Não é só o título que é provocativo, mas a obra inteira. “O Futebol dos Imbecis e os Imbecis do Futebol”, do jornalista Sérgio Arapuã de Andrade não perdoa ninguém. Arapuã é conhecido por suas tiradas rápidas e pelo seu humor sutil e ao mesmo tempo demolidor. Neste livro, ele arma suas jogadas para cima do futebol e faz uma crítica engraçada dos cartolas, dos retranqueiros e da mídia conivente, contando histórias e casos sobre esse esporte.

Sérgio de Andrade, o Arapuã, nasceu em São Paulo em 1928. Bacharel em Direito pela USP, tornou-se jornalista, publicitário e homem de marketing. É provavelmente mais lembrado por sua coluna “Oras Bolas!”, no jornal Última Hora das décadas de 60 e 70, onde praticava engraçadas críticas de costumes, de política e futebol.

Como é o futebol dos imbecis? Quem são os imbecis do futebol? O autor define como futebol dos imbecis o padrão de jogo ultrapassado, paralítico e sonâmbulo. E os imbecis, algumas pessoas que dirigiram clubes, como o Zezé Moreira, técnico com fama justamente de levar a desgraça aos times que liderava. Grande parte da mídia que não discute, não se arrisca a ser subversiva e que elege o jogo pelas pontas como garantia insubstituível para chegar ao gol.

Arapuã classifica o futebol brasileiro como terminal, lento, sonolento e que joga sempre em lances paralelos ao gol adversário. Acredita que não foram os outros que se igualaram a nós e sim nós que nos rebaixamos ao nível deles.

Com uma linguagem bem-humorada, a obra é dividida em três capítulos recheados de crônicas que analisam como a Seleção tornou-se tão desacreditada. Como por exemplo, o fato do nosso futebol não alcançar mais aquela identificação de torcida e time, torcedor e jogador. Nota-se que o livro foi escrito em 2002, antes da Copa do Mundo.

A partir deste ponto, o escritor aborda a violência coletiva das torcidas. Durante o jogo, os ‘torcedores’ gesticulam, elevam-se ao ar, vaiam, berram, sobem nas proteções do gramado e chegam a invadi-lo. É massa potencialmente violenta, com sua descomunal energia exigindo liberação. Quando o jogador faz gol, marca também a licença para a força coletiva agir com vandalismo.

Na obra, Arapuã diz ainda que o futebol do nosso país começou a desaparecer, com um pôr-do-sol, no dia 16 de julho de 1950, no Maracanã, Rio de Janeiro. Nesse dia os uruguaianos nos bateram por 2 a 1, na final da Copa do Mundo. Para o jornalista, naquele ano, os brasileiros foram fulminados pelo maior trauma coletivo de sua história, algo que mexeu em todas as estruturas, provocou suicídios, choro e lamentações em massa.

Embora o livro carregue muitas críticas sobre o esporte praticado no Brasil, também ressalta algumas pessoas que fizeram e alguns ainda fazem um trabalho bom. Como, por exemplo, Telê Santana, um incansável jogador que honrou a nobreza do futebol ao praticá-lo como uma borboleta flutuante e alguns profissionais da mídia que tratavam e tratam o futebol como uma manifestação corporal, revolucionária, sempre subversiva, nunca submissa a grilhões defensivistas ou a rumificações lógicas.

Para Arapuã, o futebol deve ser alegria de jogar, prazer de trocar as bolas correndo e driblando. Não existe essa dicotomia de futebol-arte x futebol-resultado. A duplicidade antagônica se estabelece na medida em que o resultado se coloca como oposto à arte. A prática do esporte arejado, de intensa mobilidade, mostraria que não existe tática que não funcione quando se respeita e se dignifica o jogo de bola.

Em suma, para termos um futebol mais alegre, bonito e ofensivo, cartolas e torcedores de todos os clubes de futebol do Brasil deveriam ter na cabeceira “O Futebol dos Imbecis e os Imbecis do Futebol”, do Arapuã. Grande obra de uma grande figura.