há, claro, o sonho de uma torcida. Quem torce a um clube que não está na elite sabe muito bem o prazer que é conquistar o acesso. Mais do que uma glória, é uma alegria explosiva e aliviante, por se colocar novamente um nível acima de seus demais rivais no campeonato. Por gritar mais alto, por dizer onde é seu lugar. A Fulham ou Aston Villa, havia um simbolismo ainda maior, considerando o passado de ambas as instituições. Ao final, o gosto foi todo dos londrinos, que fizeram Wembley explodir com a vitória por 1 a 0 – e embolsarão ao menos £143 milhões.

Em tradição e títulos, o Aston Villa possui uma relevância inegavelmente maior que o Fulham. Ao longo deste século, entretanto, os Cottagers viveram momentos felizes na Premier League. Depois de ficarem mais de 30 anos longe da primeira divisão, os londrinos retornaram em 2001. Passaram 13 temporadas consecutivas no escalão principal, como um time que por vezes terminava na parte superior da tabela, até que o descenso acontecesse em 2014. O recomeço na Championship, de qualquer maneira, não seria fácil. Em dois anos consecutivos, a equipe beirou o rebaixamento. A reconstrução começaria a partir da chegada do técnico Slaviša Jokanović, que evitou os riscos e, em sua primeira temporada completa, já levou seus comandados aos playoffs.

Já nesta temporada, o Fulham faria uma campanha crescente. O primeiro turno na Championship 2017/18 não foi nada bom, entre as oscilações que mantinham os Cottagers em posições intermediárias na tabela. Já em dezembro, se iniciou a escalada. Os londrinos passaram a emendar vitórias consecutivas, ascendendo na classificação. A partir de fevereiro, já se colocaram na zona dos playoffs. E com uma sequência invicta que chegou a alcançar 23 partidas, os alvinegros lutaram com o Cardiff City pelo acesso direto, com uma breve estadia na segunda colocação. Não conseguiram se manter, mas eram os favoritos aos playoffs. Algo que se referendou ao superarem jogos difíceis contra o Derby County nas semifinais. Apesar da derrota por 1 a 0 na ida, reverteram a situação com os 2 a 0 em Craven Cottage, comandados por grande atuação de Ryan Sessegnon. A reviravolta confirmava presença em Wembley neste sábado. Viria um jogo de proporções gigantes contra a tarimbada equipe do Aston Villa.

O primeiro tempo teve total domínio do Fulham. O Aston Villa até se aproximou da meta londrina vez ou outra, apostando nos contragolpes. Mas os Cottagers tinham controle do duelo, com mais posse de bola, apesar de encontrarem um pouco mais de dificuldades para se infiltrar na área. Quando encontrou sua brecha, no entanto, o Fulham foi brilhante. O gol da vitória saiu aos 23 minutos, e Ryan Sessegnon sublinhou porque é um dos talentos mais aclamados do futebol inglês. O garoto dominou uma tijolada, limpou a marcação e deu uma enfiada de bola sublime, mandando o passe entre os veteraníssimos John Terry e Alan Hutton. Deixou Tom Cairney na cara do gol, e o companheiro não perdoou. No mais, os Villans só assustariam com uma cobrança de falta ensaiada, mas era pouco para botar em xeque a supremacia dos alvinegros.

O jogo se transformou no segundo tempo. O Aston Villa voltou dos vestiários com outra atitude, acelerando, se impondo no campo de ataque. Jack Grealish e Albert Adomah eram as principais válvulas de escape da equipe, incomodando bastante. Grealish, aliás, esteve muito próximo de anotar um golaço. Após fazer fila na defesa adversária, parou apenas em boa defesa do goleiro Marcus Bettinelli. Pouco depois, o Fulham daria sua resposta, em lance que quase rendeu a segunda assistência a Sessegnon. A finalização de Stefan Johansen passou por cima do travessão. De qualquer maneira, os londrinos dependiam muito mais das bolas paradas e das arrancadas, sem controle da posse de bola ante a pressão dos Villans na marcação.

Nos 20 minutos finais, a situação ficaria ainda mais dramática. O zagueiro Denis Odoi recebeu o segundo cartão amarelo e deixou o Fulham com um a menos. A deixa para que o Aston Villa avançasse totalmente no campo de ataque. Além disso, as alterações aumentavam ainda mais o poderio ofensivo do clube de Birmingham. Seria uma blitz contínua, embora os alvinegros protegessem bem a entrada de sua área, sem conceder tantos espaços. Os Cottagers iam amarrando muito bem os instantes finais, gastando o tempo, impedindo que os Villans sufocassem. Exceção feita a uma cobrança de falta de Robert Snodgrass que saiu raspando e da reclamação por um suposto pênalti, os grenás não conseguiram muito. Ao apito final, a festa era alvinegra.

As cenas em Wembley prendiam os olhos. Do lado do Aston Villa, desolação total. Torcedor do clube, o príncipe William não escondia a tristeza nas arquibancadas. Já em campo, o momento mais marcante ficou para o abraço de Terry no jovem Grealish, em claro sinal de consolação. Todavia, existia um lado vitorioso. E o Fulham não se conteve. Os jogadores saíram em disparada para comemorar com a torcida. Êxtase que terminou com a entrega da taça, sublinhando a promoção.

O acesso do Fulham é merecido. Pela maneira como o clube cresceu de produção neste ano, realmente se colocou entre os melhores da Championship. Agora, terá a chance de desfrutar novamente a Premier League, assim como o empresário Shahid Kahn poderá mostrar serviço. Dono do Jacksonville Jaguars na NFL, o americano de origem paquistanesa recebeu críticas em seus primeiros meses, chegando na temporada do rebaixamento na Premier League e vivendo também as penúrias na Championship. Com a consolidação dos Cottagers, seu nome se expõe, justo quando se oferece como um potencial comprador de Wembley.

Além do mais, o Fulham possui peças que podem seguir em frente na Premier League. Sessegnon é o óbvio protagonista, embora outros clubes cresçam os olhos no meia de 18 anos. Junto com ele, Tom Cairney foi bem ao longo de boa parte da campanha, eleito para a seleção da Championship, principal termômetro em campo. No meio, Johansen é outro bom valor, pela qualidade que possui na organização de jogo. Aleksandar Mitrovic se encaixou muitíssimo bem na equipe, após chegar de empréstimo junto ao Newcastle – foram 12 gols em 19 partidas ao sérvio, que vai com moral à Copa do Mundo. E, mais atrás, Ryan Fredericks se sobressaiu pela capacidade no apoio.

Dentre os times que sobem, sem dúvidas, o Wolverhampton está um passo à frente. Mas Cardiff City e Fulham possuem suas virtudes para sonhar com a permanência, em uma briga que tende a ser equilibrada, até pelo que se viu nesta temporada da Premier League. Dinheiro não deve faltar para se investir e melhorar o potencial dos Cottagers. Quem sabe, para outra estadia estável na elite. A um clube modesto, já seria o desejo mais que realizado.