Nelson Mandela foi um dos maiores libertadores do Século 20. Não lutou pela independência da África do Sul, mas por algo bem mais profundo, carregando a bandeira dos direitos iguais em um país fortemente marcado pela segregação. Sua vitória resultou no fim do Apartheid, em seu triunfo nas urnas durante as primeiras eleições presidenciais livres. Sobretudo, nas esperanças dadas a uma massa sem grandes perspectivas.

Líder nato, Mandela cativava multidões através de seu caráter. No entanto, o Nobel da Paz de 1993 sabia que sua imagem e a história não eram suficientes para promover uma união cada vez maior entre a população. Foi muitíssimo habilidoso ao utilizar o esporte como ferramenta de aproximação entre segmentos sociais que passaram décadas distantes por conta do racismo.

“Os esportes têm poder para mudar o mundo. Poder para unir as pessoas como poucas coisas conseguem. Fala com a juventude em uma linguagem que podem entender. O esporte pode criar esperança em lugares onde ele apenas desaparece”, afirmava Mandela, em um trecho comum em vários de seus discursos. O estadista transmitia a noção de que, jogando e torcendo juntas, as pessoas acelerariam o fim das divisões que resistissem na África do Sul.

O exemplo mais célebre desta política foi dado durante a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, que se transformou em ícone graças ao filme baseado na história. Esporte mais popular entre os negros, porém, o futebol também foi fundamental nessa integração. A Copa Africana de Nações de 1996, vencida pelos Bafana Bafana, é o grande marco desse processo – e com um simbolismo até maior para a reorganização do país do que a Copa do Mundo de 2010.

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O apartheid no futebol sul-africano

Os primeiros registros da prática de futebol na África do Sul são da década de 1860, em jogos organizados nas portuárias Cidade do Cabo e Porto Elizabeth – que hoje abriga o Estádio Nelson Mandela Bay. Entretanto, os sinais de segregação surgiram logo em sua institucionalização. Fundada em 1892, a Associação de Futebol da África do Sul (Fasa) aceitava apenas brancos. Nas décadas seguintes, mais três federações foram criadas, destinadas a indianos, a negros e a mestiços.

Independente da clara segmentação social, a integração existia de maneira moderada. Na década de 1930, a Copa Suzman foi a primeira competição inter-racial disputada na África do Sul. Já em 1951, com a intensificação das políticas racistas, indianos, negros e mestiços se uniram em uma nova entidade. Cinco anos depois, todavia, o governo sacramentou a política do apartheid nos esportes.

O racismo expresso no futebol excluiu a seleção sul-africana do cenário internacional. Uma das fundadoras da Confederação Africana de Futebol, a federação foi desfiliada pela entidade, assim como ficou de fora da primeira edição da Copa Africana de Nações, justamente por não aceitar equipes multiétnicas. Da mesma forma, os sul-africanos foram suspensos por tempo indeterminado pela Fifa, após anunciarem a intenção de enviar um time de brancos às Eliminatórias da Copa de 1966 e outro de negros em 1970.

Concomitante ao processo oficial de segregação, a profissionalização do futebol na África do Sul acabou com a criação de três ligas nacionais diferentes. Em 1959, a National Football League (NFL) contava apenas com clubes brancos. Dois anos depois, South African Soccer League (SASL) passou a reunir negros, mestiços e indianos. Já em 1971, surgiu a National Premier Soccer League (NPSL), destinada apenas às equipes negras.

Dentro dessa divisão, o futebol foi importante instrumento antiapartheid. A NFL faliu em 1977 e muitos de seus times se juntaram à NPSL no ano seguinte, com a brecha de poderem escalar até três negros. Em 1983, Jomo Somo, um dos maiores jogadores negros do país, estabeleceu um marco ao adquirir o Highlands Park, o clube mais vitorioso entre os brancos. Já em 1985, uma cisão ocorreu e National Soccer League foi criada, sem nenhuma regra racista. O torneio foi o embrião da Premier Soccer League, o atual Campeonato Sul-Africano, fundada em 1996.

Mandela e o futebol

N.Mandela in his cell on Robben Island (revisit} 1994
Praticante de boxe durante a juventude, Nelson Mandela estreitou suas relações com o futebol justamente durante o período em que estava preso por causa da luta antiapartheid. Em 1964, os prisioneiros da Ilha Robben criaram a Makana Football Association.  Uma maneira de manter acesa não apenas a paixão pelo futebol, como também de manter os encarcerados mais próximos.

Mandela não chegou a atuar na Makana Football Association, mas era espectador assíduo do torneio, embora tivesse que se esconder dos guardas para poder assistir aos jogos. Tempos depois, o presidente admitiu a importância do torneio também como distração nos 27 anos que passou aprisionado na Ilha Robben.

A liberdade só veio a Mandela em fevereiro de 1990, durante a intensificação da busca pelo fim do apartheid. E seu primeiro ato público aconteceu no estádio Soccer City, diante de 100 mil espectadores. A luta do ativista refletiu no futebol, com a criação da Associação de Futebol da Sul-Africana (SAFA) em 1991 e a primeira partida da seleção em três décadas, contra Camarões e com um time multirracial em 1993.

Já em 1994, horas depois de assumir a presidência, Mandela visitou o Ellis Park. Pousou de helicóptero no centro do campo durante o intervalo da partida entre os Bafana Bafana e Zâmbia. Levou os 80 mil torcedores presentes no estádio à loucura e ainda viu a vitória dos sul-africanos por 2 a 1, naquele que ficou conhecido como “Mandela Challenge”.

