Enquanto o conflito civil na Síria não cessar, milhares morrerão e outros tantos fugirão do país. A intensa guerra que se desdobrou no país do Oriente Médio a partir de março de 2011, contra o regime de Bashar al-Assad, tem estimativas de 120 mil vítimas fatais, 4,5 milhões de desabrigados e 2,2 milhões de refugiados. Boa parte dessa massa populacional que busca segurança nas nações vizinhas segue para a Jordânia. E, nesses diversos campos de refugiados, o futebol mais uma vez serve como esperança para dias melhores.

A história de Bassam é contada pelo jornal inglês The Guardian. Atacante do Izra, um clube amador da cidade de Daraa, o homem de 31 anos foi um dos milhares obrigados a deixar o território sírio para sobreviver. Mudou-se para Za’atari, que, de segundo maior campo de refugiados do mundo, já se tornou a quarta maior cidade da Jordânia. São 120 mil pessoas vivendo no campo, com 400 novos moradores por dia. Um local marcado pelo intenso comércio desenvolvido pelos sírios. Pelo futebol que surge como uma flor no deserto, para dar um alento às crianças que sofrem com uma realidade tão dura.

“Não podíamos ficar mais na Síria porque nossas vidas eram ameaçadas diariamente. Somos sírios, vivendo sob um regime muito opressor e clamando por liberdade. Não há diferenciação entre idosos, crianças e mulheres. Eles estão mirando a todos. Eles bombardeiam casas, vilas. A situação tornou-se impossível. Então fugimos para a Jordânia, para evitar a perseguição”, afirmou Bassam, que coordena diversos projetos que promovem a prática do futebol em Za’atari. “Estou aprendendo como transformar a situação das crianças traumatizadas, criando atividades divertidas através do futebol”.

O futebol tem sido utilizado de maneira ostensiva até mesmo por organizações internacionais na Jordânia. A Save the Children, por exemplo, providencia aulas do esporte às crianças sírias refugiadas. Entre os apoiadores da iniciativa está o Arsenal, que promoveu a visita do ex-defensor Martin Keown aos projetos fomentados na região. Ao lado da organização não-governamental, a embaixada brasileira também realizou uma academia às crianças, com a presença de treinadores do país.

“Temos a reabilitação dos refugiados sírios através do esporte e, particularmente, do futebol. As crianças chegam aqui completamente devastadas. Muitas delas viram membros de suas famílias mortos diante de seus olhos. A jornada até a Jordânia é muito difícil. Então, estamos tentando remover o medo e dar um senso de normalidade através do futebol. O futebol é o esporte mais popular, desempenha o papel de uma mãe. É a única saída que as crianças têm. A vida em um campo de refugiados é difícil e o futebol alivia o sofrimento”, completa Bassam.

O campo de refugiados de Za'atari, segundo maior do mundo

O campo de refugiados de Za’atari, segundo maior do mundo

E não são apenas as crianças que têm sua válvula de escape no futebol. O futebol também tem sido introduzido entre as mulheres refugiadas em Za’atari. Quem encabeça o projeto no campo é Abeer Rantisi, meio-campista da seleção feminina da Jordânia, primeira equipe árabe classificada para o Campeonato Asiático. O problema é justamente conciliar a realidade das leis impostas sobre as mulheres da Síria, onde o islamismo praticado é bem menos liberal do que no novo país que as acolheu.

“Nos programas de futebol, o principal que podemos trabalhar é a autoconfiança. Pegamos essas pessoas e dizer que podem conseguir o que querem. Podemos fazer as crianças mais resistentes. Eles estavam sofrendo na Síria e, agora que estão aqui, temos que trazê-los de volta à vida”, explica. “Já as mulheres são um desafio. Elas não têm noção de esportes, sobretudo. Temos que explicar que temos seleções, falar sobre o tema. Elas nunca viram na televisão, não estão preparadas fisicamente”.

Entre os maiores apoiadores do futebol na Jordânia está o Príncipe Ali Bin al-Hussein, irmão do rei, que é o presidente da federação e vice-presidente da Fifa. Além de fomentar intensamente a seleção nacional, eliminada na repescagem da Copa do Mundo para o Uruguai, ele patrocina 15 centros de incentivo ao futebol feminino. Também tem sido um dos articuladores nas aberturas da Fifa quanto aos costumes islâmicos, como o uso do hijab. A isso, Rantisi soma suas forças para agir.

“É um trabalho realmente difícil, porque elas vêm de comunidades conservadoras e não são permitidas a jogar em público, então temos que ter certeza que estão escondidas o tempo todo. É realmente um grande problema. Você pode ver que o campo é aberto em todos os lados. Temos que encontrar lugares seguros e privados para que as garotas participem do projeto”, relata a jogadora.

Acima de tudo, o futebol é utilizado para aproximar as pessoas. É o espaço comum onde todos podem compartilhar experiências, arranjar um passatempo e, principalmente, se sobrepor a uma realidade dura, que se impõe todos os dias, em todos os cantos. Se o esporte já tem a capacidade de realizar transformações em localidades estáveis, em um campo de refugiados esse poder se potencializa. Mais que um jogo, é esperança de vida.