Zetti durante o minuto de silêncio em homenagem a Ayrton Senna (Reprodução)

O futebol no dia em que Senna morreu

Primeiro de maio de 1994 será sempre lembrado pela morte de Ayrton Senna. É o que está acontecendo nesta quinta, 20º aniversário daquele dia trágico. Mas, tivesse aquele domingo sido normal, com o piloto brasileiro feito um GP de San Marino como se esperava, aquele dia poderia ficar marcado pelo futebol. Afinal, as três maiores metrópoles brasileiras tinham clássicos decisivos pelos campeonatos estaduais.

>>> Tema da semana: O futebol e os 20 anos da morte de Ayrton Senna

Naquele ano, o primeiro semestre foi encurtado por causa da Copa do Mundo. assim, os estaduais adotaram fórmulas mais enxutas para se encerrarem antes de junho, junto com a temporada europeia. Assim, o 1º de maio marcava a reta final das competições. E calhou de ter Flamengo x Vasco, Palmeiras x São Paulo e Cruzeiro x Atlético Mineiro.

O clássico de Belo Horizonte era, na prática, uma final de um torneio de pontos corridos. Comandado pelos promissores Ronaldo e Dida e os experientes Luizinho, Ademir e Toninho Cerezo, o Cruzeiro liderava o campeonato de forma invicta, com 29 pontos, três de vantagem sobre o Atlético da dupla Renato Gaúcho e Gaúcho. Como os celestes tinham uma partida a menos e a vitória valia dois pontos na época, só uma vitória alvinegra reabriria a disputa do título a três rodadas do final.

O Cruzeiro começou melhor, mas o Galo abriu o marcador aos 31 minutos do primeiro tempo, com Gaúcho aproveitando cruzamento do lateral-esquerdo Paulo Roberto. A Raposa iniciou forte o segundo tempo, criando algumas oportunidades até que, aos 8 minutos, o lateral-direito Paulo Roberto cruzou para Cleison empatar, de cabeça.

Aquele jogo só reforçou a condição do Cruzeiro como provável campeão mineiro daquele ano. No domingo seguinte, a Raposa fez 6 a 1 no América e, no dia 11, bateu a Caldense por 5 a 3 em Poços de Caldas e conquistou o título invicto. Ronaldo foi o artilheiro, com 22 gols.

>>> Como o automobilismo ocupou o vazio deixado pela má fase do futebol brasileiro

Ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro também via um empate em confronto direto. No quadrangular decisivo, o Flamengo liderava após a terceira rodada com 6 pontos. O Vasco, que tinha dois pontos extras pela campanha na primeira fase, estava com 5. No domingo anterior, o Rubro-Negro havia vencido por 2 a 1 e uma nova vitória deixaria o título muito próximo à Gávea.

No começo do jogo, os 76.894 torcedores homenagearam Senna, morto horas antes. No jogo em si, nada definido. Índio abriu o marcador aos 20 minutos do primeiro tempo, mas Jardel empatou para o Vasco no minuto seguinte.

O placar de 1 a 1 manteve o Flamengo na ponta, mas com o Vasco na cola. Na rodada seguinte, o Fluminense (que, na antevéspera da morte de Senna, havia feito 7 a 1 no Botafogo) bateu o Rubro-Negro e permitiu aos cruzmaltinos retomarem a liderança, que foi mantida na rodada final.

Apesar dos grandes clássicos de Minas e Rio, o jogo que ficou mais marcado pelo dia da morte de Senna foi realizado em São Paulo. O Palmeiras, então campeão brasileiro, enfrentava o São Paulo, então bicampeão mundial. De um lado, nomes como Roberto Carlos, César Sampaio, Mazinho, Rincón, Zinho, Evair e Vanderlei Luxemburgo. Do outro, Zetti, Cafu, Palhinha, Juninho Paulista, Leonardo, Müller e Telê Santana.

>>> O futebol é maior que tudo, mas não tem (e dificilmente terá) um Senna

O Alviverde liderava o torneio com 37 pontos em 25 jogos. No entanto, o Tricolor tinha 34 pontos e assumiria a ponta se vencesse os dois jogos a menos que tinha. Por isso, o Choque-Rei daquele 1º de maio praticamente decidiria o título paulista. Quem vencesse ficaria muito próximo do título. Um empate deixaria a briga ainda aberta, colocando ainda o Corinthians (que foi a 36 pontos em 26 jogos após vencer o Ituano no sábado) na disputa.

O jogo já havia começado quando ocorreu a cena que ficou tão famosa. O árbitro paraguaio Juan Escobar paralisou a partida com 5 minutos para o minuto de silêncio em homenagem a Ayrton Senna. Vários jogadores rezaram, mas a imagem mais marcante foi a de César Sampaio ajoelhado. As torcidas dos dois times (público de 58.103) deixaram as provocações de lado e cantam “olê, olé, olé, olá, Senna, Senna” (mesmo canto que se ouviu no Rio).

O São Paulo começou melhor. Rincón não estava bem e o Palmeiras não conseguia armar jogadas de perigo. Evair e Edílson (Edmundo estava afastado por indisciplina após reclamar de sua substituição na partida anterior, um 0 a 0 contra o mesmo São Paulo pelas oitavas de final da Libertadores) se perdiam no meio da defesa adversária, até porque Telê armara sua equipe com um líbero, Válber. Euller colocou o tricolor na frente, aproveitando um cruzamento de Leonardo.

Mesmo mal, o Palmeiras conseguiu o empate com Edílson, concluindo uma cobrança de escanteio. Pouco depois, o tricolor voltou a ficar em vantagem. Cléber rebateu mal um cruzamento de André Luiz e Muller finalizou sem chances para Gato Fernández.

>>> Como uma tiração de sarro futebolística criou a principal marca de Senna

No segundo tempo, o time de Luxemburgo tomou a iniciativa, mas sofria com a bem armada defesa são-paulina e os rápidos contra-ataques puxados por Leonardo e Euller. Aos 29 minutos, escanteio para o Palmeiras. Com pressa, Mazinho cobrou rápido. No entanto, Juan Escobar mandou o palmeirense voltar para permitir uma substituição: Luxemburgo trocava o lateral-direito Cláudio e pelo atacante Maurílio. A torcida alviverde não gostou e chamou o treinador do time de “burro”.

No cruzamento, a bola passou pelo meio da área e sobrou no pé de Maurílio, que empatou o jogo em seu primeiro toque na bola.

A partir daquele momento, o Palmeiras ganhou corpo, enquanto o São Paulo demonstrava as primeiras falhas defensivas. Aos 38 minutos, Nem derrubou Maurílio. Evair cobrou no canto de Zetti, deixando o Palmeiras com os dois pontos e muito próximo do bicampeonato paulista.

O título palmeirense foi oficializado após um empate do São Paulo com o Novorizontino no Morumbi, em um extravagante 4 a 4. Horas depois, a torcida alviverde fazia sua festa no Bruno José Daniel, onde o Palmeiras venceu o Santo André por 1 a 0.