A Copa Africana de Nações de 1996

Diante da popularidade do futebol na África do Sul, sobretudo em relação à população negra, a Copa Africana de Nações de 1996 teve papel central na integração. O país não tinha sido escolhido como sede do torneio inicialmente, assumindo o lugar do Quênia após desistência por problemas econômicos. Três estádios utilizados na Copa do Mundo de Rúgbi de 1995 foram aproveitados, além do Soccer City, símbolo do futebol em Soweto.

No discurso de abertura da CAN, Mandela ressaltou esse caráter de união da competição: “Nós estamos certos que este torneio irá, por sua arte, pelo espírito esportivo e pela organização, justificar a confiança em nosso continente. Esse sucesso será medido não apenas no número de gols marcados, mas também na forma como ele desenha nossas nações mais próximas, assim como nossa talentosa juventude adiciona outro tijolo na edificação do renascimento da África” [confira o texto, na íntegra, no fim da matéria].

E para ajudar a proposta da África do Sul, nada melhor que o título dos Bafana Bafana. Apesar da pouca experiência internacional, a seleção deixou para trás Angola, Camarões, Egito, Argélia e Gana, antes de bater a Tunísia por 2 a 0 na decisão, vista por 80 mil pessoas. Vestido com a camisa da equipe, Mandela entregou a taça ao capitão Neil Tovey, o primeiro branco a levantar a Copa Africana de Nações, conquistada graças aos dois gols do negro Mark Williams.

Já em 1997, a confirmação do sucesso da África do Sul no futebol. Novamente no Soccer City, desta vez com um gol de Phil Masinga, os Bafana Bafana bateram Congo por 1 a 0 e confirmaram a passagem à Copa do Mundo de 1998. A campanha no Mundial da França foi modesta, com duas derrotas e um empate. Nada que diminuísse o orgulho de um país que, enfim, podia mostrar para o resto do planeta a sua integração.

A Copa do Mundo de 2010

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O último passo para a afirmação do futebol na África do Sul e, de certa forma, da África do Sul como uma nação sem segregações aconteceu em 2004, com a escolha da Copa do Mundo de 2010. Cidade do Cabo já tinha perdido o processo dos Jogos Olímpicos de 2004, assim como os sul-africanos fracassaram na tentativa de receber a Copa de 2006, em uma votação na qual pareciam favoritos. Enfim, os africanos eram eleitos.

Mandela não se fez presente em toda na campanha pela Copa de 2010, encabeçada por Danny Jordan, outro ativista antiapartheid, mas apareceu sempre que foi solicitado. Após o anúncio oficial da Fifa, o ex-presidente reafirmou sua alegria com uma metáfora: “Estou me sentindo como um garoto de 15 anos de idade”.

“Na África, o futebol tem grande popularidade e tem um lugar especial no coração das pessoas. Por isso é tão importante que a Copa do Mundo seja pela primeira vez sediada no continente. Temos que buscar excelência e, ao mesmo tempo, garantir um benefício duradouro a nosso povo. As pessoas da África aprenderam as lições de paciência e resistências em suas longas lutas por liberdade”, declarou, durante o sorteio dos grupos do torneio.

A erupção de alegria na população foi marcante, apesar dos atrasos nas obras “padrão Fifa” e de outros questionamentos sobre os bilhões gastos com uma Copa em um país cheio mazelas sociais. Ainda assim, era a chance de a África do Sul se tornar o centro das atenções do mundo, ainda que por um mês, e demonstrar as evoluções maciças vividas nas duas décadas anteriores. “Ke nako”, dizia Mandela. “É a hora”.

Por conta da morte de sua neta em um acidente de carro, Mandela não compareceu à abertura do Mundial. Porém, esteve no Soccer City antes da decisão entre Espanha e Holanda. Seu discurso reverberava o sentimento da população, de que “foi possível, mostramos ao mundo”. Foi a última grande aparição pública do líder. Um ato de grande simbolismo não apenas pela importância da ocasião, mas também pela imagem transmitida pela África do Sul. Um país unido por Mandela e, graças a ele, também pelo futebol.

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O discurso de Nelson Mandela na cerimônia de abertura da Copa Africana de Nações de 1996

A contagem regressiva acabou.

Pelas próximas três semanas, as melhores nações do futebol na África irão abençoar a África do Sul liberta com a melhor exibição de habilidades que nosso continente pode oferecer. Milhões de amantes do futebol em todo continente, e mais distantes, irão se juntar a nós nesse festival de amizade africana.

Em nome de todos os sul-africanos, eu dou boas-vindas a todos vocês. Abraçamos nossos irmãos e irmãs ao longo do continente, que estarão conosco em espírito neste período empolgante.

A decisão da Confederação Africana de Futebol em dar a 20ª Copa Africana de Nações à África do Sul é o maior presente que a África poderia conceder a nossa comunidade esportiva e, em particular, a nossa fraternidade futebolística. Por isso, agradecemos do fundo de nossos corações. Vocês estão mais uma vez afirmando que nossa jovem democracia encontrou um nicho com a família africana de nações, para aprender e contribuir ao máximo.

O futebol é uma das modalidades esportivas na qual a África está crescendo para demonstrar sua excelência, por muito tempo latente em seu ventre.

Nós estamos certos que este torneio irá, por sua arte, pelo espírito esportivo e pela organização, justificar a confiança colocada em nosso continente. Esse sucesso será medido não apenas no número de gols marcados, mas também na forma como ele desenha nossas nações mais próximas, assim como nossa talentosa juventude adiciona outro tijolo na edificação do renascimento da África.

Agora é meu privilégio declarar isso, a Copa Africana de Nações de 1996 está aberta.