Ricardo Gareca, o novo técnico do Palmeiras, com o presidente Paulo Nobre

O futebol brasileiro ainda é uma festa estranha e com gente esquisita para Gareca

Tudo ainda é muito novo para Ricardo Gareca. A sala de imprensa do Palmeiras, lotada, impressionou. O pedido dos fotógrafos para posar com a camisa número 9 que ganhou das mãos do presidente Paulo Nobre soou estranho. Recebeu também um cartão de membro do sócio-torcedor do Palmeiras e não sabia se o mostrava às câmeras ou o colocava na carteira. Pediu para alguns jornalistas falarem mais devagar, entendeu errado algumas perguntas. O futebol brasileiro ainda é uma festa estranha com gente esquisita para o simpático novo treinador alviverde.

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Gareca chegou ao Brasil na última quarta-feira e foi recepcionado por um batalhão de jornalistas em Guarulhos. Assinou contrato de um ano, pegou estrada para Araraquara para acompanhar a vitória do Palmeiras sobre o Figueirense e foi apresentado nesta sexta. Tudo muito rápido, sem tempo para respirar e também sem condições de passar aos torcedores o que pensa sobre futebol, sobre o clube e seus jogadores.

Não quis falar sobre ninguém especificamente, nem de Valdivia, o principal nome do time. Recusou-se a individualizar avaliações até conhecer melhor os jogadores. Vai conversar com eles cara a cara – valoriza muito isso – reunir-se com Alberto Valentim, o impecável interino do clube que venceu quatro partidas seguidas e será o segundo auxiliar de Gareca, e observar os últimos três jogos do Palmeiras antes da Copa do Mundo.

Assume o clube depois das férias e acha que isso basta como período de adaptação. O que não quer dizer que é o suficiente para dominar todos os aspectos do futebol brasileiro, mas não vai usar o estranhamento como desculpa para eventuais resultados ruins. “Não quero nada de presente, nem da imprensa e nem da torcida”, disse. “Quando voltar das férias, já saberei tudo. Não há período de adaptação. Tenho de ganhar. Não posso prometer títulos, pois vivo o presente, mas essa é minha expectativa. Tenho 20 anos de carreira como treinador e estou preparado para dirigir um time como o Palmeiras.”

Um time como o Palmeiras. O torcedor palmeirense com mais complexo de grandeza deve ter adorado o discurso cheio de respeito de Gareca, que citou os oito títulos brasileiros do clube, contando aqueles que a CBF certificou, a Libertadores de 1999 e seu respeito pelo ex-treinador alviverde Luiz Felipe Scolari. “É o maior vencedor nacional do Brasil. Nós que temos que nos adaptar ao Palmeiras, o Palmeiras não tem que se adaptar a nós. A história desse clube é muito maior que a minha”, afirmou.

Ele decepcionou aqueles que acreditam que o futebol brasileiro pode se beneficiar de um olhar externo. Além de Felipão, listou Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Tite e Cuca como exemplos de profissionais que admira e comentou que o futebol praticado pelo Brasil está muito acima do argentino. “Não trago nada de novo, nada que vocês não conheçam. Eu que venho aprender com o futebol brasileiro. Não é habitual para um estrangeiro dirigir um time no Brasil. Espero corresponder à exigência de um clube como o Palmeiras”, afirmou o treinador de 56 anos.

A tática para desarmar os desconfiados e lidar com os preconceituosos é clara e correta. Gareca não chegou como o messias que vai salvar o futebol brasileiro do atraso. Mas com sorrisos simpáticos, educação, paciência de tentar entender o português e a humildade de não se considerar o guardião do segredo do sucesso.  Não prometeu revolucionar nada, apenas trabalhar muito. Tem um pouco disso tudo na decisão de assumir o clube apenas depois das férias. Terá tempo para observar, aprender e estudar antes de ter que tomar decisões e ser cobrado por elas.

E não há motivo para pressa. Gareca tem um ano – tempo suficiente, segundo ele – para conhecer o futebol brasileiro e se tornar amigo dele. Avaliar os jogadores, armar o time, aprimorar a comunicação com os jornalistas que não falam espanhol e se acostumar com as piadas. As primeiras gracinhas foram rechaçadas sem cerimônia: não quis falar do seu estilo de se vestir ou dos sósias que a internet tão rapidamente desenterrou e negou que tenha problemas com a cor verde. Com isso fora do caminho, hora de começar o trabalho.

“Terminou?”, perguntou, ainda meio perdido, ao ver os jornalistas se levantarem. Não, caro Gareca, com “e” fechado, como se tivesse acento circunflexo. Acabou de começar.

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